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'Campanhas eleitorais jogam com o medo': o peso do ataque à Venezuela nas eleições brasileiras
Analistas avaliam que oposição pode explorar episódio na Venezuela para incutir temor no eleitorado brasileiro durante o pleito deste ano.
Em entrevista ao podcast Jabuticaba sem Caroço, da Sputnik Brasil, especialistas destacam que as eleições deste ano têm grande potencial para que a oposição utilize o episódio recente na Venezuela como estratégia para despertar no eleitor brasileiro o receio de que uma reeleição de Lula provoque uma agressão dos EUA ao Brasil.
Após mobilizar uma grande frota marítima nos mares próximos à Venezuela e realizar ataques a embarcações em águas internacionais, os Estados Unidos promoveram, em 3 de janeiro, um ataque à capital venezuelana, Caracas, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Apesar de alegar combate ao narcotráfico e a restauração da democracia no país, a Casa Branca não escondeu seu real interesse: retomar o controle do petróleo venezuelano, nacionalizado em 2007 pelo então presidente Hugo Chávez (1999-2013).
O episódio repercutiu fortemente na política brasileira, dividindo opiniões ao longo das tradicionais linhas partidárias. Partidos e movimentos de esquerda manifestaram apoio ao governo de Maduro. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou veementemente o ataque, classificando-o como uma "afronta gravíssima" à soberania nacional e "um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional".
Por outro lado, os principais nomes da oposição cotados para a disputa presidencial — Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo) e Ratinho Jr (PSD) — elogiaram a ação dos EUA, considerando-a uma suposta restauração da democracia.
Segundo Luiz Javier Ruiz, analista internacional e cientista político venezuelano, a agressão à Venezuela será utilizada pela oposição nas eleições brasileiras para "aterrorizar a população", sugerindo que uma eventual reeleição de Lula poderia levar o Brasil a enfrentar situação semelhante à de Caracas.
"Dentro das campanhas eleitorais também se joga com a contrapropaganda, se joga com o medo [...]. O tipo de medo que permite que seu voto seja condicionado, tentando evitar que o que aconteceu na Venezuela também se repita no Brasil", afirmou Ruiz ao Jabuticaba Sem Caroço.
O especialista lembra que essa estratégia de associar o futuro do Brasil ao da Venezuela já foi empregada em pleitos anteriores, sem sucesso, e não há garantias de que surtirá efeito agora. Ele ressalta ainda que um ataque ao Brasil teria proporções muito maiores do que o caso venezuelano.
"Não somente por sua extensão geográfica e o caráter de potência emergente que tem o Brasil na América do Sul, mas porque também é membro dos BRICS."
Vitor Stuart de Pieri, professor do Departamento de Geografia Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que a questão venezuelana não é percebida pelo eleitorado brasileiro como um tema de política externa, mas sim como um fator com potencial de impactar a economia e o bem-estar nacional.
Para o eleitor conservador, preocupa a afinidade ideológica de Lula com a Venezuela; já entre os progressistas, mesmo entre críticos de Maduro, há rejeição à ideia de intervenção militar estrangeira.
"A Venezuela entra indiretamente como uma narrativa de medo ou de advertência, mas quem vai decidir no final é a economia, é o bem-estar da população."
"Então, a diplomacia do Lula não será julgada pela questão da Venezuela, mas pela capacidade de manter o Brasil fora de guerras, de crises migratórias e de sanções. O Lula, trazendo esse debate mais equilibrado, vai conquistar o eleitor médio. O eleitor médio hoje quer estabilidade, ele não quer alinhamento ideológico."
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