Finanças
Nobel de Economia: vencedores criaram modelo que orienta decisões de juros dos bancos centrais, explica economista
Para Aloisio Araújo, da FGV, pesquisas deram base para combater a inflação e estimular a atividade; professor brasileiro tem trabalhos conjuntos com Michael Woodford
Os americanos Robert E. Hall e Michael Woodford ajudaram a desenvolver os modelos que orientam os bancos centrais a subir ou cortar juros para controlar a inflação e estimular a atividade econômica. Segundo o economista e professor da FGV EPGE, Aloisio Araújo, as pesquisas deram uma base teórica para calibrar essas decisões, buscando manter os preços sob controle e o desemprego em níveis razoáveis.
Entenda:
Afinal, como se ganha um Nobel?
Araújo, que tem pesquisas acadêmicas conjuntas com Woodford, afirma que a expectativa de reconhecimento já existia havia algum tempo. Em julho deste ano, o americano esteve no Brasil para participar das conferências realizadas em comemoração aos 80 anos do professor brasileiro.
Na avaliação de Araújo, a contribuição dos premiados ajudou a preencher uma lacuna: embora já se soubesse que os bancos centrais influenciavam a economia, os modelos disponíveis não explicavam adequadamente como conduzir essa atuação.
— Todo mundo sabia que o Banco Central tinha um papel importante, tinha efeitos reais. Mas ninguém tinha um modelo concreto do que eles deveriam fazer — afirma.
O desafio, explica o professor, era construir uma orientação para a política monetária que permitisse conter a inflação sem deixar a economia estagnada. As pesquisas dos vencedores contribuíram para o desenvolvimento dos chamados modelos novo-keynesianos, usados pelos bancos centrais.
— Eles criaram um modelo no qual você pode ter a taxa de inflação sob controle e, ao mesmo tempo, desemprego em níveis razoáveis e a economia não estagnada — diz Araújo.
Quando cortar ou subir os juros
O professor explica que os modelos ajudam a fundamentar a redução dos juros em situações de atividade deprimida e inflação baixa, para estimular a economia. Já quando a inflação está elevada demais, a orientação é aumentar a taxa.
— Esse é o princípio básico que sai dos modelos deles. Os bancos centrais usam isso — afirma.
Na construção de modelos que dão sustentação às decisões sobre os juros, eles incorporam ainda as escolhas de famílias e empresas e mostram como essas decisões se relacionam com o comportamento da economia como um todo.
Ao mesmo tempo, consideram que preços e salários não se ajustam imediatamente às mudanças nas condições econômicas. Essa característica ajuda a explicar por que uma crise pode provocar aumento do desemprego, em vez de apenas uma redução dos salários.
Araújo usa as depressões econômicas como exemplo. Em um modelo no qual todos os preços se ajustassem livremente, uma piora da economia poderia levar à queda dos salários, permitindo a manutenção dos empregos. Na prática, porém, esse ajuste não ocorre automaticamente.
— Os salários não caem na hora da depressão, eles têm uma inflexibilidade e são mais rígidos para cair. Eles sobem quando a inflação está alta, mas depois não caem quando têm um momento de deflação — explica.
Ao incorporar essa dificuldade de ajuste, os modelos permitem analisar como a política monetária pode atuar sobre a atividade e o emprego.
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