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Michele Bachelet desiste da candidatura à secretaria-geral da ONU com apoio do Brasil e México

A ex-presidente chilena anunciou sua decisão nas redes sociais, enfatizando a importância do multilateralismo.

Estadao Conteudo 19/09/2026
Michele Bachelet desiste da candidatura à secretaria-geral da ONU com apoio do Brasil e México
Michelle Bachelet - Foto: Reprodução / Instagram

A ex-presidente do Chile e primeira diretora-executiva da ONU Mulheres, Michelle Bachelet, desistiu de sua candidatura à secretaria-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O anúncio foi feito pelas redes sociais. Bachelet também divulgou uma carta de renúncia ao pleito, na qual defende o multilateralismo e a escolha de uma mulher latino-americana. Ela era a candidata do Brasil e do México para substituir o atual secretário-geral, António Guterres, que encerra seu segundo mandato em 31 de dezembro de 2026.

Na carta, Bachelet agradeceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à presidente do México, Claudia Sheinbaum, e também ao ex-presidente do Chile, Gabriel Boric. Segundo fontes próximas ao processo, os países apoiaram a ex-presidente, inclusive com seus embaixadores hospedando-a durante as visitas que fez para sua campanha eleitoral.

Bachelet menciona na carta que o resultado da consulta informal (straw poll) sinalizou que era o momento de abrir mão da candidatura. Na votação de ontem, ela recebeu 11 votos de desencorajamento.

Leia abaixo a carta na íntegra.

Santiago, 19 de setembro de 2026

A humanidade enfrenta hoje desafios sem precedentes. Além dos diversos conflitos em diferentes partes do mundo, que ameaçam a paz e a segurança, soma-se a crise das mudanças climáticas e à governança das novas tecnologias disruptivas. As decisões que tomarmos hoje serão determinantes para o mundo de amanhã. Por isso, as Nações Unidas (ONU) são mais necessárias do que nunca em sua história. O multilateralismo, que nasceu para reunir todos os países como iguais, está sob ameaça; o direito internacional é constantemente violado; a mudança climática é negada; e os direitos humanos estão em constante perigo. Defender esses princípios foi a bandeira da minha candidatura.

Nesse contexto, a escolha do próximo secretário ou secretária-geral é uma decisão que importa a milhões de pessoas. Estou convencida de que a liderança não é apenas saber quando avançar. É também saber quando desistir para que o processo siga seu curso. Os resultados das votações preliminares do Conselho de Segurança me indicam que esse momento chegou. Aceito isso com a mesma convicção com que assumi esta candidatura. Não me arrependo de ter empreendido este grande desafio. Contribuímos para instalar no debate global que a próxima secretária-geral deve ser uma mulher da América Latina, uma pessoa verdadeiramente independente e leal aos princípios da Carta da organização, e que os defenda com rigor frente aos Estados, independentemente de seu tamanho ou poder. Essa é uma forma chave para que a ONU recupere a credibilidade.

Com o apoio do Brasil e do México, visitamos praticamente todos os países membros do Conselho com nossa mensagem de reformar a organização para torná-la mais eficiente em suas tarefas fundamentais e regenerar a confiança na cidadania global; participamos de quatro debates internacionais e em múltiplos fóruns. Fizemos isso com a convicção de que um futuro melhor para o mundo é possível.

Agradeço com especial reconhecimento aos presidentes Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum, que apoiaram esta candidatura desde o primeiro dia com generosidade e convicção política real. Também ao ex-presidente Gabriel Boric, que tomou a decisão de copatrocinar esta candidatura como um desafio de Estado com o multilateralismo e com a região. Por último, aos milhares de chilenos e chilenas, latino-americanos e latino-americanas, e pessoas de diversos países do mundo que me expressaram carinho e apoio.

Continuo acreditando que as Nações Unidas precisam e merecem ser conduzidas por uma mulher. Apoio decididamente que, após 80 anos de sua criação, a secretaria-geral seja ocupada por uma mulher da América Latina. Nossa região tem a experiência e os valores para liderar esta instituição; espero que esse momento chegará.

Agora seguirei, com a mesma determinação de sempre, no desafio internacional. Continuarei ativa na tarefa de construir um mundo de maior paz, segurança, desenvolvimento sustentável e respeito aos direitos humanos. Hoje, mais do que nunca, é necessário perseverar nos valores civilizatórios, na promoção e defesa da democracia, nas normas da Carta das Nações Unidas e no multilateralismo.

Michelle Bachelet Jeria

Ex-Presidente da República do Chile