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Entre o mercado e a dependência: o que o acordo Mercosul x UE significa para indústria sul-americana

Sputinik Brasil 19/01/2026
Entre o mercado e a dependência: o que o acordo Mercosul x UE significa para indústria sul-americana
Foto: © Divulgação / Mercosul

Segundo especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, apesar de alguns benefícios, o tratado entre os dois blocos pode aprofundar disparidades no desenvolvimento de países sul-americanos e prejudicar suas bases industriais.

No último sábado (19), o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia foi assinado em Assunção, Paraguai. Após 26 de conversas entre os blocos, o acordo prevê a criação da maior zona comercial do mundo, com quase 750 milhões de pessoas.

Contudo, o acordo entre Mercosul-UE traz um risco para o desenvolvimento industrial dos países sul-americanos. Ao favorecer a importação de produtos europeus com alto valor agregado, setores industriais, principalmente no Brasil, terão dificuldades em se consolidar e o crescimento industrial sul-americano será inibido.

Enquanto o acordo promoveria uma maior inserção sul-americana no comércio internacional – América Latina corresponde apenas a cerca 3% do comércio internacional, desde commodities e manufaturados – sua ratificação acente alertas de setores industriais, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). No mesmo dia da assinatura na capital paraguaia, a entidade parabenizou como "um marco para integração externa brasileira", mas cobrou que o país enfrente gargalos internos que limitam sua competividade.

Sobretudo, um dos maiores temores é que o acordo torne os países da América do Sul em um eterno celeiro exportador para países industrializados da Europa, caracterizado pelo desenvolvimento industrial tardio da região latina. Para Ana Carolina Marson, professora de relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), muito disso é explicado pelo passado histórico da América do Sul como colônias europeias.

"No território é colonizado não existe o interesse da matriz em desenvolver aquele território", pontua Marson. "Enquanto países da Europa passavam pela primeira revolução industrial no século XVIII, nós, da América Latina, só fomos começar o processo de industrialização a partir do século XX." Marson ressalta a competividade dos produtos europeus como outro motivo para a falta de interesse no desenvolvimento sul-americano.

A professora vê com estranhamento a falta de preocupação dos setores industriais brasileiros com a assinatura do acordo, dizendo que a mesma indignação que agricultores europeus tinham pelos termos do acordo devia ter provocado a mesma reação dos industrialistas por aqui.

Ela explica que pelos termos do acordo, o Mercosul não teria como estabelecer uma base industrial por conta das salvaguardas europeias para produtos de maior valor agregado..

"No nosso caso, nós seríamos competitivos somente com os produtos do setor primário, que são produtos de baixo valor agregado e acabam fazendo com que isso tenha um impacto bastante significativo no nosso PIB, do Mercosul como um todo."

Uma preocupação também surge neste tema: seria possível balancear os padrões de meio ambiente europeu com o desenvolvimento industrial sul-americano?

Para Carolina Pavese, especialista em Europa e doutora em relações internacionais pela London School of Economics, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia poderia conformar setores brasileiros, tanto o setor agrícola como industrias, a seguirem padrões de qualidade e, principalmente, compromissos de sustentabilidade.

"De certa forma, isso gera um incentivo a mais para que nós adotemos políticas e regulamentações e para que a indústria também, o agro também, passe a olhar com mais seriedade para o seu impacto ambiental e social", avalia.

A medida que empresas europeias ganham mais acesso ao Mercosul, o acordo prevê mecanismos de cooperação e transferência tecnológica entre os blocos comerciais. No entanto, estas não ocorrem de maneira automática, mas dependem da adoção de políticas sul-americanas que garantam equilíbrio e ganho para ambos os lados.

Ou seja, há chances de que essas colaborações não ocorram. Isto pode, alerta Pavese, aprofundar assimetrias já existentes entre os blocos comerciais. "Há o risco com que essa maior exposição a uma concorrência com produtos e serviços europeus acabe por estrangular ou acelerar essa desindustrialização nacional."

Marson, por sua vez, lembra à reportagem que acordos de cooperação técnica com países europeus muitas vezes acabam não sendo cumpridos. Para ela, essa disparidade reflete uma contradição estrutural no debate entre o desenvolvimento e preservação ambiental em países da América do Sul.

Países europeus alcançaram seu atual nível de desenvolvimento após longos processos de industrialização que incluíram forte exploração de recursos naturais. Hoje, já industrializados e tecnologicamente avançados, passam a exigir padrões ambientais rigorosos de países que ainda enfrentam um desenvolvimento tardio e dispõem de menor capacidade tecnológica.

Nesse cenário, Marson argumenta que o Brasil, o Mercosul e a América do Sul como um todo encontram dificuldades para equilibrar exigências ambientais europeias com a necessidade de crescimento industrial.

"Em toda conferência econômica, de desenvolvimento ou meio ambiente, nós temos dois grupos que se formam: o grupo dos países desenvolvidos que falam para os países em desenvolvimento que precisam preservar e não podem desmatar; e o outro grupo são os países em desenvolvimento que argumentam que tem um desenvolvimento tardio e precisamos dessa cooperação técnica e transferência de tecnologia. Só que os países do norte também não querem fazer essa cooperação e essa transferência."