Finanças
'Faça você mesmo': negócios apostam no modelo em que o consumidor participa da produção
Especialistas explicam que o consumo experimental é impulsionado pela geração Z
De hambúrgueres a cafés, novos modelos de negócios movimentam o mercado com o lema "faça você mesmo". O consumidor, nesses casos, participa do processo de produção e criação do próprio alimento, em vez de comprar já pronto.
Pode até parecer contraditório, mas os compradores optaram por pagar preços mais altos para ter a experiência de produzir a própria comida. E se isso acontece em cafeterias sofisticadas onde é o cliente quem passa o café coado em filtros de papel à mesa, o modelo já chegou aos negócios populares.
Franquia de bolos:
Negócios:
Em São Gonçalo, no Grande Rio, Trailer do Berg é uma hamburgueria que resolveu inovar permitindo que o consumidor monte seu próprio lanche, desde as escolhas do pão e da carne até os acompanhamentos.
O comprador vai até o trailer, faz o pedido do tamanho do hambúrguer (de uma a quatro fatias de carne), escolhe se a proteína será comum ou artesanal e o tipo de pão. Então, recebe em uma embalagem de lanche, o pão escolhido e a carne pronta, e complementa o lanche da sua forma, colocando os acompanhamentos e os molhos na quantidade e na ordem que desejar. Virou um sucesso.
Fundado em 2011 já com o objetivo de ser uma lanchonete “faça você mesmo”, o Trailer do Berg conta com 20 opções de acompanhamentos, ao todo, são mais de 336 combinações diferentes de hambúrgueres, segundo a idealizadora do negócio, Cíntia Santos, que vendeu sua parte na empresa no último ano. Hoje, os preços dos hambúrgueres variam de R$ 12,00 para a opção mais simples, com pão e uma carne comuns, até R$ 54,00 para o lanche com quatro carnes artesanais.
Fim da escala 6x1:
— O negócio começou por causa de uma dificuldade financeira, precisávamos aumentar a renda familiar. Eu vi uma lanchonete fazendo a dinâmica "monte você mesmo" e me inspirei, como na região ainda não tinha um negócio assim, eu resolvi investir. Eu ganhava na quantidade pois fidelizava o cliente na liberdade que dava a ele em colocar somente o que gostava, ele mesmo montava como achava melhor, e acabava pagando mais só para ter essa experiência — conta Santos.
Jovem gosta de mão na massa
De acordo com o especialista em negócios, Filipe Brandão, a experiência de participar do processo de criação de um produto ou alimento, é uma dinâmica impulsionada pelas novas formas de consumo da geração Z (pessoas nascidas entre 1997 e 2012). A produção artesanal é mais valorizada e, consequentemente, o produto tem mais valor agregado.
— A lógica de consumo mudou: antes o produto era o centro, hoje o cliente é o centro. Negócios baseados em experiência e personalização conseguem cobrar mais porque não vendem “o que”, vendem o “como” e o “porquê”. Quando o valor percebido supera o valor cobrado, o preço deixa de ser barreira e se torna parte natural da experiência premium — explica Brandão.
Foco na experiência de produção atrai consumidores
Localizada na capital paulista, a cafeteria Santo Grão atrai clientes ao transformar o consumo de café em uma experiência personalizada em que os consumidores participam do preparo da bebida e aprendem sobre diferentes tipos de grãos, torra, moagem e métodos de extração.
Durante a experiência, os compradores recebem orientações de baristas especializados, escolhem combinações de diferentes grãos de café, participam da torra dos grãos e ainda levam para casa o café produzido por eles mesmos.
Nas redes sociais, o negócio soma mais de 16,6 mil seguidores no Instagram e aposta na “experiência sensorial e personalizada como diferencial para conquistar apreciadores de cafés especiais”, segundo comunicado encaminhado pela marca.
Veja novidades:
Em Niterói, no Grande Rio, uma sorveteria também nasceu em 2023 com a proposta “faça você mesmo”. A Império Açaiteria conta com 42 opções entre sorvetes e açaí, além de 18 sabores de caldas e 20 complementos entre jujubas, chocolates, granulados, entre outros.
A dinâmica do negócio consiste em pagar pelo tamanho que você quer consumir: os copos variam de 100 ml até 1 litro, com preços de R$ 8,00 a R$ 30,00. Ao realizar o pagamento, o consumidor recebe o pote do tamanho solicitado e uma colher, então, vai até os quatro freezers da loja e monta a sobremesa da forma que quiser.
Daniel Lucas Silva, de 18 anos, conta que soube do local por meio dos amigos e decidiu ir ver como funcionava. Ele relata que, se fosse comprar um copo de sorvete de 100 ml em uma lanchonete perto, gastaria cerca de R$ 5,00, mas prefere ir ao negócio pela dinâmica de montar o próprio doce.
— Eu resolvi começar a vir aqui pois posso comer relativamente mais e isso não vai mudar o valor. Gosto da liberdade de montar do meu jeito, sem ter alguém para fazer o serviço — compartilha o jovem.
Projeto:
Viralizada no Instagram, pizzaria deixa cliente montar
Localizada na Tijuca, no Rio de Janeiro, e fundada em 2015, a pizzaria Borda & Lenha aposta no conceito de personalização total, permitindo que cada cliente monte sua pizza individual de acordo com as próprias preferências.
Nas redes sociais, a pizzaria acumula mais de 56,6 mil seguidores no Instagram e afirma ser um negócio voltado à experiência do consumidor e ao conceito de “faça você mesmo”.
“Um dos nossos maiores diferenciais é o ‘Monte sua Pizza’, no qual o cliente escolhe entre inúmeras opções de ingredientes a forma que quer montar sua pizza. Nosso lema é: ‘Sua pizza, suas regras’”, relata a rede Borda & Lenha em nota.
Influência das redes sociais: nova forma de consumo da geração Z
De acordo com o especialista em vendas e marketing digital, Lucas Trindade, quando as empresas transformam o consumidor em coautor, elas potencializam a criação de conteúdo viral de forma orgânica, nas redes sociais, o que gera maior rentabilidade para o negócio.
— A geração Z busca autenticidade e personalização, não é mais sobre somente vender um produto, é sobre criar ecossistemas onde o consumidor é protagonista, é uma nova forma de consumir. As pessoas postam mais naturalmente o processo de construção do que apenas o resultado final. Isso gera um alcance que nenhuma campanha paga consegue replicar, é “Instagramável”. Além de aumentar o ticket médio, porque as pessoas voltam mais vezes, e criar um ciclo de recomendação orgânica poderoso — destaca Trindade.
(*Estagiária sob supervisão de Danielle Nogueira)
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