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Gamificação militar: simuladores de treinamento fortalecem a indústria de defesa, apontam analistas

Sputinik Brasil 25/02/2026
Gamificação militar: simuladores de treinamento fortalecem a indústria de defesa, apontam analistas
Foto: © AP Photo / Marinha do Brasil

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacam que entre os benefícios do uso de simuladores em treinamentos militares está a redução de custo em relação a um exercício real e a ampliação da circulação do conhecimento entre as forças.

No final de 2025, o Exército Brasileiro (EB) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) firmaram uma parceria de R$ 10 milhões para desenvolver uma nova geração de simuladores para a Força Terrestre, além de qualificar os sistemas já existentes.

Chamado de Evolução do Sistema Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), o projeto terá como base pesquisa e desenvolvimento de simulação militar por meio de jogos de computador chamados "serious games" (jogos sérios, em tradução livre), estratégia que usa a gamificação para um propósito além do entretenimento.

Diferente da indústria de jogos voltada ao lazer, a gamificação militar foca na construção de competências críticas em ambientes de baixo risco e alto desempenho. O principal benefício é a redução de custos, já que a simulação custa uma parcela mínima se comparada ao gasto logístico e de munição de um exercício real.

Raul Ceretta Nunes, doutor em ciência da computação e professor do Departamento de Computação Aplicada da UFSM, diz à reportagem que a parceria tem um grande impacto na formação de alunos da instituição pois promove o desenvolvimento de projetos de grande porte por vários anos

"A vivência em situações de demandas reais tem possibilitado aos estudantes integrar diferentes perspectivas de competência, ampliando sua capacidade de agir de forma técnica [hard skills] e, ao mesmo tempo, socialmente contextualizada [soft skills]."

A parceria também permite à universidade criar um ambiente de pesquisa aplicada de alta qualidade. Mais de 150 anos já tiveram experiências diversas por conta da colaboração com Exército.

"Essa formação toda é para a sociedade brasileira, fortalecendo a capacidade estratégica do Brasil não só na área de simuladores, mas nas áreas de jogos de computador em geral, inteligência artificial, redes de computadores, engenharia de software, computação gráfica, dentre outras. Em outras palavras, esse tipo de parceria é estratégica para fortalecer a base industrial brasileira."

Segundo o pesquisador, o Brasil possui excelência no desenvolvimento de simulares, dominando tecnologias chaves como imageamento gráfico, física aplicada e interoperabilidade. Porém, como os cenários de combate e as peças de manobra estão em constante evolução, é necessário manter a manutenção dos sistemas em dias, com novos projetos e funcionalidades, o que necessita um "um fluxo constante de financiamento".

Fabricio Ávila, presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), explica à reportagem que os simuladores são uma realidade para as forças militares desde a década de 1970 quando começaram a ser usadas nas forças aéreas de países do Ocidente.

Ele destaca que cada ramo das FAs possui requisitos diferentes para simulares. A Força Aérea, por exemplo, necessita de simuladores mais complexos porque precisa simular as condições de voo para os pilotos, o que envolve grandes aparelhos hidráulicos junto a grandes instalações para abrigá-los.

O especialista em assuntos militares aponta que os benefícios da gamificação militar atingem a indústria, o setor acadêmico e a defesa graças a circulação do conhecimento.

"A academia pode ter uma visão mais clara do emprego tático de blindados e aeronaves pelos militares. Consequentemente, as Forças Armadas são duplamente beneficiadas porque podem ter relatórios da academia para a indústria no desenvolvimento de armamentos e, em princípio, a formação de reservas especializadas nas áreas de comunicação e blindados."

Para Ávila, hoje o maior desafio técnico para manter os simuladores brasileiros atualizados frente à rápida evolução das tecnologias de combate digital no mundo é o domínio da produção do armamento.

"Cada armamento possui um tempo de uso já estabelecido pelos fabricantes. Consequentemente, a atualização acompanhará a necessidade das Forças Armadas em adquirir novos armamentos", explica.

"O alinhamento entre academia, Forças Armadas e indústria pode cooperar no desenvolvimento de sistema nacionais visando diminuir a dependência estratégica de equipamentos para sistemas de defesa."

O especialista detalha que a simulação de sistemas de artilharia treina o militar para a aquisição de alvos, comunicação de verificação dos disparos e a telemetria no terreno para o aproveitamento da saturação.

"O uso do simulador poderá ajudar a Avibras no desenvolvimento de outros sistemas de artilharia no futuro."

No caso específico do Sistema Integrado de Simulação ASTROS, Raul Ceretta Nunes que a maior complexidade está associada à diversidade de situações a serem simuladas de maneira integrada e realista.

O sistema integra três categorias de softwares de simulação – treinamento operacional, técnico e tático - voltados para apoiar o treinamento e adestramento do Sistema Astros, diz o pesquisador.

"No caso do ASTROS, um conjunto de simuladores técnicos de cabine, integrados entre si, apoia o treinamento operacional mais realista em nível individual, por fração, por bateria e por grupo. Finalmente, simuladores virtuais táticos apoiam estudos e treinamentos de decisões táticas, integrados ou não a simuladores técnicos ou a simuladores construtivos."