Finanças
Geopolítica e economia verde marcam presença do Brasil na feira industrial Hannover Messe 2026, na Alemanha
'País se apresentou como uma solução para o cenário de transição energética', destaca o presidente da Apex Brasil
País-destaque deste ano na Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, na cidade de Hanôver, no norte da Alemanha, o Brasil marcou presença nos corredores, nos debates e nos grupos de conversa com a participação de cerca de 800 empresários e executivos representantes de 300 empresas brasileiras, das quais 140 expositores.
Além do caráter econômico-industrial do evento, a participação brasileira também foi fortemente política, comem um momento de transformação na geopolítica global e da proximidade da entrada em vigor, ainda que em regime provisório, do acordo comercial Mercosul-União Europeia (UE), previsto para 1º de maio.
Em alta:
Na Alemanha:
O alinhamento político com a Alemanha foi destacado diversas vezes como uma vantagem comercial do Brasil. Merz afirmou que “essa proximidade é mais importante do que nunca nestes tempos de tanta mudança na ordem mundial”. O chanceler alemão também disse que fortalecer a “resiliência e a diversificação econômica é uma prioridade máxima” no contexto geopolítico atual.
O balanço feito por executivos de empresas e autoridades foi positivo, com perspectivas futuras também voltadas para o papel do Brasil na transição energética – que passa por setores como biocombustíveis e estratégias minerais.
O mantra de um país com uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo foi reforçada. Mas, para além das oportunidades, nenhum evento também envolveu os desafios da agenda do Brasil, como a regulação europeia, criticada por Lula, que poderá travar o avanço dos biocombustíveis brasileiros na região.
— O Brasil se mostrou como um país estável e aberto a negociações, como ficou claro nos discursos do presidente Lula. A estabilidade é muito importante para os europeus e, especialmente, para os alemães. Além disso, o país se apresentou como uma solução para o cenário de transição energética — disse o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir Müller.
'Coisas fantásticas'
O destaque do Brasil ocorreu em uma edição marcada pela prioridade no uso de inteligência artificial (IA) na indústria, robótica avançada, energia e infraestrutura industrial, ecossistemas de digitalização, inovação e automação.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Luiz Césio Caetano, participou de todos os cinco dias da feira e afirma ter visto “coisas fantásticas” do que virá de evolução na tecnologia industrial na próxima década:
— Isso é muito rico. E a participação brasileira mostra grande capacidade nossa. Temos agora o acordo entre União Europeia e Mercosul, com forte potencial de negócios. Pelas conversas que tivemos, os alemães também têm essa percepção de que o mercado pode crescer muito com o acordo — disse o presidente da Firjan.
Algumas companhias brasileiras fizeram lançamentos durante a feira. A Weg apresentou a linha W23 Sync+Ultra, um motor elétrico de eficiência máxima com economia de energia de até 40% em algumas aplicações, mais sustentáveis, usando 29 vezes menos material do que motores tradicionais.
A produtora brasileira de biocombustíveis B8 mostrou o BeVant, um biodiesel de alto desempenho projetado para substituir 100% o diesel fóssil em motores convencionais, podendo ser utilizado diretamente nos veículos sem a necessidade de adaptações técnicas nos motores ou na infraestrutura atual de abastecimento.
A mineradora Vale e a B8 participaram pela primeira vez da feira alemã, a Weg retomou sua participação, e a Stefanini classificou sua primeira estande própria no evento.
— Ao longo dos anos, a feira foi se aproximando cada vez mais das agendas de inovação, de tecnologia e de tendências. Neste contexto, a Weg achou que era um bom momento de voltar para a Hannover Messe. E como o Brasil foi o país-parceiro do evento, a exposição é ainda maior — disse Daniel Marteleto Godinho, diretor de sustentabilidade e relações institucionais da Weg, que tem 67 parques fabris em 18 países, sendo três na Alemanha.
Mais do que a perspectiva de fechar negócios imediatamente, afirma Müller, da ApexBrasil, a feira de Hanôver funciona como uma espécie de vitrine das novas tecnologias desenvolvidas pelo país, além de gerar contatos para as companhias e startups nacionais de base tecnológica, que buscam parcerias e investimentos na Alemanha.
Balanço da ApexBrasil aponta que mais de cinco mil pessoas passaram pelos estandes das 140 empresas brasileiras expositoras na Hannover Messe. É um número que, segundo Müller, mostra o tamanho do interesse da indústria alemã pelas soluções industriais apresentadas durante o evento.
Para o vice-presidente executivo técnico da Vale, Rafael Bittar, a presença em Hanôver é uma oportunidade de levar à Europa a visão de mineração do futuro, baseada em pilares como operações inteligentes, minimamente invasivas e compartilhamento de valor:
— Somos a única mineradora presente aqui na feira. Não tem tecnologia sem mineração. Não tem tecnologia sem minerais críticos, sem cobre, sem níquel, sem cobalto, sem zinco... Só que a mineração não pode servir simplesmente como atividade de extração, ela gera valor e protege.
Os críticos minerais foram tema de vários debates paralelos na feira, e o Brasil foi apresentado como ator importante por ter a segunda maior reserva do mundo. Como revelou o GLOBO, Brasil e UE realizam uma força-tarefa que tem se reunido mensalmente desde novembro para avançar numa parceria no setor, e já há quatro projetos de avaliação para investimentos europeus, de 56 que foram apresentados. O apoio ao desenvolvimento da cadeia de produção local é colocado pelo governo Lula como condição nessa parceria. Do lado europeu, o diretor da Comissão Europeia para a América Latina e Caribe, Félix Fernández-Shaw, alertou para a necessidade de investimentos do setor público em apoio ao setor privado.
A preparação para a feira durou cerca de dois anos, e a escolha do Brasil como país-parceiro pela segunda vez (a primeira foi nos anos 1980) sinalizou o interesse dos alemães pelo país, disse Müller, da ApexBrasil.
Com o fim de tarifas sobre 543 produtos brasileiros previstos no acordo Mercosul-UE, entre eles máquinas e equipamentos, a expectativa é que o Brasil amplie atraindo suas exportações para a região. Além disso, com a presença de empresas europeias no Brasil há muitos anos, a expectativa é que também cresça o investimento direto no país, já que, sem taxas, o “Brasil fica mais barato e passa a ser mais competitivo para investimentos”, diz Müller.
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