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Submissão abaixo de zero: analista explica a 'terceirização' da soberania da Groenlândia aos EUA (VÍDEOS)

Copenhague cede às pressões de Washington, e a Groenlândia se torna enclave estratégico dos EUA

Sputnik Brasil 01/10/2026
Submissão abaixo de zero: analista explica a 'terceirização' da soberania da Groenlândia aos EUA (VÍDEOS)
Analista discute a entrega da Groenlândia para os EUA e suas implicações na soberania da região. - Foto: © AP Photo / Julia Demaree Nikhinson

Recentemente, a Dinamarca tensionou a região do Ártico ao assinar um pacto militar que, na prática, transforma a Groenlândia em um enclave estratégico de Washington. Copenhague e o governo autônomo local acabaram cedendo às pressões políticas da Casa Branca, que passa a ter ingerência sobre o território.

Nesse sentido, embora a ilha groenlandesa ainda seja dinamarquesa, o recente acordo firmado representa uma grave perda de soberania por parte de Copenhague, com impactos globais, segundo João Cláudio Pitillo, doutor em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e coordenador do projeto Geoestratégia Estudos, em entrevista à Sputnik Brasil.

"Se o Trump vem exigindo de tudo e de todos concessões e tem sido feliz nas suas ações na América Latina e na Europa, isso pode abrir uma série de precedentes. Veja a maneira como ele ameaça o Canadá. Então nós temos que perceber que essa fraqueza, essa vacilação da Europa, ela não compromete só a Europa, ela compromete o mundo todo", disse.

Para o analista internacional, o aumento da presença norte-americana em Nuuk, além de transformar a região em um protetorado da Casa Branca, também pode estimular os movimentos separatistas já existentes na relação entre o governo autônomo groenlandês e o central dinamarquês.

"Tacitamente a Groenlândia já é estadunidense e para ela se tornar autônoma e ter o apoio também tácito dos Estados Unidos, é um pulo. E essa decadência europeia vai levar a outros movimentos separatistas dentro do bloco europeu", comenta.

Cenário na Groenlândia sinaliza a fraqueza da Europa

No passado recente, líderes europeus tentaram demonstrar unidade e solidariedade à Groenlândia diante da pressão estadunidense, o que incluiu uma visita do presidente francês Emmanuel Macron a Nuuk. No entanto, para Pitillo, o desfecho atual não apenas expõe a fraqueza crônica de uma Europa incapaz de conter o expansionismo de seu principal aliado, mas também como esse acordo é perigoso por não ter sido divulgado integralmente.

"É muito estranho esse movimento dos EUA com relação à Groenlândia, que não há clareza nesse tratado que foi gestado silenciosamente e apareceu na imprensa de maneira parcial. Esses acordos secretos têm um perigo tremendo para o sistema de pesos e contrapesos da política mundial, porque eles podem conter trechos que, se contrariados, levem a um conflito maior", destaca.

Outro ponto levantado pelo especialista é que, além da fragilidade política do bloco europeu, houve também complacência entre os Estados-membros. Como a Dinamarca pertence tanto à OTAN quanto à União Europeia, o desfecho do caso evidencia a atual inércia da Europa diante das pressões externas.

"A submissão é tão vergonhosa e latente que fizeram a entrega da Groenlândia de maneira silenciosa, sem parecer que isso foi uma discussão do bloco [europeu]. O que fizeram foi um jogo de cena para ser menos vergonhoso. Mas essa entrega da Groenlândia com certeza passou por essas lideranças", observa.

Expansão de Washington provoca tensão no Ártico

O especialista adverte ainda que transferir o controle securitário da Groenlândia para os Estados Unidos catalisa a militarização da região, por se tratar de uma estratégia de contenção hostil direcionada à China e à Rússia, que utilizam a Rota Marítima do Norte como um vetor importante de comércio global.

"Veja que a Suécia e a Finlândia logo entraram na OTAN e não tinha razão para Suécia e Finlândia entrarem na OTAN que não fosse para pegar os acessos ao mar do Norte. Os EUA têm por prioridade deter o avanço do comércio russo, chinês e do Sul Global no Ártico, porque é uma rota mais rápida e que vai colocar os produtos de Rússia, China, Vietnã, Índia na Europa, e África e nas Américas com frete muito mais barato", conclui.

Diante do recrudescimento da geopolítica global, que se torna cada vez mais complexa sob pressões políticas e incursões militares, o caso da Groenlândia suscita debates profundos. Entre eles, destacam-se os limites da soberania local e o risco iminente de militarização da estratégica região do Ártico.


Por Sputnik Brasil