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Análise: BRICS deve oferecer financiamento à União Africana para desenvolvimento de infraestruturas

Especialistas discutem os impactos e oportunidades da parceria entre o BRICS e a África.

Sputnik Brasil 28/09/2026
Análise: BRICS deve oferecer financiamento à União Africana para desenvolvimento de infraestruturas
BRICS e a União Africana: parceria estratégica para desenvolvimento de infraestrutura. - Foto: © Sputnik / Maksim Blinov / Acessar o banco de imagens

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram os benefícios da parceria e desmistificaram o pensamento sobre uma possível neocolonização por parte de países como China e Rússia na África atualmente.

A União Africana defendeu, após a última cúpula do BRICS em Nova Deli, capital da Índia, o reforço da aliança entre o grupo e o continente africano, especialmente em relação ao financiamento de infraestruturas de energia e água, além de novas oportunidades para diversificar parcerias e ampliar investimentos em projetos estratégicos.

O presidente rotativo da União Africana e do Burundi, Évariste Ndayishimiye, declarou que o acesso à água potável e ao saneamento são as principais prioridades do grupo continental para 2026, conforme comunicado.

Com especialistas favoráveis ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco do BRICS, a ideia é financiar obras nos países da União Africana. De acordo com os analistas, o tipo de apoio que as nações do BRICS oferecem ao continente africano é totalmente distinto do que foi providenciado pelo Ocidente no passado.

Mamadou Diallo, doutor em estudos estratégicos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), observa que o pedido de apoio da União Africana não é recente. Em 2013, o grupo já pedira um aprofundamento das relações com o BRICS, numa tentativa de se afastar das relações tradicionais com a Europa e os Estados Unidos.

Diallo ressaltou que os países africanos figuraram entre os que mais cresceram entre 2001 e 2010, muitos recebendo investimentos de nações do BRICS, como Brasil, China, Índia e Indonésia. Embora o Banco do BRICS não possua recursos suficientes para atender a todas as demandas africanas, o grupo do Sul Global tem potencial para iniciar uma revolução no continente.

"Quem está por trás do Banco do BRICS? Quem coloca dinheiro no banco? Temos a China e a Rússia, com o Brasil também contribuindo. Portanto, há recursos e capacidade de financiar grande parte desses projetos."

Para o especialista, a África possui tudo o que um investidor procura: recursos, demanda e, especialmente, um mercado. Ele destaca que mais de 60% da população do continente é jovem, que representa um expressivo mercado consumidor nas próximas décadas.

Apesar dos avanços em infraestrutura, como estradas, portos e saneamento, Diallo ainda indica uma grande necessidade de desenvolvimento dessas áreas na África.

"Lembre-se de que no continente africano ainda temos uma grande extensão de terras aráveis e abundantes reservas de recursos estratégicos que estão sendo buscados globalmente. Muitos países têm recursos suficientes e conseguem oferecer garantias para financiar projetos de longo prazo."

Eden Pereira, professor de história e doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do Grupo de Estudos 9 de Maio, e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explica que a África é vista pelo BRICS como uma fronteira de expansão política e diplomática.

Pereira exemplifica sua fala com a entrada do Egito e da Etiópia no grupo, bem como o status de parceiros associados da Nigéria e de Uganda.

"Observamos um grande interesse dos países africanos em estreitar laços com o BRICS como forma de fortalecer sua soberania política e econômica em relação às antigas potências coloniais, além de se posicionarem como atores importantes com suas próprias agendas."

Ele acrescenta que os países africanos ainda enfrentam dificuldades de acessar financiamentos que realmente fomentem suas capacidades produtivas, já que o interesse de grupos econômicos ocidentais é apenas em projetos que gerem lucros altos.

"Esse é um grande diferencial das iniciativas do BRICS, especialmente do Novo Banco de Desenvolvimento, que busca atuar realmente em favor do desenvolvimento material nos países."

Segundo Pereira, um dos principais empecilhos para a concretização de projetos entre o BRICS e os países africanos é o dólar, pois a utilização da moeda americana nas transações dificulta a desvinculação do grupo em relação ao sistema dollarizado.

"É preciso que os países do BRICS pensem em maneiras de desenvolver, gradativamente, uma associação entre o Banco de Desenvolvimento do BRICS e iniciativas de desdolarização, para que esses projetos de financiamento, desenvolvidos em colaboração com diversos países, sejam cada vez menos afetados pelo dólar."

BRICS estão colonizando a África?

A discussão sobre investimentos estrangeiros na África pode remeter a alguns à época em que os colonizadores europeus dividiram o continente e iniciaram a extração de suas riquezas. Após a saída das potências coloniais, a influência sobre a economia africana persistiu, embora não oficialmente.

Diallo é enfático ao afirmar que a antiga dependência africana em relação à Europa não se repetirá e que o pensamento de que os países africanos estão na mesma posição atual é incorreto. Ele sublinha que, atualmente, as nações africanas possuem políticas, estratégias e práticas que orientam suas negociações com investidores internacionais.

Para o especialista, a ideia de que os africanos podem ser economicamente explorados novamente carrega um viés racista, ao sugerir que eles seriam incapazes de identificar seus próprios interesses.

"Claro que existe um discurso recorrente, especialmente entre os ocidentais, que faz parte da disputa pelos recursos, alegando que os africanos estão substituindo a colonização europeia pela colonização chinesa; porém, isso é um discurso antigo. Não acredito que haja uma substituição de colonialismos, mas sim que a era das colonizações acabou, mesmo que alguns ainda não compreendam isso."

Diallo também explica que os países africanos não buscam unicamente financiamentos para projetos, mas também a transferência de tecnologia integrada a essas iniciativas.

"Acredito que os países do BRICS têm a capacidade de ajudar significativamente no desenvolvimento de infraestrutura e tecnologia do continente, contribuindo para transformá-lo. Hoje, não há outra opção: qualquer país africano que deseje continuar com relações do passado não prosperará."

Pereira destaca que o BRICS tem como vantagem o processo de agregar potências regionais ao grupo de forma coordenada, mantendo um equilíbrio. As características dessa expansão, fundamentadas no consenso, contrastam com o que se observa no Conselho de Segurança da ONU.

"Esse princípio [de consenso] se perdeu na ONU, mas o BRICS o reafirma a cada cúpula. Com a entrada dos países africanos, evidentes conflitos surgirão, mas terão tendência a serem resolvidos a partir desse princípio."


Por Sputnik Brasil