Finanças

Banco Central decide a taxa básica de juros nesta quarta-feira. Veja expectativas do mercado

Apesar de preocupação com pressões decorrentes do conflito no Oriente Médio, BC deve seguir ciclo de flexibilização

Agência O Globo - 29/04/2026
Banco Central decide a taxa básica de juros nesta quarta-feira. Veja expectativas do mercado
- Foto: Reprodução

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (29) o novo patamar da taxa básica de juros, a Selic, no Brasil. Apesar das incertezas do cenário econômico atual, a expectativa dos analistas de instituições financeiras é de queda, liderando o ciclo de corte dos juros iniciado pela autoridade monetária.

Fim da escala 6x1:

Dia do Trabalhador:

Das 86 instituições ouvidas pelo Valor Data, 81 esperam uma redução de 0,25 ponto percentual do patamar atual, hoje em 14,75%, para 14,50%. A estimativa se mantém no mercado mesmo com a pressão inflacionária decorrente do conflito do Irã.

Na última reunião do Copom, no meio do mês de março, o BC optou por não dar sinalização sobre os passos seguintes, justamente para incorporar os impactos do conflito que, naquele momento, entrava em sua terceira semana de duração. Agora, a leitura é outra: a autoridade monetária deve reforçar que está atenta ao prolongamento do conflito.

Ontem, o IPCA-15, previsão da inflação de abril, mostrou forte pressão do aumento do preço dos combustíveis, que acompanhou em parte a alta no petróleo desde o início do conflito no Irã. No acumulado dos últimos 12 meses, o indicador alcançou 4,37%, próximo do teto do intervalo de tolerância da meta do BC, que vai até 4,5%.

São justamente os efeitos colaterais do prolongamento da Guerra, que chega hoje no seu segundo mês, que devem implicar numa redução mais suave da Selic até o fim do ano, na visão de especialistas, como o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da BTG Asset Management, Tiago Berriel.

No relatório, ele afirma que as declarações recentes dos membros do comitê reforçam que o nível restritivo permite seguir com o ciclo de cortes. Ainda assim, ele pondera que “a evolução do cenário desde a reunião de março foi desfavorável, com piora da inflação corrente, das expectativas e manutenção de riscos externos elevados”.

Ainda assim, avalia Ian Lima, da Inter Asset, que as expectativas de inflação mais longas “seguem relativamente resultados”, num sinal de preservação da revisão da política monetária e de confiança na reversão, ao longo do tempo, do atual choque de oferta.

Em janeiro, na primeira reunião do ano, o comitê emitiu uma comunicação cautelosa por conta da desaceleração tímida da atividade e do mercado de trabalho. Na última reunião, que iniciou um ciclo de cortes após nove meses de manutenção da Selic em 15%, sem grande aumento em quase 20 anos, o Copom já havia sinalizado preocupação com o conflito:

"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma a serenidade e a cautela na condução da política competitiva, de forma que os passos futuros do processo de comprometimento da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", disse o comitê em março.

Naquele momento, o Copom julgou adequado dar início ao corte diante do longo tempo do patamar no nível de 15%.

Em declarações posteriores, os participantes do comitê afirmaram que o nível restritivo na Selic criou uma espécie de "gordura" para absorver os impactos do conflito.

O BC tem como meta perseguir o centro da meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. O horizonte relevante do BC é de um ano e meio à frente, já que o efeito do patamar tende a levar algum tempo para surtir efeito na economia.

Em março, a projeção do BC para o terceiro trimestre de 2027 era de uma inflação em 3,3%, enquanto para o fim de 2026, a estimativa era de um IPCA em 3,9%.

Ciclo menor

O último boletim Focus, divulgado na segunda-feira, mostrou que a mídia de agentes de mercado aponta para uma previsão de que a inflação ultrapasse o teto da meta, a 4,86% para este ano, e 4% no fim do ano que vem.

Para o economista-chefe do Itaú Mário Mesquita, o comitê deve enfatizar a serenidade e voltar a reforçar que “os passos futuros do processo de comunicação seguirão guiados pela evolução dos dados”, além de incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e extensão no tempo dos conflitos no Oriente Médio e seus efeitos diretos e indiretos.

Se antes do conflito algumas casas estimavam que a Selic alcançasse os 12% no final de 2026, agora já há quem estima a taxa básica de 13,5%, uma diminuição grande da previsão inicial por conta do impacto inflacionário decorrente do choque de oferta de petróleo.

A duração, diz Berriel, do BTG, em relatório, é justamente o fator de preocupação, já que a prescrição de política monetária é reagir aos efeitos secundários e não aos impactos primários sobre preços:

"Desde a última reunião, surgiram sinais de oposição justamente nessa dimensão. A desancoragem (alta na previsão) adicional do Focus, inclusive nos horizontes mais longos, e a piora da inflação reforçam a hipótese de que o choque já começa a contaminar canais mais persistentes", diz. O banco vê Selic em 13% no fim do ano.