Finanças

Investidores se preparam para forte correção no mercado brasileiro após virada de Lula

'Haverá uma reprecificação significativa, talvez por um tempo, mas ainda é o Brasil, e Lula é um animal político', diz gestora americana

Agência O Globo - 26/10/2026
Investidores se preparam para forte correção no mercado brasileiro após virada de Lula
Investidores se preparam para forte correção no mercado brasileiro após virada de Lula - Foto: Reprodução / Instagram

Os investidores se preparam para um dia de fortes oscilações nos preços dos ativos brasileiros nesta segunda-feira, após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro, o candidato de direita apoiado pela maioria do mercado financeiro.

Os primeiros indícios projetam uma forte correção no mercado acionário: um ETF (fundo de índice) que acompanha ações brasileiras despencou até 16% em Tóquio, a maior queda intradiária desde 2020. Além disso, um contrato de derivativos cambiais na Bolsa Mercantil de Chicago cotava o real a R$ 5,55 por dólar, sinalizando uma alta de mais de 10% da moeda americana em relação ao fechamento de sexta-feira.

Para cobrir bondades: O governo Lula terá que enviar ao Congresso um ajuste de ao menos R$ 20 bi no Orçamento de 2027.

Em entrevista, o presidente da Petrobras afirmou que 'ninguém previu o petróleo neste patamar'.

Por ora, os investidores se preparam para o que Homin Lee, estrategista da Lombard Odier em Cingapura, chamou de reversão “inevitável” da alta que havia sido impulsionada pela vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno.

A corretora Monte Bravo estima que o índice de referência da Bolsa brasileira, o Ibovespa, pode cair mais de 10% na primeira hora de negociação. Em uma pesquisa do Citigroup, com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que a derrota de Bolsonaro resultasse em uma queda de pelo menos 5% do real, com as taxas de juros futuros subindo mais de 1 ponto percentual. Isso ocorre à medida que os investidores descartam as apostas em cortes de juros, que foram feitas após Bolsonaro ultrapassar Lula no primeiro turno, no início deste mês.

Com a vitória de Lula, "espera-se que todos deem um passo atrás", disse Cathy Hepworth, que chefia a equipe de dívida de mercados emergentes da gestora de ativos PGIM, da gigante americana Prudential, com US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão.

“Haverá uma reprecificação muito significativa, talvez por um tempo. Mas ainda é o Brasil, e Lula é um animal político, então as coisas acabarão se estabilizando”, afirmou.

Guilherme Abbud, CEO da Persevera Asset Management, complementou que "movimentos de queda tendem a envolver mais pânico e ordens motivadas por emoções". Ele ainda destacou que Lula poderia eventualmente adotar uma abordagem mais cautelosa em relação aos gastos públicos, mas é improvável que o mercado lhe dê o benefício da dúvida.

A maior parte dos investidores estava posicionada para uma vitória de Bolsonaro, após sua surpreendente liderança no primeiro turno das eleições, que desencadeou uma forte alta e atraiu bilhões em fluxos estrangeiros na expectativa de um aperto fiscal, que permitiria a redução das taxas de juros no futuro. Empresas como UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase e Citigroup correram para emitir recomendações otimistas para os ativos brasileiros.

À medida que as pesquisas permaneciam indicando um segundo turno apertado, com Lula implementando uma série de medidas favoráveis ​​aos eleitores e Flávio Bolsonaro anunciando medidas econômicas incongruentes, muitos começaram a reforçar suas estratégias de proteção para resguardar seus portfólios. No entanto, uma vitória de Bolsonaro ainda era vista como o cenário mais provável.

Desde que retornou ao poder em janeiro de 2023, Lula tem buscado melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros, impulsionando o consumo e dando continuidade à expansão do crédito. Porém, ele fez pouco para enfrentar o crescente déficit do país, que, segundo a maioria dos economistas, é a razão pela qual a nação apresenta algumas das taxas de juros reais mais altas do mundo.

Ainda assim, os mercados brasileiros seguiram, em última análise, um cenário positivo durante seu terceiro mandato. A taxa de desemprego caiu a níveis inéditos e a renda média dos trabalhadores cresceu. As altas taxas de juros, embora restritivas para a economia, tornam a moeda atraente para investidores que buscam manter suas posições em um cenário de dólar mais fraco e afastamento dos mercados americanos, o que contribuiu para impulsionar os mercados emergentes de forma mais ampla.