Finanças
CNC aponta apostas online como fator de aumento do endividamento das famílias
Instituto Brasileiro de Jogo Responsável rebate e classifica avaliação como alarmista
De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor atribuiu às apostas retidas R$ 143 bilhões do comércio varejista, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O valor equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.
O crescimento dos gastos dos brasileiros com plataformas eletrônicas nesse intervalo superou R$ 30 bilhões por mês. Para a CNC, as apostas online comprometeram a renda disponível para pagamentos em dia e podem ter transportado 270 mil famílias à chamada “inadimplência severa” – especificamente por atrasos de 90 dias ou mais.
A entidade ressalta que “as apostas não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que sejam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo”.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, destaca que, em situações de aperto financeiro, gastos não essenciais e até essenciais podem ser sacrificados. “Podemos deixar de trocar de celular ou de comprar uma peça de vestuário por causa do agravamento da dívida”, exemplifica Bentes, que apresentou nesta terça-feira (28), em Brasília, análise econométrica baseada em dados da própria CNC e do Banco Central.
Os impactos das apostas sobre o endividamento variado de acordo com o grupo demográfico. “Homens, famílias de baixa renda (até 5 anos mínimos), pessoas acima de 35 anos e aquelas com maior escolaridade (ensino médio completo ou mais) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas”, aponta o levantamento.
Segundo a CNC, até famílias de renda superior podem ser afetadas, desviando para as apostas e deixando de honrar compromissos, o que resulta em atrasos e inadimplências. “As apostas afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando o seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substitutos de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, conclui a entidade.
Regulação e proteção aos consumidores
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção aos consumidores. Em nota à imprensa, Tadros afirmou que as apostas online estão comprometendo a renda das famílias brasileiras. "O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites de mercado desse, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras."
De acordo com a CNC, oito em cada dez famílias (80,4%) estão individualizadas no Brasil, percentual próximo aos 78% registrados no final de 2022. Entre 2019 e 2022, a proporção de famílias individualizadas aumentou quase 20 pontos percentuais.
Setor de apostas reage
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de apostas eletrônicas que operam legalmente no Brasil, notificou formalmente a CNC na última segunda-feira (27), solicitando “transparência metodológica” e “acesso integral” às bases de dados utilizadas na avaliação do impacto das apostas no endividamento das famílias.
Para a IBJR, as edições anteriores do estudo partiram de “premissas completamente desalinhadas com os dados oficiais”. Segundo o instituto, “as publicações divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam frontalmente as reportagens oficiais”.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os números apresentados pela CNC, afirmando que “não condizem com os dados oficiais do governo e do setor”. Para a ANJL, a CNC desconsidera “a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros”.
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