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Racha no Ocidente: por que 'velhos' aliados estão se distanciando? Analista explica (VÍDEOS)

Análise sobre a desconfiança crescente entre aliados ocidentais

Sputnik Brasil 24/09/2026
Racha no Ocidente: por que 'velhos' aliados estão se distanciando? Analista explica (VÍDEOS)
Análise de Igor Estima Sardo sobre a tensão entre aliados ocidentais e o impacto nas relações internacionais. - Foto: © AP Photo / Evan Vucci

A pressão exercida pelos EUA contra aliados como o Canadá e a União Europeia desencadeou uma onda de desconfiança mútua que fraturou a estabilidade do bloco ocidental. Diante das oscilações políticas da Casa Branca, esses atores passaram a buscar alianças estratégicas paralelas. Esse movimento reacende o debate sobre a unidade ocidental.

Nesse sentido, Igor Estima Sardo, doutorando em ciência política pela UFRGS e pesquisador associado do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que esse cisma entre os aliados transatlânticos vem desde o primeiro mandato de Donald Trump.

"Eu não tenho a menor dúvida que, de fato, o Ocidente, como a gente entende, América do Norte e Europa Ocidental, está se dividindo bastante. Realmente, isso é uma política que tem sido ambígua, porém clara, do presidente Trump desde o seu primeiro mandato. Mas a partir do seu segundo mandato isso fica cada vez mais evidente", disse.

O pesquisador explica que o motor desse movimento está nos custos de manutenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Historicamente, os Estados Unidos arcam com a maior fatia dos investimentos da aliança militar, uma disparidade orçamentária que gera forte insatisfação e irritação no atual governo para com os europeus.

"Dentro da OTAN, por exemplo, desde 2017, [Trump] falava que os países da Europa contribuem muito pouco para a segurança regional com gastos militares muito aquém daquilo que, em tese, a própria organização definia como o seu teto, que era 5%. E países como França, Alemanha, Reino Unido chegavam a 2% ou algo assim. Isso já foi uma certa fratura, digamos assim, dentro do Ocidente", comenta.

Oriente Médio visa outras alternativas além dos EUA

Sardo relembra que a reconfiguração em curso no Oriente Médio, impulsionada pelo conflito direto entre Washington e Teerã, forçou uma mudança profunda na região. O bloqueio do estreito de Ormuz e os bombardeios iranianos contra instalações militares norte-americanas em países árabes acenderam um alerta nos governos locais. Diante dessa vulnerabilidade, passaram a revisar suas estratégias, buscando reduzir a dependência dos Estados Unidos.

"No Oriente Médio, houve um tratado de segurança coletiva entre a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão, mas a gente viu que realmente isso não foi muito eficaz, porque a Arábia Saudita tentou invocá-lo em sua defesa contra os houthis e, no final, não deu em nada. Mas isso já é um tipo de tratado que estabelece uma segurança entre os três países sem os Estados Unidos", destaca.

No cenário europeu, o analista prevê um movimento similar, caracterizado pela emergência de novas alianças regionais. Contudo, essa tendência não resultaria, de forma automática, na dissolução da OTAN, fundada em 1949, como instituição. Para ele, a estrutura militar transatlântica deve coexistir com novos blocos de defesa locais.

"Ainda não está no horizonte uma OTAN sem os EUA, é uma aliança de muito tempo e ainda tem um grau de institucionalidade muito grande. Mas a gente pode ver que as conversas já existem, ou seja, já há realmente um certo estranhamento com Washington. Então, eu consigo imaginar que é de fato possível haver organismos de segurança coletiva na Europa", observa.

Washington vê os aliados europeus como 'fracos'

Outro ponto levantado por Sardo é que a administração de Donald Trump e o movimento MAGA (sigla para Make America Great Again, ou "Faça a América Grande de Novo", em tradução livre), do qual o presidente norte-americano é o principal ícone, enxergam os parceiros europeus em uma posição de subordinação em assuntos de segurança.

"A visão do MAGA dos EUA vê os europeus, como a Alemanha, a Itália e a Grã-Bretanha, como realmente Estados fracos. O discurso MAGA deixou isso muito claro, de que a Europa vivia uma espécie de parque de diversões, de que não havia uma ameaça plausível, porque eles sempre tinham as 'costas quentes' pela presença militar norte-americana", conclui.

Em um mundo cada vez mais multipolar, a centralização do poder hegemônico exercida pelo eixo Washington-Bruxelas perde peso de forma irreversível. Esse declínio da preeminência tradicional transatlântica abre espaço para a ascensão de novos polos de influência, como os Estados do Sul Global.