Finanças

BC eleva chance de inflação ultrapassar teto da meta para 90%

Probabilidade era de 79% no relatório de junho

Agência O Globo - 24/09/2026
BC eleva chance de inflação ultrapassar teto da meta para 90%
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Banco Central (BC) elevou de 79% para 90% a probabilidade de a inflação superar o limite superior do intervalo de tolerância da meta no último trimestre deste ano. A revisão consta do Relatório de Política Monetária (RPM) divulgado nesta quinta-feira, primeiro documento em que a autoridade monetária detalha suas projeções após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que decidiu reduzir a taxa Selic para 13,75% ao ano.

A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos — o teto, portanto, está em 4,5%. A probabilidade é calculada a partir de intervalos construídos ao redor do cenário de referência do próprio BC.

"A partir de intervalos de probabilidade construídos ao redor do cenário de referência, estima-se que a probabilidade de a inflação ultrapassar o limite superior do intervalo de tolerância no último trimestre de 2026 subiu de 79% para 90%", diz o relatório.

A piora da expectativa ocorreu, apesar de a inflação corrente ter surpreendido com números inferiores. O IPCA acumulado em doze meses recuou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, dentro do intervalo estipulado. Entre junho e agosto, o índice ficou 0,90 ponto percentual abaixo do que o Copom projetava em junho — no acumulado em doze meses, a surpresa baixista chegou a 0,94 ponto, conforme tabela do próprio relatório.

O BC considera esse alívio como temporário. Pelas projeções mensais de curto prazo do relatório, o IPCA acumulado em doze meses deve novamente ultrapassar o teto já em outubro, quando chegaria a 4,61%, avançaria para 4,85% em novembro e fecharia dezembro em 5,21%.

Segundo o documento, "as projeções mensais de curto prazo indicam elevação da inflação acumulada em doze meses, que deve voltar a exceder o limite superior do intervalo de tolerância em relação à meta de inflação".

No cenário de referência, a inflação acumulada em quatro trimestres deve cair para 4,4% no terceiro trimestre deste ano, aumentar para 5,2% no quarto e permanecer "dois trimestres consecutivos acima do limite superior do intervalo de tolerância", conforme especificado no relatório. A projeção só retorna ao centro da meta no primeiro trimestre de 2028 — o atual horizonte relevante da política monetária —, quando o BC espera 3,2%, mesmo número do relatório anterior.

Três fatores explicam a piora no curto prazo, segundo o documento: o efeito do El Niño sobre alimentos in natura, a reversão em setembro do bônus de Itaipu na conta de luz e o choque nos preços do petróleo. A projeção também considera a manutenção da bandeira tarifária amarela até dezembro, hipótese que o próprio BC classifica como "mais restritiva do que a indicada pelos cenários correntes do setor elétrico".

O BC ressalta que os 90% não medem risco de descumprimento formal da meta. Pela sistemática de meta contínua, em vigor desde janeiro de 2025, a meta é considerada descumprida somente se a inflação em doze meses atingir fora do intervalo por seis meses consecutivos, em qualquer mês do ano. Nesse caso, o presidente do BC precisa escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda.

Para os anos seguintes, a probabilidade de a inflação furar o teto cai para 33% em 2027 e 16% em 2028. A chance de a inflação ficar abaixo do piso de 1,5% é inexistente neste ano e de 4% em 2027.

O cenário parte de uma taxa de câmbio de R$ 5,15 e de um preço médio do petróleo Brent de US$ 90 no terceiro trimestre, com pico no quarto trimestre e queda até cerca de US$ 84 no segundo trimestre de 2027. A trajetória de juros utilizada é a da pesquisa Focus, com a Selic em 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029 — sempre acima da taxa de juro real neutra de 5% considerada pelo BC, indicando uma política monetária contracionista em todo o horizonte.

As expectativas de inflação continuam a se afastar da meta nos prazos mais longos. Na pesquisa Focus, a mediana para 2026 diminuiu de 5,30% para 4,90% desde o relatório anterior, mas a de 2027 subiu de 4,10% para 4,30% e a de 2028, de 3,68% para 3,80%. Para 2029, permaneceu em 3,5%. O Copom classifica a desancoragem das expectativas como o primeiro dos riscos de alta para a inflação.

No mesmo relatório, o BC reduziu a projeção de crescimento do PIB deste ano de 2% para 1,8%, devido à composição do crescimento do segundo trimestre e a indicadores mais fracos no terceiro. Para 2027, a estimativa é de 1,4%. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após alta de 1,1% no primeiro.

O Banco Central também avaliou que a alta dos preços do petróleo e derivados, provocada pelo conflito no Oriente Médio, ainda não se espalhou pelo restante da economia. "As evidências analisadas neste boxe sugerem que o recente choque nos preços do petróleo e derivados ainda não gerou propagação inflacionária relevante por meio de efeitos de segunda ordem na economia brasileira", diz o boxe do Relatório de Política Monetária.

Na Pesquisa Firmus, do próprio BC, 77% das empresas relataram aumento de custos com derivados de petróleo e 86%, com frete e logística — mas apenas 43% afirmaram ter elevado os preços de venda, o que indica compressão de margens.

No tocante aos salários, a média dos reajustes nominais registrados em convenções coletivas caiu de 5,7% em fevereiro para 5,1% em agosto, e o rendimento médio nominal desacelerou de 9,6% para 8,0% na comparação interanual.

O BC faz ressalvas. As expectativas de inflação das próprias empresas subiram em todos os horizontes entre fevereiro e agosto, e a expectativa das firmas para o crescimento do custo de mão de obra passou a ficar acima do patamar de 2025. "Os riscos de propagação não podem ser descartados", conclui o documento.