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Espanha aposta na legalização de imigrantes diante de desafios demográficos e econômicos

Especialistas apontam que medida, vista com cautela pela União Europeia, pode influenciar outros países do bloco caso traga resultados positivos.

29/04/2026
Espanha aposta na legalização de imigrantes diante de desafios demográficos e econômicos
Imigrantes aguardam regularização na Espanha, medida pode influenciar políticas em toda a Europa. - Foto: © AP Photo / Ng Han Guan

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam os impactos da nova política espanhola de regularização de imigrantes, destacando tanto os desafios quanto as possíveis repercussões na União Europeia.

O governo da Espanha aprovou recentemente um projeto que visa regularizar cerca de 500 mil imigrantes que vivem no país sem documentação adequada. Segundo o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, a iniciativa concede status legal àqueles que "contribuem para a prosperidade e coesão" nacional.

De acordo com Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, o discurso social apresentado pelo governo espanhol busca desviar o foco do real objetivo econômico do projeto. Em entrevista ao podcast Mundioka, Caichiolo afirmou:

"A medida é primordialmente uma estratégia econômica. Embora se utilize uma narrativa humanitária, reconhecendo direitos básicos de pessoas já inseridas na sociedade espanhola, o objetivo principal é enfrentar o problema demográfico que afeta a Espanha e outros países europeus. Há necessidade de mão de obra para sustentar a economia, o sistema previdenciário e o crescimento do PIB."

Caichiolo também destaca o potencial arrecadatório da medida, já que a regularização permitirá que esses imigrantes passem a contribuir com impostos. "Regularizando esses trabalhadores, independentemente do setor, o Estado amplia sua base tributária", explica.

Para Adriano Cerqueira, professor de relações internacionais do Ibmec Belo Horizonte, a mudança na legislação tem caráter eleitoreiro e gera divisões na sociedade espanhola. Segundo ele:

"Esse tipo de medida acaba recompensando imigrantes em situação irregular, que aguardam uma possível regularização, algo que já ocorreu anteriormente na Espanha."

Cerqueira acredita que latino-americanos e africanos serão os principais beneficiados, mas pondera que a legalização não garante mudanças imediatas no cotidiano desses imigrantes.

"No curto prazo, a vida do imigrante na Espanha não deve mudar significativamente. Haverá melhorias para quem conseguir se regularizar, mas questões de aceitação e acesso ainda vão demorar a ser resolvidas."

Espanha pode ser um laboratório

Os desafios econômicos enfrentados pela Espanha refletem uma tendência em toda a Europa, onde as taxas de natalidade diminuem e os gastos com previdência aumentam.

Ricardo Caichiolo sugere que a Espanha pode servir como um "laboratório" para outros países do continente, especialmente aqueles que compartilham problemas sociais e econômicos semelhantes.

"Outros Estados vão observar o comportamento espanhol para avaliar se vale a pena adotar medidas semelhantes. Existe o risco de um efeito dominó, com outros países seguindo o exemplo da Espanha."

Caichiolo acrescenta que a iniciativa pode abrir caminho para outras políticas migratórias, como os vistos temporários de trabalho, que preveem o retorno dos imigrantes aos seus países de origem após determinado período.

"O plano busca fortalecer relações tanto com países latino-americanos quanto com os do Norte da África, promovendo uma migração circular: trabalhar por um período na Espanha e retornar ao país de origem."

Cerqueira ressalta que representantes da União Europeia veem a medida como "radical" e "improvisada", temendo um aumento da imigração irregular no continente. Ele também alerta para o possível deslocamento desses imigrantes para outros países europeus após a obtenção da documentação espanhola.

"Não é improvável que muitos desses migrantes busquem oportunidades em outros países da Europa, o que preocupa os demais membros da União Europeia."

Por fim, Cerqueira observa que o projeto envolve questões complexas e carece de consenso político e social na Espanha.

"É difícil acreditar que seja uma política de Estado. Se fosse, haveria consenso entre os partidos sobre a necessidade da medida. Parece mais uma ação fragmentada, voltada para interesses eleitorais de curto prazo."

Por Sputnik Brasil