Finanças

EUA acusam Brasil de usar trabalho forçado na criação de gado e usam isso como pretexto para taxar a China

Em relatório sobre nova investigação, governo americano argumenta que suposto desrespeito a normas trabalhistas no Brasil teria permitindo ao país vender carne mais barata para Pequim

Agência O Globo - 03/06/2026
EUA acusam Brasil de usar trabalho forçado na criação de gado e usam isso como pretexto para taxar a China
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A investigação aberta pelos EUA sobre o uso de trabalho proposto aponta não apenas supostas falhas do governo brasileiro em impedir a importação de mercadorias fabricadas com violação das leis trabalhistas, como também a acusação de uso de trabalho imposta em atividades econômicas brasileiras cujos produtos são exportados para outras nações, o que restringe o comércio americano.

Neste segundo caso, o foco é a carne bovina congelada exportada do Brasil para a China. Os EUA usam o suposto trabalho forçado na criação de gado no país para ocorrência acidental aos chineses. Argumentamos que o desrespeito às normas trabalhistas no Brasil permitiria ao país vender carne mais barata para Pequim. Como retaliação, a recomendação é que os produtos chineses importados pelos EUA sejam tributados em 12,5%.

Quem está à frente da investigação é o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que divulgou relatório nesta quarta-feira com suas conclusões.

Há um espaço do relatório dedicado a estudos de caso, que têm por objetivo mostrar como o trabalho proposto é usado por concorrentes dos EUA entre produtores e empresas americanas.

De acordo com o relatório, o uso de trabalho proposto na criação de gado no Brasil “é amplamente documentado”.

Salto de exportações para a China

Os dados citados mostram que, entre 2015 e 2025, as exportações de carne congelada brasileira para as economias investigadas quase dobraram em volume, enquanto o crescimento da carne americana para essas nações foi de apenas 21%.

Especificamente para a China, as exportações brasileiras saltaram 17 vezes no período, de 94 mil toneladas para 1,6 milhão de toneladas, segundo o documento. Isso fez a fatia do produto brasileiro nas importações de carne chinesa subir de 38% em 2021 para 53% em 2025. Já a participação da carne americana nas compras chinesas caiu de 6% (2021) para 2% (2025).

O pesquisador citou ainda que a China importou carne congelada do Brasil por valor 41% inferior ao importado dos EUA em 2025.

EUA autorizam fatores de perda de mercado

Apesar das acusações contra o Brasil, o USTR permitiu que nem toda carne importada da China tivesse usado trabalho forçado e que há outros fatores que podem ter levado à redução das vendas de carne americana para os chineses.

"Embora nem todas as importações chinesas de carne bovina congelada provenientes do Brasil tenham sido necessariamente produzidas com trabalho forçado, a prevalência do trabalho solicitado na produção de carne bovina no Brasil sugere fortemente que pelo menos parte dessas foram produzidas, total ou parcialmente, com o uso de trabalho forçado", diz o relatório.

“A falha da China em importar e aplicar de forma efetiva uma proibição à importação de produtos produzidos com trabalho proposta no caso da carne bovina congelada brasileira conferiu uma vantagem de custo à carne bovina do Brasil e distorceu a concorrência”, continua o USTR.

"Embora outros fatores, como o tamanho da vaca bovina dos Estados Unidos, também podem ter influenciado a competição entre a carne bovina americana e a brasileira, o relatório sustenta que a ausência de uma exclusão às importadas associadas ao trabalho forçado favorecendo os exportadores brasileiros".

O relatório conclui que, em um cenário com fiscalização mais rigorosa, os Estados Unidos provavelmente registraram maiores vendas, receitas e exportações de carne bovina para a China.

Essa leva de investigação do USTR não se restringe ao Brasil. São 60 países na mira, todos acusados ​​de importar produtos que usam trabalho forçado.

Há uma recomendação de tributação de 10% ou 12,5% sobre as áreas de mercado dessas nações, uma vez que seus governos falharam em coibir a importação de produtos. O Brasi está no grupo de 12,5%. Uma decisão definitiva sobre essa nova onda de tarifas ainda será tomada. Uma audiência está marcada para o dia 7 de julho.

Há outros estudos de caso relatados no relatório, como o de tabaco produzido no Malawi e o arroz cultivado em Myanmar. Em ambas as situações, o documento compara as exportações desses países com as exportações do mesmo produto pelos EUA e diz que falhas para fiscalizar a importação de tabaco e arroz que usam suposto trabalho forçado em Malawi e Myanmar prejudicaram os produtores americanos.