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Lula destaca antagonismo com Trump em discurso na ONU

Discurso expressa preocupações com o cenário eleitoral e posiciona Brasil em relação à política externa americana.

Estadao Conteudo 22/09/2026
Lula destaca antagonismo com Trump em discurso na ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: © Foto / Ricardo Stuckert / Presidência da República

Em seu discurso na 81ª Assembleia-Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou antagonizar com o presidente norte-americano Donald Trump. A fala combinou ideias tradicionais da diplomacia brasileira com o contexto eleitoral à vista das eleições de 4 de outubro, abrindo o debate pela manhã, que foi seguido pelo discurso de Trump.

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que Lula buscou se posicionar como oposto aos EUA, tanto na política externa quanto em relação à postura de vários países diante de conflitos e crises globais. A menção às eleições no discurso, segundo eles, reflete uma preocupação com o cenário do próximo mês.

Na última pesquisa da Quaest, divulgada nesta segunda-feira, 21, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados, com 42% para o petista e 41% para o candidato do PL.

Com isso, Lula adotou uma abordagem pouco habitual para apresentar suas propostas de campanha, como a revogação da escala 6x1, além de uma retórica que procurou opor a democracia ao negacionismo.

"Não se previa uma menção tão clara ao processo eleitoral, ou até mesmo ao adversário, ainda que não nominalmente. Do ponto de vista político, o presidente sabe que a tribuna da ONU é um instrumento de contato direto com os eleitores. Abordar o tema eleitoral e o adversário de forma explícita não é costume do próprio presidente em seus discursos na ONU. Por isso, essa menção revela a ânsia, até mesmo uma desesperança eleitoral, de deixar uma mensagem clara ao eleitor em uma plataforma pouco usual para isso", afirmou Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, ao Estadão.

No início de sua fala, Lula endereçou uma mensagem ao secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmando que a organização passa por seu momento mais crítico, e, em seguida, criticou o Conselho de Segurança pela falta de ação efetiva nos conflitos globais. Ao relatar essas guerras e conflitos, Lula destacou que "as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites".

Sem mencionar o presidente americano pelo nome, Lula comentou que estamos em um momento que deve-se optar por "soberania ou subordinação". Segundo especialistas, essa afirmação foi dirigida a Trump, além das críticas à postura dos EUA em conflitos no Oriente Médio e à interferência americana nos processos democráticos da América Latina.

"É um discurso cuidadosamente desenhado para posicionar o Brasil como antagônico aos EUA, mais especificamente a Donald Trump. A fala de Lula abrange praticamente todos os conflitos que envolvem os americanos. Brasília, conforme o Presidente Lula expressa, não se alinha à Casa Branca em nenhum deles", acrescentou Martins.

Para Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unifesp, a mensagem sobre a política externa brasileira mantém o mesmo tom dos discursos anteriores de Lula na ONU, adicionando o tema da segurança, em um momento em que os EUA pressionam os países latino-americanos a combater grupos narcoterroristas e tentam, muitas vezes, tomar à frente em operações de apreensão.

"Foi um discurso bastante sereno, mas afirmativo, no sentido de manter as linhas tradicionais da diplomacia brasileira, de defesa do multilateralismo e dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que não deixou de criticar tanto os Estados Unidos quanto a necessidade do fortalecimento das Nações Unidas e sua posição mais firme", destacou Cristina. "Em relação à pauta internacional, foi também relevante a questão da soberania brasileira e a forma como lidar com os desafios de segurança entre países, mas cooperando, sem imposições".

Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da FGV, apontou que a fala de Lula seguiu o esperado. "Podemos destacar o paralelo que ele fez entre multilateralismo, democracia e soberania, associando esses três elementos - uma espécie de doutrina que informalmente tem guiado o terceiro mandato do presidente e deve guiar também o quarto, se for bem-sucedido na reeleição", concluiu.