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Irã surpreendeu a todos ao assumir os riscos políticos de revidar o ataque dos EUA, diz analista
No sábado, dia 27 de fevereiro de 2026, um ataque conjunto conduzido pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos no Irã marcou uma nova escalada nas tensões do Oriente Médio.
A operação militar coordenada contra o Irã, marca mais um episódio crítico no Oriente Médio, causando preocupações no cenário geopolítico de segurança e energético. Justificado como uma ação para eliminar "ameaças iminentes", o bombardeio conjunto resultou em centenas de mortes, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país.
A ação militar ocorre em um contexto de animosidade prolongada envolvendo o programa nuclear iraniano, a presença militar norte-americana no Oriente Médio e as crescentes hostilidades entre Teerã e Tel Aviv.
Enquanto o mundo ainda reage sobre a escalada da ação militar norte-americana, outros questionamentos surgem: Como ficará a situação da política iraniana daqui para frente? Quais são os principais impactos econômicos globais? Há possibilidade de escalada mundial? A Rússia está capaz de contribuir para a busca de soluções mutuamente aceitáveis no Oriente Médio? Ou a China? Nesta segunda-feira (02), o Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, acompanha a repercussão do ataque ao Irã.
Como explica Karina Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec, a surpresa não foi apenas a capacidade de resposta iraniana — o Irã é uma potência militar — mas o fato de fato de Teerã ter decidido de fato utilizar seu poderio, assumindo os custos políticos e diplomáticos de sua ofensiva, em especial contra países vizinhos com quem historicamente tem relações tensas.
Em sua resposta, o Irã atacou ativos estratégicos norte-americanos presentes em países aliados árabes, como o quartel-general da Quinta Frota da Marinha norte-americana, em Bahrein, a base aérea de Al Udeid, no Catar, onde fica o quartel-general do Comando Central estadunidense, a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, onde ficam baterias antiaéreas Patriot e THAAD e a base aérea Ali Al-Salem Airbase, no Kuwait.
Sobre intenções da Casa Branca quanto o ataque, Calandrin pontua que seria forçar uma mudança de governo no Irã, um que "seja mais palatável para o Ocidente". “Um governo que consiga negociar com os Estados Unidos e atenda melhor a seus interesses e de Israel.” Para ela, a questão do programa nuclear deixaria de ser um impasse em negociações caso haja uma troca de liderança.
O que poderia prejudicar a posição dos Estados Unidos, porém, seria a popularidade de Trump nos Estados Unidos, segundo Calandrin. Com problemas domésticos aumentando e sua própria base criticando o presidente de não cumprir os ideiais de "America First", a professora vê que o republicano arrisca perder mais de seu apoio político às vésperas das midterms, as eleições legislativas estadunidenses.
"Setenta e cinco por cento da população americana está desaprovando essa operação no Irã. Isso por quê? Porque eles veem que isso não atende aos interesses dos americanos."
Na avaliação de João Gabriel Fischer Morais Rego, doutorando em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) e membro do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT), o conflito no Irã pode trazer uma ruptura no comércio global com a interrupção de rotas marítimas e fechamento de aeroportos em países no Oriente Médio.
Desde o início dos ataques dos EUA, mais de 8 mil voos foram cancelados e 51 mil tiveram voos atrasados na região. Aeroportos internacionais como de Dubai, Doha e Abu Dhabi tiveram seu espaços aéreos fechados por conta do clima de tensão na região.
Junto de um fechamento do estreito de Ormuz, rota marítima em que passa cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente, esses fatores elevam a instabilidade econômica internacional, com potencial impacto nos preços do petróleo, no custo do transporte e na inflação global.
Para Fischer, além dos impactos imediatos sobre transporte e energia, o agravamento do conflito tende a acelerar um processo de reorganização das alianças internacionais e das cadeias comerciais. Segundo ele, a escalada militar pressiona países a reverem dependências estratégicas e a buscarem novos parceiros econômicos e logísticos.
"Quando há instabilidade prolongada em uma região central como o Oriente Médio, os países começam a recalcular riscos e diversificar rotas e fornecedores, porque ninguém quer ficar exposto a um único corredor estratégico", afirmou. Esse movimento, explica o pesquisador, pode gerar mudanças duradouras no fluxo do comércio global, mesmo após o fim das hostilidades.
O especialista também avalia que a postura cautelosa da China diante do conflito reflete interesses econômicos mais amplos, especialmente ligados à segurança das rotas comerciais internacionais. "A China não tem interesse em uma expansão do conflito porque o principal ativo dela na região é comercial. O que está em jogo são as rotas, a estabilidade energética e a previsibilidade necessária para o comércio", destacou, também lembrando os esforços de Pequim de aproximar o Irã e a Arábia Saudita.
Fischer ressalta ainda que, apesar da condenação chinesa às ações militares americanas, Pequim tende a evitar qualquer envolvimento direto no conflito, priorizando uma atuação diplomática e econômica.
"A China procura se posicionar como um ator estabilizador, mas sem assumir custos militares ou riscos de escalada que possam comprometer seus próprios interesses estratégicos".
Rússia se posiciona como 'única garantidora' da paz
Por sua vez, a Federação da Rússia é a única capaz de assumir uma posição de mediação eficaz no conflito, aponta à Sputnik o analista internacional Tadeo Casteglione.
O presidente Vladimir Putin já conversou com os líderes da Arábia Saudita, príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o rei de Bahrein e atual presidente do Conselho de Cooperação do Golfo, Hamad bin Isa Al Khalifa, o emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Than, e o presidente dos Emirados Árabes Unidos, sheik Mohamed bin Zayed Al Nahyan.
"Temos uma Rússia que, segundo a mídia internacional, é um país beligerante, belicista, que não se importa com a paz, e assim por diante. Mas, quando vamos aos fatos, quem está pedindo a intervenção de quem? É muito interessante saber que todos os atores regionais na Ásia Ocidental estão pedindo que a Rússia seja a garantidora da paz e de um cessar-fogo imediato na região."
Segundo Casteglione, a Rússia desponta como único país com capacidade de levar um cessar-fogo à região devido às boas relações que costurou com os atores envolvidos, como Teerã, Tel Aviv, Riad, Abi Dhabi e os demais, sendo capaz de andar no fino balanço de condenar o ataque ao Irã, mas também se solidarizar com os países da Ásia Ocidental em meio a toda escalada na região.
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