Finanças

Exportações da China disparam e colocam superávit comercial no caminho de um recorde

Venda de produtos chineses para outros países cresceu em setembro no ritmo mais acelerado desde o fim da crise financeira global.

Agência O Globo - 14/10/2026
Exportações da China disparam e colocam superávit comercial no caminho de um recorde
Exportações da China disparam e colocam superávit comercial no caminho de um recorde - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As exportações da China apresentaram um aumento recorde, superando suas importações em setembro, à medida que o vasto setor industrial do país produziu em larga escala carros, painéis solares, equipamentos elétricos e outros bens destinados a mercados globais. Em Bangkok, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, pediu que os Estados Unidos e a China reduzam o déficit fiscal em meio a problemas no mercado de títulos e instou a China a diminuir sua dependência das exportações.

O país registrou um superávit comercial de US$ 133,5 bilhões no mês passado, o segundo maior valor mensal já registrado, de acordo com a Administração-Geral das Alfândegas da China. Os números mais recentes indicam que a China caminha para superar com folga o recorde de US$ 1,19 trilhão de superávit comercial alcançado no ano passado.

Espera-se que mais um mês de disparada das exportações intensifique ainda mais as tensões com muitos parceiros comerciais, inclusive na Europa, onde a insatisfação com a enxurrada de veículos chineses e outros produtos está levando alguns líderes a propor uma espécie de “botão de emergência” (kill switch, em inglês) para bloquear a entrada de mercadorias da China.

Os economistas divergem sobre quanto do enorme superávit comercial chinês é impulsionado pelo crescimento das exportações e quanto decorre da fraqueza das importações. Uma moeda desvalorizada ajudou a tornar os produtos chineses mais competitivos no exterior, ao mesmo tempo que elevou o custo dos produtos importados no mercado interno.

O valor do renminbi, a moeda chinesa, caiu mais de 14% em termos reais — ajustados pela inflação — em relação a uma ampla cesta de moedas desde março de 2022, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), uma instituição pertencente aos bancos centrais do mundo, incluindo o da China. Março de 2022 foi quando a China iniciou um confinamento de dois meses contra a Covid-19 em Xangai, que provocou um impacto duradouro na confiança dos consumidores.

Os amplos incentivos fiscais concedidos aos exportadores também impulsionaram o boom das exportações. Esses benefícios custaram ao Ministério das Finanças da China cerca de US$ 318 bilhões no ano passado.

A Administração-Geral das Alfândegas informou que as exportações dispararam 36,3% em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Foi o maior crescimento percentual anual das exportações chinesas desde julho de 2010, desconsiderados os meses em que os números foram distorcidos pelo calendário do Ano-Novo Lunar. As exportações alcançaram o recorde de US$ 447,2 bilhões.

O superávit comercial de setembro ficou atrás apenas do registrado em janeiro de 2025, quando o calendário do Ano-Novo Lunar levou os exportadores chineses a antecipar pedidos antes do feriado prolongado.

Puxão de orelha do FMI

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, advertiu as duas maiores economias do mundo de que será necessário adotar mudanças dolorosas nas políticas econômicas para reduzir os crescentes desequilíbrios fiscais e comerciais.

Ela afirmou que os EUA não conseguirão reduzir sua crescente dívida pública apenas por meio do crescimento econômico, sem ajustes nos impostos ou nos gastos. Enquanto isso, a China precisa reorientar seu modelo de crescimento, baseado nas exportações, para dar mais ênfase ao consumo interno.

Em discurso durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, realizadas em Bangkok, Georgieva destacou as economias avançadas — especialmente os Estados Unidos e os países europeus — como os “piores infratores” no que diz respeito ao excesso de endividamento.

Segundo ela, a alta dos rendimentos dos títulos públicos de referência está repercutindo também nos países de baixa renda, que já foram obrigados pelos mercados financeiros a restringir seus empréstimos.

Questionada sobre a necessidade de os EUA adotarem uma política fiscal mais restritiva, Kristalina Georgieva afirmou que o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, reconhece que os níveis de déficit e de endividamento do país são excessivos e precisam ser ajustados para garantir maior sustentabilidade das contas públicas.

Ela acrescentou que as autoridades americanas apostam sobretudo na manutenção de um ritmo forte de crescimento econômico para ajudar a reduzir a dívida. Entretanto, ponderou que a expansão da economia, embora contribua para esse objetivo, não será suficiente para promover os ajustes necessários no ritmo exigido.