Geral
Neocolonialismo na saúde: países africanos como laboratórios humanos
Críticas ao uso de bases militares para projetos de saúde em países do Sul Global
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam a prática de países como os EUA de usar bases militares no exterior para projetos de saúde por meio de contratos escusos e desiguais que não beneficiam as populações locais.
No Quênia, a população protestou em massa contra a instalação de um centro norte-americano para o combate ao ebola, levantando questões sobre soberania nacional, saúde pública e os interesses que o projeto visa atender.
Uma das razões para a insatisfação foi a crença de que o centro teria como principal objetivo servir aos interesses dos EUA e tratar pacientes estrangeiros, em vez de proteger as comunidades locais.
No final de março, países do continente africano rejeitaram a minuta do texto do Anexo sobre Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS), durante discussões na Organização Mundial da Saúde (OMS), em meio à recusa de alguns países da União Europeia (UE) em aceitar uma exigência vinculativa de compartilhar benefícios com países fornecedores de patógenos.
O caso do centro de ebola no Quênia sinaliza que a ingerência do neoimperialismo dos EUA chegou ao continente africano, conforme apontado pelo professor Gustavo de Andrade Durão, da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), em entrevista ao podcast.
"E a gente tem agora o caso do Quênia como emblemático de mostrar para a gente o que deve ser feito, o que pode ser feito diante dessa ingerência, diante dessa tentativa de tirar a soberania dos países", avalia Durão.
Ele destaca que o caso é um exemplo de como as relações neocoloniais firmadas pelos EUA com outros Estados podem resultar em acordos escusos que não beneficiam a grande parte da população. Um exemplo é o projeto para o centro no Quênia, que tinha como foco a base aérea de Laikipia, destinada a receber cidadãos norte-americanos expostos ao ebola.
"Não havia preocupação com o contingente da população local. Isso feria a população, visto que os investimentos seriam muito poucos em comparação aos benefícios para os Estados Unidos, e ínfimos para os cidadãos locais. Assim, era um projeto visando beneficiar estritamente os norte-americanos," explica Durão.
O historiador acrescenta que, além de expor a população local ao vírus, o centro abria margem para a criação de uma instalação militar dos EUA no Quênia, deixando o país vulnerável a intervenções norte-americanas.
Durão ressalta que países em situação de vulnerabilidade, que não conseguem frear intervenções, podem ser tratados como laboratórios humanos, onde a vida não tem valor.
"Temos que questionar muito essa exploração científica na relação com a autonomia nacional, porque é desumano ver isso acontecer e certas propostas dizendo: 'Ah, faremos a experimentação em tal país na África; se não der certo, não tem problema'. Contudo, se transportarmos essa questão para os países europeus ou para os EUA, isso soaria como um ataque humanitário aos direitos humanos," critica.
Ele destaca que as descobertas científicas da indústria farmacêutica só ocorrem devido aos países ricos em recursos naturais necessários para as pesquisas. É "revoltante" que os benefícios gerados nesse processo sejam capturados pelos países do Norte Global, enquanto o Sul Global tem pouco acesso.
Natalia Fingermann, professora de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), também destaca que a crise do ebola não está dentro do Quênia, mas na fronteira do país, abrangendo territórios de Ruanda e Uganda, onde muitos casos da doença têm sido registrados sem controle.
"Casos que não têm recebido um controle sanitário adequado, até mesmo pela falta de recursos que a OMS enfrenta após a saída dos Estados Unidos. E o governo norte-americano faz a proposta de construir um centro de saúde para cuidar da população norte-americana que estivesse em trânsito na região. Isso foi muito questionado pela oposição ao governo," afirma.
Ela acrescenta que a relação desigual observada entre os países, no caso do centro para tratamento do ebola no Quênia, é recorrente nas relações internacionais, especialmente no que diz respeito aos EUA com países africanos.
"Então, por que fazem isso? Muitas vezes, isso é feito em troca de alguns benefícios privados para essas elites governantes. Vemos desvios de recursos que deveriam ir para fundos públicos e que estão sendo desviados para fundos privados. Esse é um dos motivos que mantém esse sistema neocolonial funcionando," pondera.
Por Sputnik Brasil
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