Finanças

Tesouraço de Flávio Bolsonaro pode acabar com 2,2 milhões de empregos e ter efeito inverso na economia, afirma Dieese

Relatório do departamento aponta que corte pode comprometer parte da economia prometida. Trabalhadores, aposentados e servidores estão entre grupos potencialmente afetados

Agência O Globo - 22/10/2026
Tesouraço de Flávio Bolsonaro pode acabar com 2,2 milhões de empregos e ter efeito inverso na economia, afirma Dieese
Flávio Bolsonaro - Foto: © telegram SputnikBrasil

O corte de quase R$ 200 bilhões proposto pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode provocar recessão, aumentar o desemprego e aprofundar a desigualdade social — ainda assim, sem garantir a estabilização da dívida pública. A informação é de um levantamento realizado pelo Departamento Intersindical Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), publicado nesta quinta-feira (dia 22).

O estudo, feito a pedido das centrais sindicais, informa que o "grande tesouraço" do candidato, como é nomeado em seu programa de governo, implicaria, já no primeiro ano de implementação, em 2027, em 2,2 milhões de postos de trabalho a menos, perda de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e impacto negativo de R$ 203,1 bilhões sobre o Produto Interno Bruto (PIB).

A simulação feita pelo Dieese considera um corte de R$ 194 bilhões, equivalente a 1,5% do PIB. E mostra que, na contramão do que se espera, provocaria uma redução estimada de 1,55% no PIB em relação ao cenário sem ajuste, atingindo diretamente o emprego, a renda dos trabalhadores, o consumo das famílias e a atividade econômica.

Ou seja, o tesouraço teria efeito inverso, comprometendo parte da economia que promete. A queda na arrecadação de impostos seria de R$ 46,8 bilhões, o que consumiria 40% da economia bruta prevista com o ajuste inicial, de acordo com cálculos apresentados pelo Dieese.

"Na prática, a simulação aponta que milhões de brasileiros poderiam pagar a conta do tesouraço com seus empregos, salários e benefícios sociais, enquanto a dívida pública continuaria sem uma solução sustentável", observa o departamento.

Cenários diferentes

Em um cenário mais otimista, a economia brasileira cresceria apenas 0,91% em 2027, apontam as projeções do Dieese. Na visão do departamento, esse índice seria insuficiente para absorver a entrada de novos trabalhadores no mercado de trabalho.

Já em um cenário mais pessimista, o Brasil entraria em recessão, com retração de 0,15% do PIB. O número de desempregados poderia saltar de 5,8 milhões para 7,4 milhões, com a taxa de desocupação chegando à faixa de 6,5% a 7%.

"O resultado seria um mercado de trabalho mais restrito, com menos oportunidades de emprego e perda de renda para milhões de famílias brasileiras", aponta o relatório.

Potencialmente afetados

O levantamento aponta ainda que, para alcançar um corte dessa magnitude, seria necessário ir em algumas das maiores despesas do orçamento federal. O estudo considera que mais da metade dos cortes (51%) recairiam sobre transferências de renda, incluindo Previdência Social, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial.

Outros 17% atingiriam as despesas com pessoas, e 32% as demais despesas públicas.

"Isso significa que aposentados, pensionistas, trabalhadores desempregados, pessoas com deficiência, idosos de baixa renda e servidores públicos estariam entre os grupos potencialmente afetados. Além disso, o congelamento real dos gastos restringiria a expansão dos benefícios, as contratações de servidores e os investimentos públicos, comprometendo a capacidade do Estado de acompanhar o crescimento da população e atender às suas necessidades", pontua o relatório.

O Dieese conclui que o tesouraço proposto pode "combinar baixo crescimento econômico, aumento do desemprego, redução da renda dos trabalhadores e aprofundamento das desigualdades econômicas e sociais, sem resolver o problema fiscal que pretende enfrentar."