Geral

Ni hao, Nordeste: região se torna foco de investimentos chineses no Brasil

27/04/2026
Ni hao, Nordeste: região se torna foco de investimentos chineses no Brasil
Foto: © Foto / Ricardo Stuckert / Presidência da República

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destacam que condições climáticas e posição geográfica são alguns dos destaques que atraem a atenção de Pequim.

Os investimentos internacionais realizados pela China ao redor do mundo já não são mais novidade. Pequim tem como um dos seus principais métodos de consolidação de relações a construção de soluções de infraestrutura, como portos e ferrovias, e indústrias em diferentes segmentos, como energia e automotivo.

No Brasil, no entanto, uma região tem ganho o coração dos chineses: o Nordeste. Recentemente, a BYD iniciou a produção nacional de seus veículos em Camaçari (BA), assumindo a estrutura deixada para trás pela Ford. É na Bahia também que um consórcio chinês construirá uma ponte de 12 km entre Salvador e Itaparica, reduzindo a viagem entre as cidades de 4 horas para 10 minutos.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam que o Nordeste chama a atenção dos chineses por suas condições para a geração de energia limpa por meio de painéis solares e torres eólicas, além da posição geográfica favorável para exportações para Europa e Estados Unidos.

Diana Chaib, doutora em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG), explica que há uma sinergia sino-brasileira na questão de produção de energia renovável, alinhando a tecnologia de Pequim com a capacidade tupiniquim de ter sol e vento ao longo das quatro estações. O Nordeste, por sua vez, também oferece o atrativo de ser uma região mais barata para investimentos industriais do que outras partes do país.

"O Sudeste brasileiro, que historicamente até então concentrava esses investimentos, já apresenta uma maior saturação, custos mais elevados e menos espaço para grandes projetos novos. O Nordeste, por outro lado, ainda oferece áreas disponíveis, custos operacionais mais baixos, incentivos regionais também que tornam os projetos mais viáveis e mais atrativos economicamente."

Chaib destaca que os aportes chineses na região contribuem para "pontos-chave" para a estrutura da região. Além de gerar empregos e renda para os nordestinos, o dinheiro de Pequim permitirá acelerar a capacidade produtiva do Nordeste.

"Projetos em energia, indústria e infraestrutura ampliam a base produtiva e ajudam a diversificar a economia. [...] Com esses investimentos, o Nordeste passa a integrar de forma mais ativa as cadeias globais de valor, especialmente nesses setores ligados à transição energética e à indústria de baixo carbono."

José Ricardo dos Santos, co-presidente e CEO do Lide China, afirma que o Nordeste deixou de ser uma região periférica aos investimentos chineses por possibilitar o aceleramento de setores os quais o país asiático é referência, como na indústria de carros elétricos e na transformação digital.

"Estamos escutando cada vez mais o interesse e o apetite de investimentos chineses na área de data centers, que utilizam muita energia. Eles têm observado a potencialidade e absorção dessa energia limpa na região do Nordeste."

Para Santos, não é só a China que olha diferente para o Brasil. De acordo com o empresário, a forma como os brasileiros percebem os produtos chineses mudou ao longo das últimas décadas.

"Vinte anos atrás, fazendo uma comparação da minha relação com a China, os brasileiros procuravam produtos e soluções chineses porque elas eram mais baratas, ainda que não fossem tão boas. Hoje em dia, os empresários brasileiros me procuram por querer uma tecnologia melhor, ainda que eventualmente o preço seja superior àquelas tecnologias americanas, europeias e de outros países do mundo."

Bons negócios são para os dois lados

Os chineses não desembarcam bilhões de dólares em projetos no Brasil por serem puramente benfeitores. Segundo os emtrevistados, o empresariado de Pequim vê em terras brasileiras uma importante ferramenta para continuar sua expansão econômica.

Chaib é enfática ao cravar que os investimentos chineses são escolhidos quando há a possibilidade de impulsionar ainda mais o capital local, em especial em obras de infraestrutura.

"Eles gostam do desenvolvimento do Brasil quando vai facilitar a exportação para a China, vai reduzir custos logísticos, vai fortalecer parcerias estratégicas dentro do próprio BRICS, por exemplo."

A especialista alerta que os projetos ligados à transição energética são baseados em uso intensivo de território e recursos naturais, sendo necessário garantir um "licenciamento adequado" e uma sustentabilidade do projeto a longo prazo.

"Projetos que são de grande escala exigem marcos regulatórios muito claros e previsíveis, muito bem delimitados e coordenados entre os diferentes níveis do governo. [...] É fundamental que exista uma estratégia de desenvolvimento regional que seja bem definida. Isso vai envolver políticas de governo que incentivem a formação de mão de obra qualificada, fortalecimento de fornecedores locais e transferência de tecnologia também."

Santos, por sua vez, ressalta que a China trabalha com cinco princípios de coexistência pacífica: reciprocidade, bilateralidade, não intervenção em assuntos domésticos dos países parceiros e a não interferência política.

"Há um interesse genuíno de uma forma pragmática de desenvolver negócios com o Brasil. A questão política é algo que não interessa à China, não só no Brasil, como em nenhum outro país em que ela tenha a oportunidade de celebrar negócios."

O empresário também destaca que a China vê o Brasil como um país garantidor de sua segurança alimentar, energética e mineral, tanto de ferro como das requisitadas terras raras. Santos, no entanto, enfatiza que há uma preocupação de Brasília em fazer com que parte da tecnologia produzida aqui seja retida em formato de conhecimento.

"Diante da nossa segurança mineral, nós oferecemos o minério para a China fabricar as baterias desses carros elétricos, mas, além de oferecermos esses minerais raros, que seja construída uma fábrica aqui com a transferência de tecnologia para entendermos como são feitas essas baterias. Há um diálogo rico, frutífero, e temos visto uma evolução, não só quantitativa, mas também qualitativa nessa relação bilateral sino-brasileira."

E os Estados Unidos?

Se antes os Estados Unidos lideravam a economia mundial com sobras, a sombra da China hoje incomoda Washington. Uma das armas da atual administração norte-americana tem sido o aumento de tarifas para influenciar as relações econômicas bilaterais de outros países, o que não foi diferente com Pequim.

Chaib explica que, neste jogo de xadrez financeiro, os Estados Unidos acabaram empurrando a China para o lado de outros países, como o próprio Brasil.

"Quando os EUA colocam alguma restrição tarifária, o natural é que a China procure diversificar e procurar novos parceiros, novos lugares para investir e tentar diversificar sua pauta para suprir com o que antes poderia ser comercializado com os EUA."

Santos entende que a China mexeu no quintal dos Estados Unidos ao iniciar uma série de investimentos na América Latina. Entre estas obras, o empresário cita o porto de Chancay, no Peru, que em breve deverá ser ligado a uma ferrovia bioceânica que cruzará horizontalmente a América do Sul, com seu trecho inicial em Ilhéus (BA).

Ainda assim, Santos destaca que a intensificação das relações brasileiras com a China não necessariamente significa um afastamento de parceiros de longa data, como os Estados Unidos.

"O Brasil é um país que tem um histórico de multipolaridade, de participar de diversos blocos regionais. Inclusive, o Brasil, em que pese ele fazer parte do BRICS, ainda tem desenvolvido seu diálogo com os EUA. Hoje a Embraer é um bem muito apreciado pelo governo e pelos empresários americanos."


Por Sputinik Brasil