Finanças

Escala 6x1: PL aposta em calendário apertado para adiar votação

A oposição discute estratégia em almoço e prevê obstrução se Alcolumbre pautar o tema antes da eleição.

Agência O Globo - 07/10/2026
Escala 6x1: PL aposta em calendário apertado para adiar votação
Congresso Nacional - Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

O PL aposta no calendário apertado do Senado para evitar que a proposta de emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6x1 tenha sua votação concluída antes do segundo turno da eleição presidencial. Essa mudança, que acaba com o modelo de seis dias de trabalho por um de descanso, é uma das principais bandeiras de Lula (PT) na campanha à reeleição.

A estratégia dos aliados de Flávio Bolsonaro (PL) foi discutida nesta quarta-feira durante um almoço de senadores da oposição, que decidiram exigir o cumprimento rigoroso dos prazos regimentais e deixar o relógio correr. Caso haja uma tentativa de apressar a tramitação, membros do partido afirmam que a oposição deverá recorrer à obstrução e a outros mecanismos para dificultar a votação.

Nos cálculos da bancada, o rito normal deve atrasar a conclusão da análise para depois da eleição, marcada para o dia 25. A PEC precisa passar por cinco sessões de discussão antes da votação em primeiro turno. Após isso, há um intervalo mínimo de cinco dias úteis entre os dois turnos, além de uma nova etapa de três sessões de discussão antes da votação definitiva.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), trabalha para colocar o primeiro turno em votação na próxima semana, possivelmente na quinta-feira. A partir desse momento, o PL conta com os prazos regimentais e com o calendário eleitoral para dificultar a realização do segundo turno antes das urnas.

— Vamos seguir o rito normal. Não vai dar tempo de votar — afirmou a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) compartilha da mesma visão.

— Se seguir o rito, não dá para votar o segundo turno. Existe um intervalo de cinco dias úteis entre o término do primeiro turno e o início do segundo — explicou.

Coordenador político da campanha de Flávio e líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN) evitou antecipar a posição do grupo quanto ao mérito da PEC e resumiu a estratégia em relação ao calendário:

— Se ele cumprir o regimento, está de bom tamanho — afirmou, referindo-se a Alcolumbre.

O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), sustenta que a discussão precisa ser ampliada antes da votação. Ele afirma que a bancada quer avaliar os efeitos da mudança em diversos setores da economia, como indústria, serviços e condomínios.

— A gente quer conversar sobre outros setores. Não dá para discutir dessa maneira — destacou.

Além dos prazos, há um cálculo político na estratégia. Integrantes do PL consideram que a tentativa de concluir a análise da PEC às vésperas da eleição é algo oportunista e avaliam que o tema ganhou impulso após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformá-lo em bandeira de campanha, cobrando publicamente uma posição de Flávio Bolsonaro.

Aliados do candidato também consideram que, em caso de vitória de Flávio, o ambiente político no Congresso será diferente após as urnas, possibilitando uma nova discussão sobre a jornada de trabalho sem a pressão eleitoral do segundo turno.

Alcolumbre afirmou nesta quarta-feira que a PEC poderá ser votada antes do segundo turno da eleição, caso seja apresentado um requerimento para acelerar sua tramitação. Até o momento, segundo ele, nenhum pedido nesse sentido foi protocolado.

A disputa pelo calendário ocorre após Lula exigir uma posição de Flávio e do PL sobre a proposta. Nesta quarta-feira, o presidente voltou a questionar como o adversário e sua bancada pretendem votar.

Flávio, por sua vez, se mostrou favorável a que os trabalhadores tenham mais tempo de folga, porém não declarou apoio explícito à PEC. O candidato argumentou que a redução da jornada não solucionaria a situação dos trabalhadores desempregados ou endividados, acusando Lula de acelerar a discussão por interesse eleitoral.

— É óbvio que eu sou a favor de que o trabalhador tenha um tempo de folga, para almoçar com a sua família, ir à praia no final de semana, viajar. Só que nada disso vai adiantar se estiver todo mundo endividado ou desempregado. Tem que ter responsabilidade — disse.

O PL defende como alternativa uma proposta apresentada por Marinho, que prevê uma jornada flexível, com remuneração por hora e negociação entre empregado e empregador. Ao abordar o mérito nesta quarta, o senador ressaltou que a oposição ainda não firmou uma posição sobre a PEC:

— Nós não somos contra nem a favor do fim da escala 6x1. Nós somos favoráveis a uma escala flexível.

A PEC em discussão no Senado reduz a jornada máxima de trabalho e estabelece dois dias de descanso remunerado. Por ser uma mudança constitucional, o texto deve ser aprovado em dois turnos, com pelo menos 49 votos favoráveis em cada votação.