Finanças

‘Estamos jogando dinheiro fora’, diz líder de ONG que estimula a economia circular no mundo contra o lixo

Executiva da instituição britânica Ellen MacArthur diz que se trata de uma transformação radical, mas possível e vantajosa. E destaca a China como principal exemplo

Agência O Globo - 29/04/2026
‘Estamos jogando dinheiro fora’, diz líder de ONG que estimula a economia circular no mundo contra o lixo
Ellen MacArthur

Mesmo atrasado em relação a outras economias em desenvolvimento, o Brasil avançou significativamente, em dois anos e meio, na construção de um arcabouço de política pública para conduzir o país na direção da economia circular. É o que avalia Luísa Santiago, diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, em entrevista ao GLOBO.

A instituição sem fins lucrativos leva o nome da ex-velejadora britânica que, depois de dar a volta ao mundo em seu barco, passou a ver o planeta como um lugar de ciclos interligados e recursos finitos. Criada por Ellen no Reino Unido, a fundação hoje atua em vários países em favor de uma agenda que possa acelerar a transição para a economia circular em nível global e impedir o impacto ambiental e social da exploração descontrolada de recursos naturais e da geração de resíduos, que são as bases da economia linear em vigor desde uma revolução industrial.

À frente das operações da instituição na região em desenvolvimento das Américas, Luísa tem dedicado atenção especial ao avanço de marcos legais, soluções e incentivos a essa transição no Brasil. Carioca, mestre em Práticas em Desenvolvimento Sustentável, tem participado de discussões em diferentes instâncias de governo e em fóruns que envolvem a sociedade civil e o setor produtivo.

Ao analisar o panorama global, destaca a frente da China. A despeito de ter expandido seu Produto Interno Bruto (PIB) de forma acelerada nas últimas décadas mergulhando no modelo de economia linear — com todos os efeitos colaterais que isso representa —, o país asiático desponta na criação de soluções sustentáveis ​​para o seu desenvolvimento industrial.

Como definir economia circular e como ela se difere do modelo atual de economia linear?

A economia linear, que funciona desde o período da Revolução Industrial, é baseada na geração de valor econômico por meio da extração, transformação e desperdício da produção. É assim há mais de 200 anos. A Fundação Ellen MacArthur, a partir de 2010, posiciona essa discussão da economia circular, vista como uma nova forma de desenvolvimento.

É uma abordagem que se opõe ao modelo linear, pois coloca no centro da geração de valor princípios radicalmente opostos, compensando o design de produtos, serviços, modelos de negócios e sistemas nos quais busca-se eliminar a destruição e a poluição.

É uma transformação radical da economia, com mudança na maneira de produzir e de consumir, com novas políticas públicas, financiamentos e mecanismos realinhados.

Já existem evidências de ganhos ambientais e até redução de custos de produção em alguns casos com a adoção dos princípios da economia circular. Então por que ela não avançou mais rapidamente?

Levamos um século para construir o modelo linear, o que precisamos agora é sair da inércia. Para que essa lógica seja compreendida, ela requer novas habilidades, conhecimentos e formas de pensar. Trabalhamos com empresas e governos nesse sentido, mas, demoramos um tempo. Nosso papel é acelerar e agir porque as urgências já estão postas.

"Todos nascemos na economia linear e parece que ela é uma regra imutável da natureza. Não é"

Hoje, mais de 100 países já possuem políticas públicas para a economia circular. Muitas delas ainda são políticas de nível estratégico, o que está acontecendo atualmente, no mundo, é mover (as discussões) para políticas mais implementadas.

Quais seriam as fragilidades atuais da economia circular?

Todos nascemos na economia linear e parece que ela é uma regra imutável da natureza. Não é. Foi criada por nós, que a vivemos e colhemos seus benefícios e malefícios. É preciso criar um caminho novo, e o melhor argumento para dialogar é dinheiro na mesa. Da conversa sobre dinheiro ninguém foge.

Os recursos financeiros que hoje dedicamos à economia linear geram perdas enormes, colheitas perdidas, desperdícios incorporados aos produtos. É fato que essa economia é jogar dinheiro fora e se tornar cada vez mais suscetível a choques, consequências de seu próprio modelo de desenvolvimento.

Em que posição o Brasil está nessa transformação comparada ao resto do mundo?

O Brasil foi um dos últimos países, dentre os vizinhos latino-americanos, a começarem a construir suas políticas de economia circular. Os pioneiros, que iniciaram em meados dos anos 2018 e 2019, foram Colômbia e Chile e, depois, Peru, Uruguai, Costa Rica, República Dominicana, entre outros, que avançaram rapidamente em suas estratégias nacionais.

Nós só entramos de fato nessa história em 2023, com a formação de agentes públicos e, depois, com a assinatura da Estratégia Nacional de Economia Circular (Enec). Com esse movimento, do ponto de vista do Poder Executivo, o Brasil criou seu arcabouço regulatório.

No Congresso, tramita o projeto de lei para construir uma Circular de Política Nacional de Economia. O país, em dois anos e meio, avançou muito nessa agenda, mas, para a transformação das políticas públicas em ação, muito ainda precisa ser feito.

Quais as dificuldades das políticas e dos desenhos institucionais da economia circular brasileira?

A base da política pública brasileira é muito boa. O benefício de chegar depois é aprender com os anteriores. Eu diria que a ENEC é um modelo para projetar a economia circular nos negócios, produtos e serviços. A inclusão dos trabalhadores, como catadores e catadores, é uma inovação, pois pensa em uma transição justa.

Hoje, a discussão no próprio governo ainda é muito permeada pela reciclagem, que é apenas uma parte da economia circular e que deve ser pensada desde o design nas empresas para a reciclabilidade, a redução e a eliminação do que é problemático e a construção das infraestruturas permitida para, de fato, o que é reciclável ser reciclado.

Outro ponto a ser trabalhado é a taxinomia sustentável, que é um veículo importantíssimo de direcionar as finanças para uma economia circular. E essa não é uma pergunta trivial, pois o setor financeiro precisa dessa orientação. Eu sonho com o dia em que o Plano Safra será inteiro para a transição agroecológica, com a transição para práticas regenerativas em larga e pequena escala, o que é absolutamente possível.

O Brasil tem tecnologia para a agricultura regenerativa. Já temos exemplos disso acontecendo em larga escala, com capacidade de gerar uma economia da floresta em pé.

Como estão os avanços em outros países?

Uma grande parte dos países começou a procurar a reciclagem, mas, com o amadurecimento da própria discussão, foi possível estressar mais essa relação com a economia linear. Esse foco na reciclagem faz parte da jornada de maturidade, ela não é exclusiva do Brasil. Ela aconteceu em outras partes do mundo também.

"Levamos um século para construir o modelo linear, o que precisamos agora é sair da inércia. Requer novas habilidades, conhecimentos e formas de pensar"

No bloco Europeu temos a Lei da Economia Circular, com uma política central sobre o tema. Mas a China é o grande berço das políticas dessa economia. No início dos anos 2000, já existiam lá parques ecológicos industriais, nos quais a extinção de uma indústria é o insumo da outra. Sem dúvida, a China é hoje um grande ator global da economia circular, sendo protagonista.

Qual seria o contexto para entender esse pioneirismo chinês?

O ponto de partida para a China foi a questão da poluição. Nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008), em que a questão da poluição estava muito em evidência. Portanto, esse momento passa a ser crucial, sendo o ponto de partida da transição do país para energias limpas.

A China atual já fez a sua transição energética e está na frente de todo o mundo que precisa fazer esse movimento na magnitude de uma economia (que era) baseada no carvão, com a redução das emissões de carbono e com a exportação de tecnologia para outros países.

A China olhou também para a questão de comportamento do consumidor, com etiquetagem para reciclagem, combate à poluição e mudanças de hábitos. É um país milenar e uma civilização muito fortalecida por visões comuns nas suas diferentes dinastias. E a questão da civilização ecológica é a que está imperando neste momento.

Os desafios que a economia circular ataca são globais e estão conectados com as mudanças climáticas. Como ela está presente nos fóruns internacionais?

Na Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, inaugurou-se um dia temático de economia circular, portanto houve um crescimento desse tema nas discussões globais multilaterais. E, em outubro desse ano, teremos a COP da Diversidade Biológica, na Armênia, e vamos levar para lá uma abordagem de como a economia circular contribui para alcançar os compromissos de reforço (pelos países) nessa área.

Para o Brasil e para a América Latina, temos uma pauta dos biomateriais, que são de base agrícola e florestal, sendo uma nova fronteira para a economia circular. Essa agenda é extremamente relevante, pois cerca de 70% a 80% desses materiais vêm da Sul Global.

O mundo voltou a falar de guerra, segurança energética e corrida por recursos naturais, como terras raras. Nesse contexto, como a discussão sobre economia circular pode entrar em cena?

O momento atual reforça ainda mais a necessidade de se discutir essa transformação, por vários motivos. Mostra como, por exemplo, a segurança e a transição energética estão conectadas. Será preciso mudar a matriz de energia, pois vemos as crises do petróleo e a corrida pelos minerais críticos, que acontecem, atualmente, iguaizinhas, à corrida da prata, do ouro e do ferro nas eras coloniais e imperialistas.

Isso acontece nessa lógica linear, portanto é preciso reequilibrar essa economia entre Norte e Sul. Porque a maior parte desses minerais está no Sul Global de novo. É uma oportunidade de compensar o que não deu certo e fazer diferente.