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António Lobo Antunes, romancista que marcou a literatura portuguesa, morre aos 83 anos

05/03/2026
António Lobo Antunes, romancista que marcou a literatura portuguesa, morre aos 83 anos
- Foto: Reprodução / Instagram

O escritor português António Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira, 5, aos 83 anos. A informação foi confirmada pelo Grupo Leya, editora responsável pela publicação de seus livros. A causa da morte não foi confirmada oficialmente.

“Foi com profunda tristeza, e ainda em estado de choque, que recebeu nesta manhã a notícia da morte de António Lobo Antunes, um dos grandes nomes da literatura portuguesa, autor de romances que permaneceram na memória dos seus leitores e admiradores”, publicou a Leya.

Considerado um dos autores lusófonos mais lidos e traduzidos, Lobo Antunes construiu ao longo de mais de quatro décadas uma obra marcada pela memória da guerra colonial e por narrativas centradas na condição humana.

Carreira literária

Nascido em Lisboa, em 1942, Lobo Antunes formou-se na Medicina e atuou como médico militar em Angola durante a guerra colonial portuguesa. A experiência no conflito marcou de forma decisiva sua produção literária.

Ele estreou na literatura em 1979 com Memória de Elefante. No mesmo ano publicou Os Cus de Judas, romance que ampliou sua projeção e abordou o trauma da guerra. Ao longo das décadas seguintes, desenvolveu uma obra extensa, com narrativas fragmentadas e múltiplas vozes.

Entre seus livros mais conhecidos estão Conhecimento do Inferno (1980), Auto dos Danados (1985), Fado Alexandrino (1987), As Naus (1988) e Manual dos Inquisidores (1996).

Também foram publicadas coletâneas de crônicas originalmente escritas para a revista Visão. Ao todo, lançou 29 romances e cinco volumes reunindo textos jornalísticos.

Passagem pela Flip

Em 2009, Lobo Antunes foi um dos principais convidados da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Neto de brasileiros, o escritor não visitou o Brasil desde 1983.

Na ocasião, dois livros originais do autor foram lançados no País: Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião, publicados pela editora Alfaguara. O escritor ocupou o horário central da programação em uma conversa com o público mediado pelo jornalista e escritor Humberto Werneck.

Indiferente às homenagens, o romancista costumava relativizar a importância de prêmios literários. Em entrevistas, afirmava que distinções não determinam o valor de um escritor.

Frequentemente citado entre possíveis vencedores do Prêmio Nobel de Literatura, dizia que já havia recebido os principais reconhecimentos possíveis em sua trajetória.

Reconhecimento

Ao longo da carreira, Lobo Antunes recebeu diversos prêmios literários. Em 1999, conquistou o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com Exortação aos Crocodilos. Em 2007, foi laureado com o Prémio Camões, considerado o principal reconhecimento da literatura em língua portuguesa.

Em 2016, tornou-se sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. Dois anos depois, a coleção literária da Biblioteca da Pléiade anunciou a publicação de sua obra, tornando-o o segundo escritor português - depois de Fernando Pessoa - a integrar o catálogo.

Últimos anos

Nos últimos anos, o estado de saúde do escritor vinha sendo acompanhado publicamente. A reedição de 2024 da biografia Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, escrita por João Céu e Silva, indicou que o autor enfrentou um quadro avançado de demência.

Segundo o biógrafo, a progressão da doença comprometeu a capacidade criativa do escritor entre 2021 e 2022. O último livro publicado em vida foi O Tamanho do Mundo, lançado em 2022.

Lobo Antunes também já havia enfrentado problemas graves de saúde anteriormente. Em 2007, foi relatado um tumor maligno no cólon. Após o tratamento, manteve um ritmo regular de publicações, afirmando em entrevistas que escrevia com urgência diante da consciência do tempo limitado.

Traduzida para várias línguas, a obra de Lobo Antunes é considerada uma das mais relevantes da literatura portuguesa contemporânea. Na cidade de Nelas, onde a sua família mantém uma casa construída na década de 1940, uma biblioteca leva o seu nome.