Finanças

Governo não explica por que deixou Bolsa Família mais de três anos sem reajuste em processo que tramitou em apenas um dia

Pareceres que embasaram o aumento foram assinados na véspera do decreto, em procedimento sigiloso e fora do sistema eletrônico; consultoria jurídica alertou que efeito no mês da eleição exigia justificativa objetiva

Agência O Globo - 20/10/2026
Governo não explica por que deixou Bolsa Família mais de três anos sem reajuste em processo que tramitou em apenas um dia
Governo não explica por que deixou Bolsa Família mais de três anos sem reajuste em processo que tramitou em apenas um dia - Foto: Reprodução / Agência Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio da Silva não explica, nem mesmo em documentos internos, por que deixou o Bolsa Família sem reajuste por mais de três anos. Também não justifica por que a correção passou a valer apenas em outubro, mês das eleições. Nesta segunda-feira, o

Três documentos sustentam o decreto que elevou os benefícios em 15,04%: o parecer técnico do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), o parecer da Consultoria Jurídica da pasta e a exposição de motivos enviada ao presidente. Os três foram assinados no mesmo dia, 16 de setembro, véspera da publicação do decreto. A proposta tramitou sob sigilo e em papel. Para isso, o governo usou um procedimento excepcional, previsto em decreto de 2024, que dispensa o sistema eletrônico mediante autorização da Casa Civil. A reportagem obteve o processo por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Os documentos só foram incorporados ao processo eletrônico em 1º e 2 de outubro. Isso aconteceu duas semanas depois da edição do decreto, em 17 de setembro, e a dois dias do primeiro turno. Segundo despacho do MPO, o rito excepcional foi adotado “em razão da necessidade de preservação do sigilo durante a preparação da medida”. Não há nos autos manifestação do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), responsável pela gestão do programa.

Na exposição de motivos, o próprio governo reconhece que os benefícios ficaram sem correção monetária desde 2023. “O Decreto nº 12.064, de 17 de junho de 2024, não disciplinou o critério de correção a ser aplicado aos benefícios financeiros do Programa”, afirma o documento. O texto acrescenta que os valores fixados entre 2023 e 2026 não contemplaram a inflação do período.

A correção cobre a variação do INPC entre março de 2023, quando começou o pagamento no formato atual, e agosto de 2026. Com ela, o valor mínimo por família subiu de R$ 600 para R$ 691.

A lei do Bolsa Família prevê que os valores podem ser corrigidos a cada intervalo de, no máximo, 24 meses. O parecer técnico do MPO admite que, como não houve correção desde março de 2023, “esse intervalo já foi superado”. O limite foi atingido em março de 2025.

Apesar de reconhecer a necessidade de recomposição, a exposição de motivos não esclarece por que a correção não foi feita antes. O documento também não aponta impedimentos técnicos ou orçamentários que tenham levado o governo a aplicá-la só em outubro de 2026. A única justificativa para a data nos autos é que agosto era o último mês com inflação disponível. Quanto ao objetivo, o governo afirma apenas que a medida busca “assegurar a efetividade do Programa Bolsa Família como política de garantia de renda básica cidadã e proteção social de famílias em situação de vulnerabilidade”.

Em sabatina à TV Globo na quinta-feira (15), Lula, candidato à reeleição, afirmou que “não sabia” que o benefício não havia sido reajustado durante sua gestão. Segundo ele, quando soube, mandou que a correção fosse feita.

— Não quero que você ouça a reunião que tive com meus ministros quando soube que Bolsa Família não tinha sido reajustado. Eu não sabia. É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas. É impensável, mas aconteceu. Tomei a decisão: vamos dar tudo o que a gente não deu para não acontecer nunca mais — disse.

O tema já tinha causado atrito entre ministros em fevereiro de 2025. Em entrevista à Deutsche Welle Brasil, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, disse que um reajuste estava “na mesa”. Horas depois, foi desautorizado por nota da Casa Civil, que negou haver estudo no governo sobre o tema e afirmou que o assunto “não está na pauta do governo e não será discutido”. Em setembro deste ano, às vésperas do anúncio, Dias afirmou que a ordem no governo era tratar o reajuste como “segredo de Estado”.

Ressalvas jurídicas

A Consultoria Jurídica junto ao MPO, órgão da Advocacia-Geral da União (AGU), fez ressalvas sobre a aplicação da medida no mês das eleições. O parecer, assinado em 16 de setembro, conclui que não havia impedimentos jurídicos. Mas destaca que a escolha da data deveria estar amparada em justificativa administrativa objetiva e que o benefício não poderia ser usado para influenciar o voto.

“O início dos efeitos em outubro de 2026 não configura proibição legal autônoma. Por ocorrer no mês do pleito, deve encontrar motivação objetiva no processo, ligada à apuração do índice, à programação fiscal ou às condições de implementação efetivamente demonstradas”, afirma o parecer.

O texto acrescenta que não cabe à consultoria escolher a data de maior conveniência, “mas verificar se a decisão possui fundamento administrativo real e se não utiliza a prestação assistencial para influenciar o voto”.

A consultoria também ressaltou que, em ano eleitoral, a existência prévia do programa e o caráter permanente do aumento não bastam, por si sós, para garantir a legalidade da medida. “A conformidade eleitoral depende da continuidade jurídica do programa e da ausência de desvio de finalidade, aferidas pelas circunstâncias concretas”, diz o parecer.

O parecer registra ainda que a consultoria não recebeu a memória de cálculo do impacto fiscal, nem as análises de adequação fiscal citadas pelo governo. O impacto é estimado em R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões por ano em 2027 e 2028. Por isso, o documento trata os números como “premissas sujeitas à comprovação no processo, e não fatos certificados”.

A proposta de Orçamento de 2027, enviada ao Congresso 17 dias antes do decreto, não previa o reajuste. Ao apresentá-la, em 31 de agosto, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que não havia previsão de correção do benefício.

Nesta segunda-feira, o governo publicou portaria que antecipa o calendário de pagamentos para antes do segundo turno, no domingo (25). Os depósitos, já com o piso de R$ 691 por família, ficarão concentrados entre esta segunda e quarta-feira (21). Pelo calendário original, iriam até o fim do mês.