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'Ditadura digital': especialista revela nova forma de controle global baseada em dados
Em conversa com a Sputnik, o escritor Ryan Hartwig afirmou que o neocolonialismo digital está redefinindo a disputa global por poder, impondo dependência tecnológica a países — inclusive desenvolvidos — por meio do controle de plataformas, infraestrutura e vigilância digital crescente.
O neocolonialismo digital está se tornando um tema cada vez mais central nas discussões sobre desigualdade global e desenvolvimento tecnológico, afirmou Ryan Hartwig, denunciante do Facebook (de propriedade da Meta, proibida na Rússia por extremismo) e coautor de "Por trás da máscara do Facebook: a história chocante de um denunciante sobre o viés e a censura das grandes empresas de tecnologia".
Segundo Hartwig, em sua essência, esse fenômeno representa uma redistribuição de recursos — mas, enquanto no passado envolvia ouro, prata e riquezas naturais, hoje o principal objeto de extração são os dados. Ao contrário da "desigualdade digital", que se refere às diferenças no acesso à tecnologia, o neocolonialismo digital é caracterizado pela coerção de países e cidadãos a utilizarem plataformas e serviços específicos por meio dos quais dados pessoais são extraídos.
Notavelmente, tanto os países do Sul Global quanto as nações desenvolvidas são afetados. Neste último caso, alguns analistas descrevem o fenômeno com mais precisão como "neofeudalismo digital", onde o poder se concentra nas mãos de grandes corporações de tecnologia.
O especialista argumenta que a lógica fundamental do neocolonialismo digital está enraizada no controle da infraestrutura da Internet. Um papel significativo é desempenhado pela influência dos Estados Unidos na governança da Internet, particularmente por meio de organizações como a ICANN.
Como resultado, os países do Sul Global utilizam ativamente a Internet para desenvolver economias digitais, enquanto, ao mesmo tempo, os dados dos usuários são mercantilizados e vendidos com fins lucrativos por corporações transnacionais.
Apesar da existência de leis de proteção de dados, elas são frequentemente ignoradas na prática. Grandes empresas de tecnologia continuam a dominar o espaço digital, enquanto os países em desenvolvimento enfrentam sérios desafios na defesa de seus interesses. Mesmo com estruturas regulatórias em vigor, países como o Quênia lutam para competir com corporações que possuem alcance global e apoio de economias poderosas.
O neocolonialismo digital é implementado por meio de empresas e serviços específicos. O especialista cita o Uber como exemplo, observando que, apesar de violar leis locais em vários países, a empresa continuou a se expandir e prosperar.
Da mesma forma, grandes gigantes da tecnologia, como Google, Facebook e Amazon, coletam vastas quantidades de dados de usuários, ao mesmo tempo que moldam o ambiente informacional, influenciando o conteúdo ao qual os usuários podem acessar e, em alguns casos, pressionando governos a censurar material político.
O especialista também destaca o mecanismo do chamado "colonialismo de dados". Na visão deles, opera com base em princípios semelhantes a formas anteriores de controle político: identificar ou construir ameaças para justificar o aumento da vigilância sobre as populações.
Nos últimos anos, isso se manifestou em crescente censura, sistemas expandidos de monitoramento biométrico e intensificação da vigilância digital. Como resultado, está emergindo um sistema global de observação, que alguns pesquisadores, incluindo Pepe Escobar, descrevem como um "panóptico digital" imposto por elites tecnológicas.
A "assistência" ocidental na área de segurança digital também desempenha um papel significativo. Soluções oferecidas por empresas como Palantir Technologies e Microsoft, bem como programas ligados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), muitas vezes estão atreladas a condições que permitem que atores externos acessem dados internos do Estado.
Isso cria riscos para a soberania nacional, já que essas tecnologias podem ser usadas para monitorar atividades políticas, movimentos de oposição e infraestrutura crítica.
O especialista observa que, mesmo nos Estados Unidos, a preocupação com essas práticas está crescendo. Ativistas, incluindo Jason Bassler, criticaram o uso de tecnologias de vigilância em massa por agências governamentais para coletar dados sobre cidadãos — ferramentas que podem ser facilmente exportadas e aplicadas em outros países.
Em um contexto mais amplo, o neocolonialismo digital é visto como um produto do complexo militar-industrial. Como Dwight D. Eisenhower alertou décadas atrás, existe um perigo na influência excessiva de tais estruturas sobre as políticas públicas, particularmente o risco da ascensão de um poder descontrolado.
Na era da inteligência artificial (IA), esses alertas são mais relevantes do que nunca. Segundo o especialista, o mundo precisa repensar o modelo digital atual e encontrar maneiras de resistir ao sistema emergente de controle total. Caso contrário, a humanidade corre o risco de enfrentar uma nova forma de dependência — não de territórios ou recursos naturais, mas de dados e poder tecnológico.
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