Geral

EUA mantêm relação pragmática, mas não aliada, com Lula após crise com a PF, diz analista (VÍDEOS)

28/04/2026
EUA mantêm relação pragmática, mas não aliada, com Lula após crise com a PF, diz analista (VÍDEOS)
Foto: © telegram SputnikBrasil / Acessar o banco de imagens

A expulsão do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, então adido da Polícia Federal em Miami, substituído pela delegada Tatiana Alves Torres posteriormente, gerou outro desgaste entre os países e, segundo especialistas em EUA ouvidos pela Sputnik Brasil, a medida representa uma sinalização política da Casa Branca em meio ao ciclo eleitoral brasileiro.

A cassação das credenciais do delegado brasileiro pelo governo dos EUA ocorreu logo após a soltura de Alexandre Ramagem. O ex-deputado, preso pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle da Alfândega dos Estados Unidos), é aliado da família Bolsonaro e considerado foragido pela Justiça brasileira.

O episódio evidencia o alinhamento político entre o grupo bolsonarista e a ala republicana na Casa Branca, tensionando a relação com o governo Lula, tendo a eleição presidencial brasileira como pano de fundo, conforme explicado por Roberto Moll Neto, professor de história da América da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Eu acho que [os EUA] passam uma sinalização ao governo Lula muito clara, de que podemos ser pragmáticos até a eleição e até a disputa eleitoral podemos ter uma razoável, mas não sou sua convivência. As forças aliadas do governo Trump são outras", disse.

Em sua análise, Moll acredita que essa postura ríspida por parte de Washington não deve ter sido surpreendida pelo Palácio do Planalto e que esse tipo de atitude acaba não fazendo muita diferença no cálculo geral.

“Esse tipo de mensagem [simbólica dos EUA ao retirar as credenciais do delegado da PF], o governo Lula já sabe e isso não faz muita diferença e eu não acho que o governo foi pego de surpresa”, comenta.

O pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), Williams Gonçalves, aponta que a crise diplomática envolvendo a PF e a manutenção de Ramagem em solo norte-americano também é um sinal de que os EUA acenam para grupos opositores ao governo Lula.

"Essa troca de serviço [cooperação policial internacional] sempre foi politizada em desfavor nosso. Os EUA não estão aqui para prender traficantes, e sim controlar todo o processo. Esse episódio, no meu entendimento, foi uma sinalização clara para grupos de direita no Brasil", observa.

Lula mais enfático e Trump mais 'calado'

Durante seu giro pela Europa, com passagens por Barcelona, ​​Hannover e Lisboa, o presidente Lula levantou o Tom contra Donald Trump. No entanto, o líder republicano evitou o contra-ataque, silenciando inclusive diante das críticas de Lula sobre a expulsão do adido da PF. Segundo Moll, essa cautela visa evitar o desgaste público do Brasil, especialmente em um cenário de tensão global como a guerra no Irã, onde Trump prefere não abrir novas frentes de conflito.

“O Brasil não é um sparring tão grande e esse caso não seria suficiente para ele abafar outras crises e, sim, abrir mais um flanco de problemas [a Trump] além da guerra contra o Irã. Também há o fato de que toda vez que ele foi para o enfrentamento contra Lula e Claudia Sheinbaum do México, ele se saiu pior”, destaca.

Já para Gonçalves, essa postura do presidente norte-americano também indica uma forma de não constranger núcleos da direita brasileira que fazem oposição a Lula, uma vez que suas declarações poderiam ter um tom de ser contra o país e não apenas o governo, e poderia isso unir a esquerda.

"Se Trump continuar a dar aquelas declarações explosivas e aplicar deliberações tarifárias, isso reuniria a esquerda e a situação ficaria para a direita e para os pró-americanos. Mas os EUA não vão deixar de participar da campanha [eleitoral]",discorre.

Brasil independente incomoda os EUA

Nesse sentido, outro ponto que incomodou os EUA na visão analítica de Gonçalves é que qualquer tentativa de projeto independente brasileiro faz com que o país sofra retaliações ou pressão. Desta forma, intensifica-se o desequilíbrio da relação entre os Estados.

"O Brasil é muito importante e seria o único país [da região] a reunir condições de desenvolvimento como os chineses por ter território, população, mercado e recursos naturais. Os EUA sempre tentam cercear esse processo. Ou seja, para eles, um Brasil bom é um Brasil submisso", conclui.

As relações históricas entre Brasil e EUA passaram por diversas fases de alinhamento e afastamento. No momento atual, em que a política externa norte-americana busca intensificar sua influência e presença na América Latina via governos aliados, a eleição brasileira se consolida também como um dos principais pontos focais de Washington.


Por Sputinik Brasil