Finanças

Maiores economias do mundo terão maior déficit nas contas do governo desde a Covid-19, alerta FMI

Na edição de outubro de seu principal relatório sobre a economia global, lançado durante encontro anual, na Tailândia, organismo multilateral cobra ajustes "urgentes"

Agência O Globo - 13/10/2026
Maiores economias do mundo terão maior déficit nas contas do governo desde a Covid-19, alerta FMI
Maiores economias do mundo terão maior déficit nas contas do governo desde a Covid-19, alerta FMI

As principais economias do mundo, tanto as desenvolvidas quanto as maiores emergentes, precisam ajustar suas contas públicas urgentemente, alertou o Fundo Monetário Internacional (FMI), na edição de outubro do relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês).

Contas que não fecham:

Segundo as projeções globais que acompanham o documento, as “economias avançadas” registrarão este ano, no agregado, um déficit nominal de -5,2% do Produto Interno Bruto (PIB), ante os 4,4% registrados em 2025.

Se confirmado, o resultado de 2026 será o maior rombo desde 2021, quando o saldo negativo ficou em 7,3% do PIB, e a maioria dos países ainda gastava acima do normal para enfrentar a Covid-19.

Dívidas acima de 100%

Como resultado, as dívidas públicas não deverão parar de crescer. Este ano, deverão ficar em 108% do PIB agregado nas “economias avançadas”, mesmo nível de 2025, mas com a perspectiva de subir para 115% em 2031. No agregado mundial, estão em 95% do PIB e crescerão para 101,5% em 2031.

No mundo todo:

As projeções mostram que o desequilíbrio das contas de governos mundo afora, consequência da reação à emergência sanitária, veio para ficar. Os saldos entre receitas e despesas governamentais ainda não voltaram aos níveis de antes da pandemia.

“Um foco renovado na reconstrução do espaço fiscal é urgente, diante da dívida elevada, dos custos de captação mais altos, das demandas que se multiplicam sobre os orçamentos públicos e da incerteza intensificada”, diz um trecho do WEO de outubro, divulgado nesta terça-feira, no horário local da Tailândia, onde ocorre a reunião anual do FMI.

Os “custos de captação mais altos” são uma preocupação crescente.

“Quaisquer novos aumentos de gastos ou cortes de impostos devem ser devidamente financiados para assegurar as trajetórias necessárias de ajuste fiscal. Uma consolidação confiável de médio prazo deve apoiar-se em planos bem específicos, incluindo medidas duradouras de receita, administração tributária mais forte, bases tributárias mais amplas, melhor conformidade e maior eficiência dos gastos”, continua o relatório.

Ritmo do crescimento econômico em xeque

Intitulado “Resiliência sob pressão, escolhas urgentes”, a edição de outubro do WEO mostra que o crescimento econômico tem conseguido se manter na maioria dos países. O FMI revisou para 3,1%, ante 3,0% anteriormente, a projeção para o avanço do PIB global este ano — no caso do Brasil, a estimativa recuou para 2,2% ante 2,4% anteriormente.

As “escolhas urgentes”, por sua vez, têm a ver com riscos que os economistas do FMI veem adiante, suficientes para acabar com a “resiliência” do crescimento global.

O desequilíbrio das contas dos governos é um dos principais deles.

“Uma reprecificação generalizada de ativos financeiros, impulsionada por uma reversão da recente postura benigna nos mercados e não desencadeada por notícias específicas sobre a guerra ou inteligência artificial, poderia testar a resiliência das empresas e pesar sobre o consumo das famílias”, diz o relatório.

O caso dos EUA preocupa particularmente. Segundo o FMI, o déficit nominal do governo da maior economia do mundo atingirá 8,5% do PIB este ano, acima dos 7,1% do ano passado. Na China, o rombo vai a 8% este ano, ante 7,9% em 2025.

Emergentes, como o Brasil, sofrem mais

O quadro poderá ser pior para as economias emergentes, como o Brasil:

“O estresse de mercado poderia levar a uma corrida para a segurança (quando, em momentos de crise, investidores globais buscam ativos mais seguros) e afetar em especial as economias emergentes por meio de spreads soberanos (a diferença entre as taxas de juros nos títulos de dívida) mais amplos, pressões cambiais e condições financeiras domésticas mais restritivas.”

No caso das “economias emergentes e em desenvolvimento”, o rombo será de 6% do PIB agregado, nas contas do FMI para este ano, ante 5,8% em 2025.

Será o maior rombo desde 2020, auge das ações contra a pandemia, quando o saldo negativo ficou em 8,4% do PIB, no agregado.

Rombo de 8,1% do PIB no Brasil

Para o Brasil, o FMI estima um déficit nominal (saldo negativo considerando todas as receitas e despesas do governo, incluindo os gastos com juros da dívida) de 8,1% do PIB este ano, ante 7,4% em 2025. Também será o maior rombo desde o auge da pandemia, em 2020.

O desequilíbrio nas contas públicas tem sido apontado como um dos principais problemas da economia do país — um nó a ser enfrentado pelo próximo governo federal.

Embora não faça referências específicas sobre a economia brasileira, o WEO traz alertas especiais para “países com inflação acima da meta ou com pressões inflacionárias subjacentes elevadas”, como é o caso do Brasil, “a consolidação fiscal pode moderar a demanda e complementar os esforços da política monetária para manter a estabilidade de preços”.

Por outro lado, “economias que se beneficiam de receitas extraordinárias com commodities”, como também é o caso do Brasil, que se tornou exportador de petróleo, “devem resistir às pressões pró-cíclicas de gastos”, diz o relatório do FMI.