Finanças

Jovens negras têm taxa de desocupação até 2,8 vezes maior que homens brancos, aponta estudo

Relatório mostra que desigualdades persistem mesmo com melhora no mercado de trabalho, avanço da escolaridade e aumento da renda

Agência O Globo - 07/06/2026
Jovens negras têm taxa de desocupação até 2,8 vezes maior que homens brancos, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A taxa de desocupação entre mulheres negras de 14 a 17 anos chega a 24,7%, índice 1,4 vez maior que o registrado entre homens brancos da mesma faixa etária. O dado mostra que, apesar da melhora recente do mercado de trabalho, com queda do desemprego e aumento da renda, as jovens negras seguem em situação de maior vulnerabilidade.

Sabores que 'furam a bolha':

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A constatação faz parte de um relatório da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), com base em dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE. O levantamento aponta que mulheres negras de 14 a 29 anos continuam registrando os piores resultados em indicadores como desocupação, informalidade, desalento e rendimento.

Na faixa de 18 a 24 anos, considerada pelos pesquisadores um momento-chave de transição entre escola e trabalho, a taxa de desocupação das mulheres negras é de 16,5%, 1,6 vez maior que a dos homens brancos. Entre 25 e 29 anos, o índice fica em 10,3%, quase o dobro do observado entre mulheres brancas e 2,8 vezes o dos homens brancos.

Segundo o relatório, mesmo com avanços em escolaridade e renda, persistem desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não melhorou de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando no mercado de trabalho e na sociedade brasileira. Envolvem racismo estrutural, segregação territorial, desigualdade no acesso às redes de oportunidade, discriminação nos processos de contratação e promoção, além da sobrecarga histórica do trabalho de cuidado”, aponta a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos.

A pesquisadora destaca que o território também influencia diretamente as oportunidades, pois moradoras de regiões periféricas enfrentam maiores obstáculos relacionados à mobilidade urbana, acesso à infraestrutura, qualidade dos serviços públicos e redes profissionais.

Renda e trabalho formal

A diferença também se reflete na renda e no acesso ao trabalho formal. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do rendimento dos homens brancos, uma diferença de 53,5% que permanece praticamente inalterada nos últimos anos.

A informalidade entre jovens negras é de 39,1%, cerca de 10% acima da registrada entre jovens brancas. O único segmento mais fragilizado nesse indicador é o dos jovens homens negros, para os quais esse índice chega a 44,2%.

As dificuldades se refletem no desalento, que é a condição de quem desiste de procurar trabalho. As mulheres negras são 38,7% dos jovens desalentados do país, enquanto os homens negros somam 36,1%. Na faixa de 25 a 29 anos, a participação das mulheres negras atinge 44,2%.

Quando a análise recai somente sobre a Região Metropolitana de São Paulo, a desigualdade se repete: jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos chegam a R$ 3.926. Entre 25 e 29 anos, a desigualdade aumenta, com rendimentos de R$ 2.569 para mulheres negras e R$ 5.323 para homens brancos.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. Mas a experiência acumulada pelas organizações da sociedade civil também é fundamental para compreender dimensões que muitas vezes os dados quantitativos não conseguem capturar integralmente, como os mecanismos subjetivos de exclusão e os impactos cotidianos do racismo institucional”, complementa Shirley.

Políticas públicas além das cotas

Segundo o estudo, embora sejam importantes para a redução das desigualdades, as cotas raciais não são suficientes para resolver os problemas no ritmo que essas populações precisam.

Para Shirley, o estudo evidencia que políticas estruturantes são fundamentais, focadas em garantir permanência, mobilidade social, proteção social e acesso a posições de decisão e liderança.

Segundo a pesquisadora, entre as experiências que apresentam resultados positivos estão:

Políticas de cotas raciais e sociais no ensino superior e concursos públicos;

Programas de permanência estudantil;

Ampliação do acesso à creche e políticas de cuidado;

Programas de qualificação profissional voltados à juventude negra;

Metas de diversidade e inclusão no setor privado;

Fortalecimento da educação para as relações étnico-raciais;

Políticas territoriais para periferias urbanas;

Incentivos à formalização do trabalho e programas de transferência de renda articulados à inclusão produtiva.

Políticas públicas de reparação e mecanismos de financiamento voltados para melhoria desse tipo de ação também são caminhos importantes, segundo a coordenadora.

“O enfrentamento das desigualdades raciais exige investimento público, compromisso institucional e participação social. Uma transição justa — seja no mercado de trabalho, na educação ou na agenda climática — só será efetiva se enfrentar as desigualdades estruturais que organizam a sociedade brasileira”, reflete Shirley Santos.