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A América Latina falhou com a Venezuela, diz especialista
Divisões ideológicas, dependência econômica e falta de coordenação regional expõem a fragilidade da resposta latino-americana ao sequestro de Nicolás Maduro pelos EUA.
O recente sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos acendeu um alerta na América Latina, mas não resultou em uma reação unificada dos países da região. Enquanto algumas nações repudiaram a intervenção norte-americana e defenderam a soberania da Venezuela — como Brasil, Colômbia, Uruguai e Cuba —, outras apoiaram as ações de Washington e chegaram a celebrar a prisão de Maduro, entre elas Argentina, Equador, Panamá, Paraguai e Chile.
A repercussão do episódio evidencia, mais uma vez, a profunda divisão ideológica no continente. Em 31 de dezembro de 2025, por exemplo, o presidente argentino, Javier Milei, declarou a intenção de formar um novo bloco regional orientado por uma ideologia "libertária", com o objetivo de combater o chamado "socialismo do século XXI" e o movimento "woke".
Esse cenário tende a dificultar a formulação de programas e projetos de integração regional, além de gerar instabilidade nas relações diplomáticas entre países vizinhos. Somam-se a isso os acordos bilaterais firmados com grandes potências, como Estados Unidos e China, que fragmentam ainda mais os interesses regionais e tornam a construção de uma união latino-americana cada vez mais complexa.
O Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, questiona em seu episódio desta terça-feira (13) se há um mecanismo de integração regional capaz de lidar com crises geopolíticas como na Venezuela, e que lições podem ser tiradas sobre a fragilidade da unidade latino-americana diante de pressões externas.
Para José Niemeyer, professor de relaçoes internacionais do Ibmec entrevistado pelo Mundioka, os países latino-americanos não teriam condições de responder militarmente ou economicamente aos Estados Unidos, mesmo em um cenário de maior unidade regional.
"Seria um cenário inimaginável, mas isso a gente não tem. O que a gente tem são os canais diplomáticos, são os instrumentos da diplomacia, de uma agenda, uma tentativa sempre de construção de uma agenda multilateral", explica Niemeyer, ao destacar que as economias latino-americanas são altamente dependentes de produtos e serviços provenientes dos Estados Unidos.
Embora esses países não disponham de capacidades para conter ofensivas norte-americanas, Niemeyer avalia que talvez o único "aliado" da América Latina seja a opinião pública interna dos Estados Unidos em relação a Donald Trump.
Desde o início do segundo mandato de Trump, tem crescido a avaliação negativa do presidente entre os cidadãos norte-americanos, impulsionada por fatores como a alta da inflação decorrente da guerra comercial promovida por Washington, a repressão e o aparelhamento de instituições públicas pelo governo, além da perseguição e da violência cometidas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). O caso mais recente foi o assassinato de Renee Good, que provocou protestos em diferentes partes do país.
Segundo Niemeyer, a América Latina falhou em sua resposta ao ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela.
Para Lucas Berti, mestrando em ciência política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos, o IESP, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do Observatório Político Sul-Americano e também do Grupo de Relações Internacionais e Sul-Global, as diferentes posturas quanto ao sequestro de Maduro se dão por um sentido estritamente ideológico.
"Os três países que mais se opuseram à reação latina, que foi majoritariamente de condenar a invasão, foram a Argentina, de Javier Milei, o Equador, de Daniel Noboa, e El Salvador, de Nayib Bukele", elenca Berti.
"Todos eles dizem que é sobre combater o narcoterrorismo, que é aquele discurso que veio desde as sanções do Trump ao Brasil. É um discurso extremamente perigoso, porque condenar o narcoterrorismo é ótimo, é maravilhoso. Mas sequestrar um presidente é perigoso".
Após a invasão dos Estados Unidos, a Colômbia declarou uma reunião de emergência da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) para discutir a situação na Venezuela e a crise humanitária que poderia se instalar. Para Berti, a reunião também foi convocada por medo dos países latino-americanos de serem os próximos alvos do imperialismo dos EUA, sobretudo a própria Colômbia, do presidente Gustavo Petro.
A fim de apaziguar os ânimos entre Bogotá e Washington, Petro concordou em uma reunião na Casa Branca após ter ligado para Donald Trump. O encontro está marcado para a primeira semana de fevereiro e há temores que haja um confronto direto entre os dois presidentes como foi com o líder ucraniano, Vladimir Zelensky, no ano passado, ou, pior, Petro sair algemado após a reunião.
Apesar de não achar que o pior cenário possa ocorrer mesmo após o que ocorreu com Maduro, o pesquisador pontua que Trump sinalizou que não tem problemas em intervir em assuntos na América Latina e acredita que Washington tentará influenciar nas eleições da Colômbia e do Brasil em 2026.
"Me parece extremamente provável que eles tentem intervir de maneiras talvez não tão diretas, mas de maneiras silenciosas, de maneiras a facilitar a disseminação de informações falsas, como as próprias empresas estadunidenses muitas vezes permitem."
Após os últimos acontecimentos — incluindo os telefonemas recentes entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump —, Berti vê sinais de um certo arrefecimento no bolsonarismo por parte do próprio Trump. Ainda assim, o pesquisador diz que devemos esperar algum tipo de tentativa de intervenção nas eleições.
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