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Ilustrar não é hobby: por que a profissão ainda é subestimada no Brasil?

Mercado bilionário cresce, mas a ilustração ainda enfrenta desvalorização estrutural.

Assessoria 06/03/2026
Ilustrar não é hobby: por que a profissão ainda é subestimada no Brasil?
Ilustrar não é hobby: por que a profissão ainda é subestimada no Brasil?

A ilustração é uma atividade profissional que envolve domínio técnico, repertório visual, capacidade narrativa e compreensão de mercado. O ilustrador atua em livros, publicidade, design editorial, animação, jogos digitais, embalagens e projetos educacionais. Apesar dessa amplitude, a profissão ainda enfrenta um estigma persistente no Brasil: o de ser vista como hobby ou ocupação secundária. Essa percepção reduz o reconhecimento social da área e impacta diretamente remuneração, contratos e estabilidade de carreira.

Guilherme Bevilaqua, conhecido como Laqua, é ilustrador com mais de 27 anos de atuação e professor universitário há mais de uma década. Criador da primeira pós-graduação lato sensu em Ilustração Infantil autoral do país, acompanha de perto a formação de novos profissionais e a evolução do setor criativo. Segundo ele, o problema não está na qualidade dos artistas brasileiros, mas na forma como o trabalho ainda é percebido. “Existe uma confusão entre desenhar por prazer e atuar profissionalmente com ilustração. A atividade exige estudo contínuo, técnica apurada e entendimento de mercado. Não se trata de improviso”, afirma.

Ilustração do Professor Laqua.

Dados da UNESCO mostram que as indústrias culturais e criativas movimentam cerca de 3% do PIB mundial e empregam mais de 30 milhões de pessoas, com crescimento constante impulsionado pelo ambiente digital. A ilustração integra esse ecossistema e participa de cadeias produtivas que vão da educação ao entretenimento. Ainda assim, no Brasil, muitos profissionais relatam dificuldade em negociar valores compatíveis com a complexidade do trabalho.

A subestimação da profissão tem raízes históricas. Durante décadas, a arte foi tratada como vocação pessoal e não como atividade econômica estruturada. A popularização das redes sociais ampliou a visibilidade dos artistas, mas também reforçou a ideia de que qualquer pessoa que desenhe pode atuar profissionalmente.

Para o professor, a profissionalização passa por formação adequada e posicionamento realista. “O ilustrador precisa compreender que vende solução visual, não apenas um desenho. Ele participa da construção de identidade de marcas, da formação do imaginário infantil e da comunicação de empresas”, observa. A valorização depende também de educação do mercado, com contratantes conscientes do tempo, da pesquisa e da responsabilidade envolvidos em cada projeto.

Reconhecer o ilustrador como profissional é admitir que imagem comunica, educa e influencia. Em um cenário em que o consumo visual cresce de forma acelerada, tratar a ilustração como passatempo ignora sua contribuição cultural e econômica. A valorização da área exige debate público, formação sólida e contratos transparentes. O talento brasileiro já é evidente. Falta consolidar o reconhecimento.