Finanças

Previsão de inflação sobe pela quarta semana, mas projeção para Selic cai após primeiro turno das eleições

IPCA acima do esperado em setembro pressiona estimativas para 2026, enquanto economista associa recuo dos juros à expectativa de maior rigor fiscal com eventual vitória de Flávio Bolsonaro

Agência O Globo - 13/10/2026
Previsão de inflação sobe pela quarta semana, mas projeção para Selic cai após primeiro turno das eleições
Inflação - Foto: Reprodução

As projeções de inflação chegaram à sua maior alta, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, saindo de 5,01% para 5,22%. Ainda assim, a previsão para a Selic voltou a cair, de 13,50% na divulgação anterior, para 13,25%. A taxa básica de juros está atualmente em 13,75% ao ano. O relatório é o primeiro captado após o primeiro turno das eleições de 2026, já que o publicado no dia 5 deste mês foi elaborado na sexta anterior ao pleito.

Fabio Graner:

Nobel de Economia:

André Braz, economista do FGV Ibre, acredita que a revisão reflete principalmente a incorporação do IPCA. Ele explica que os preços da energia elétrica pressionaram o índice, com o fim do desconto temporário de Itaipu, mas também houve pressão de alimentos, combustíveis e passagens aéreas.

— Quando a inflação de um mês surpreende para cima, a projeção do ano aumenta, mesmo que as estimativas dos meses seguintes permaneçam iguais. Por isso, a revisão não significa que os preços passarão a subir no ritmo de setembro. Parte da pressão da energia foi pontual, embora o retorno da alta dos alimentos mereça atenção. E a expectativa para 2027 permaneceu em 4,3%, o que sugere uma revisão mais concentrada no fechamento deste ano.

Já André Valério, economista do Inter, acrescenta que, além da inflação de setembro acima do esperado, há o fator de que estamos entrando em um período de sazonalidade de alta do IPCA. Segundo ele, desde 2010, as medianas dos meses de outubro, novembro e dezembro são 0,50%, 0,51% e 0,62%, respectivamente, muito por conta de altas nos alimentos, que devem se manter pressionados até o final do ano.

— Se assumirmos que a inflação irá convergir para essa mediana nas próximas três leituras, o IPCA fecharia 2026 com alta acumulada de 5,66% — projeta. — Nossa expectativa de momento é que o IPCA encerre 2026 por volta de 5,30%, refletindo essa aceleração da inflação de alimentos no curto prazo.

Valério diz ainda que, na sua visão, são justamente os resultados da disputa presidencial que explicam o arrefecimento das expectativas para os juros, a despeito da alta nas projeções de inflação:

— Com o desempenho de Flávio acima do projetado pelas pesquisas, a probabilidade da sua vitória aumentou. A expectativa é que um eventual governo Bolsonaro entregue uma política fiscal mais austera do que a do atual governo, o que levou a uma reprecificação forte da curva de juros. Uma política fiscal mais restritiva seria mais uma pressão negativa de demanda, o que diminuiria ainda mais a probabilidade de que os choques de oferta correntes contaminem o restante dos preços e permitiria, inclusive, uma intensificação do ciclo de cortes da Selic pelo Copom.

O economista também lembra que a alta de setembro foi focada nos grupos de habitação, alimentação e bebidas e transportes, que são amplamente influenciados por fatores de oferta. Portanto, sem sinais claros de aceleração pela demanda, não haveria urgência de uma resposta da política monetária, o que contribui para a queda nas projeções de juros.

Contas que não fecham:

Além disso, Valério explica que o horizonte relevante da política monetária é o 2º trimestre de 2028, de forma que haveria tempo suficiente para a reversão desses choques que impactam o IPCA no curto prazo.

— O Banco Central ficará atento na capacidade desses choques de oferta contaminarem o restante dos preços. Um requerimento para tanto seria uma demanda aquecida, o que não parece ser o caso, nesse momento. Os dados de consumo e endividamento indicam que os consumidores têm pouco renda disponível, enquanto a atividade dá sinais cada vez mais claros de moderação e o mercado de trabalho também aparenta perder dinamismo na ponta — conclui.

Por fim, as expectativas do Focus para o crescimento se mantiveram estáveis em relação à divulgação anterior, permanecendo em 1,85% para 2026 e 1,40% para 2027. Esses números, no entanto, são inferiores aos projetados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que estimou crescimento de 2,2% para o Brasil em 2026 e 1,9% no fim do ano que vem. Os resultados foram WEO, na sigla em inglês, de outubro.