Finanças

Empresas passam a oferecer telemedicina, cartão de desconto e terapia a trabalhadores

Micro e pequenas empresas recorrem ao modelo para garantir benefícios em saúde, e empresas de maior porte tentam conter custo do plano de saúde

Agência O Globo - 26/10/2026
Empresas passam a oferecer telemedicina, cartão de desconto e terapia a trabalhadores
Empresas passam a oferecer telemedicina, cartão de desconto e terapia a trabalhadores - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O benefício em saúde no mercado de trabalho deixou de ser apenas o convênio médico tradicional. Serviços como telemedicina, sessões de terapia e cartões de desconto para consultas e exames entraram na lista de auxílios oferecidos aos funcionários pelos empregadores. Enquanto empresas de maior porte usam essas ferramentas para ampliar o cuidado e tentar conter o custo do plano de saúde, pequenas e médias empresas (PMEs) recorrem a essas alternativas para garantir algum acesso à saúde quando o preço do convênio não cabe no orçamento.

O movimento ganha força em um mercado de trabalho aquecido. Com a taxa de desemprego nas mínimas históricas — 5,3% em agosto, a menor para o período desde 2012 —, a rotatividade aumenta, e benefícios de saúde se tornam um diferencial para retenção de profissionais.

O plano de saúde é a segunda condição de trabalho mais valorizada pelos trabalhadores, atrás apenas da estabilidade, apontou pesquisa do instituto Ideia. Para empresas, porém, o custo da oferta ou manutenção do convênio pode ser um gargalo, principalmente para negócios menores.

Reajuste médio de 12,9%

Números compilados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que o reajuste médio dos planos de saúde está em 12,9% no caso dos contratos para menos de 30 usuários, voltados para microempreendedores individuais (MEIs) e PMEs. O percentual está abaixo do registrado nos últimos anos, mas muito acima dos 4,58% de inflação acumulada no país nos 12 meses terminados em setembro, conforme mediu o IBGE.

Sem muito espaço no orçamento, mas com a necessidade de se manterem atrativos, negócios de menor porte têm buscado alternativas na saúde privada. Na rede de clínicas Dr. Consulta, a procura de empresas pela assinatura do cartão que dá descontos em consultas e exames aumentou.

O CEO Massanori Shibata Jr. diz que as empresas clientes são principalmente pequenos varejistas, restaurantes e startups que argumentam não conseguir bancar um plano tradicional, mas querem oferecer benefício em saúde.

— Estruturamos um modelo para atender empresas e discutimos com grupos de pequenos empresários. Um deles tinha uma padaria com seis funcionários. Perguntei: “Por que o senhor não tem um plano de saúde?” e ele respondeu “Você vai pagar para mim? Sabe quanto custa?” — lembra. — Atendemos empresas pequenas, de até 200 vidas. Isso representa 5% da nossa base de clientes, e estamos nos estruturando para atender empresas maiores.

Empresas de grande porte, geralmente com maior estrutura financeira, costumam oferecer convênio médico, mas o reajuste também pesa. A média da correção dos contratos está em 8,27% este ano, mas alcança percentuais bem mais altos a depender do nível de sinistralidade da carteira. Essa métrica mede quanto da mensalidade é usado para custear a utilização dos serviços pelos usuários, e é um dos fatores analisados pelas operadoras para definir o reajuste.

Quanto mais alta a sinistralidade, maior a correção. Em todo o setor, a taxa encerrou o primeiro semestre em 81,9%%, mas a depender da empresa, o cenário é mais grave. Por isso, departamentos de recursos humanos de grandes companhias têm buscado caminhos para acompanhar mais de perto a saúde dos funcionários e reduzir os custos do plano.

Na Motiva (ex-CCR), de transporte e infraestrutura, a adesão a um programa interno de atenção primária, implementado em parceria com o grupo de medicina diagnóstica Fleury, levou a uma economia de R$ 22 milhões em dois anos. O valor é equivalente à fatura de dois meses do plano de saúde da companhia, que é de pós-pagamento: a empresa paga taxa por usuário e mais os valores do uso do plano em si.

O NAP, como o programa foi batizado, oferece aos 16 mil funcionários da Motiva e a seus 22 mil dependentes consultas com médicos de família, ortopedistas, psiquiatras e psicólogos presencialmente em algumas das unidades da empresa e também on-line.

Especialista em Saúde Suplementar e Auditoria em Saúde da companhia, Tania Gallegos Ranieiri calcula que 80% das queixas dos usuários são resolvidas dentro do NAP. Pesquisa feita na companhia por consultoria independente identificou que, entre 2024 e 2025, usuários que aderiram ao programa tiveram idas a prontos-socorros 11% menos frequentes do que os que não buscaram o NAP. Já o número de internações foi 46% menor, o que se traduz em redução de despesas para a empresa e menos absenteísmo.

— Fomos ensinados a consumir saúde de uma forma equivocada. Quando vamos ao pronto-socorro por uma queixa aguda, o médico não nos acompanha ao longo do tempo. Não é um cuidado longitudinal. Por isso, trabalhamos a atenção primária de forma preventiva — justifica.

A redução de custos, segundo a executiva, não se dá apenas nos atendimentos de urgência e emergência, mas também em casos de doenças crônicas e quadros mais complexos. Caso de Claudio Ruzon, coordenador de implantação de tecnologia da Motiva Trilhos, que opera as linhas 4 e 5 do metrô de São Paulo e o VLT Carioca. Depois de passar mal durante uma viagem a trabalho, Claudio procurou atendimento no NAP, passou por uma consulta com uma médica de família e fez exames. Ele diz que o atendimento ágil garantiu o diagnóstico antecipado de um linfoma:

— O resultado assusta, mas a Vanessa, enfermeira do NAP, deu as orientações, acompanhou cada passo e me ajudou com a marcação de exames e consultas. Se não fosse isso, teria demorado mais de um mês para ser diagnosticado.

O programa foi implementado por meio do Pra Você Card, produto com soluções de saúde sob medida para empresas do Fleury. Diretor executivo comercial do grupo de medicina diagnóstica, Alesandro Ferreira explica que a ferramenta não é um cartão de desconto, mas um convênio entre os empregadores e a empresa. Como benefício, empregados e dependentes podem ter acesso a consultas, exames e vacinas com preços reduzidos ou custeados pelo empregador.

Benefício valorizado

O Fleury não detalha números, mas Ferreira calcula que o volume de usuários das soluções triplicou em dois anos:

— O turnover é um processo muito caro, e os benefícios estão tão valorizados quanto o próprio salário.

A telessaúde é outra ferramenta que desponta não apenas como um serviço oferecido pelas operadoras de planos de saúde, mas também diretamente pelas empresas empregadoras, seja para garantir algum atendimento em saúde ou reduzir o custo do convênio. Na Conexa, já são dez mil empresas contratantes, que somam 35 milhões de usuários. Do total, 16% estão empregados em PMEs e o restante em grandes companhias como Vivo, Azul e Marfrig.

Os serviços incluem atendimento médico de urgência e com especialistas, além de sessões de psicologia, nutrição e fonoaudiologia. O vice-presidente Médico Gabriel Garcez relata que muitas das empresas procuram a Conexa se queixando sobre o custo dos planos de saúde, mas reconhecendo a necessidade e a importância de que alguma cobertura seja oferecida:

— Em alguns casos, principalmente varejistas, a empresa não consegue pagar um convênio para todos os colaboradores, e a telessaúde aparece como uma alternativa, pelo menos na parte ambulatorial. Dependendo do pacote, o custo é de R$ 60 por pessoa, contra R$ 300 num plano de entrada.

Outras companhias operam no setor. Caso da Starbem, com 1 milhão de usuários de 16 mil contratantes, como CSN, SmartFit, Decolar, Nestlé e Vulcabras. Do total, porém, 90% das empresas do portfólio são PMEs.

Professora de Gestão de Pessoas da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV Eaesp), Vanessa Cepellos avalia que a busca por benefícios mais em conta é uma opção para empresas de orçamento reduzido se for a única saída:

— Há risco de que empresas maiores identifiquem como oportunidade só de reduzir custos, o que pode ser prejudicial a longo prazo, pois muitas iniciativas são pontuais.