Finanças

Cade abre investigação contra Google por uso de notícias em ferramentas de IA

Órgão de defesa da concorrência apura uso de inteligência artificial para sintetizar notícias exibidas em buscas

Agência O Globo - 23/04/2026
Cade abre investigação contra Google por uso de notícias em ferramentas de IA
Cade abre investigação contra Google por uso de notícias em ferramentas de IA - Foto: Reprodução

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidiu nesta quinta-feira, por unanimidade, abrir um processo para investigar o Google por suposto abuso de posição dominante no uso de notícias por ferramentas de inteligência artificial (IA).

A investigação busca apurar a exibição de conteúdo jornalístico nas plataformas da empresa sem remuneração aos veículos que produzem as notícias, além do desvio de tráfego direto e limitação na distribuição de receitas de publicidade digital.

A análise do tema pelo tribunal do Cade teve início no ano passado. Na ocasião, o conselheiro Gustavo Augusto votou pelo arquivamento do processo. O julgamento foi retomado em 8 de março, quando o conselheiro Diogo Thomson apresentou voto-vista defendendo a abertura de investigação formal, ao considerar que já existiam indícios robustos sobre a conduta da empresa.

Após o voto de Thomson, Gustavo Augusto revisou sua posição e concordou com a apuração sobre o uso de notícias em IA. No entanto, a análise foi novamente interrompida após pedido de vista da conselheira Camila Cabral.

Na sessão desta quinta-feira, com a retomada do julgamento, o plenário decidiu, por unanimidade, instaurar um processo administrativo para investigar a conduta da empresa e seus impactos no mercado de notícias. O processo pode resultar em sanções administrativas por infração econômica.

Em seu voto, Diogo Thomson citou pesquisas e experiências internacionais que demonstram impactos negativos do uso de IA pelo Google sobre veículos de mídia.

— Esse diagnóstico não é isolado. A autoridade sul-africana concluiu em relatório que a posição monopolista do Google e a desigualdade de poder de negociação dos meios de comunicação impedem a partilha equitativa de valor, e que buscas impulsionadas por IA tendem a ampliar ainda mais a extração de valor pelos mecanismos de busca em detrimento dos editores de notícia — afirmou o conselheiro.

Thomson destacou que a conduta investigada evoluiu desde a instauração do inquérito, em 2019, quando era caracterizada pela coleta automatizada de conteúdos jornalísticos disponíveis na web e sua exibição parcial nos resultados do Google, por meio de títulos, trechos e imagens, afetando o direcionamento de tráfego e a monetização dos publishers.

Segundo o voto, esse comportamento se intensificou com a incorporação de funcionalidades baseadas em inteligência artificial generativa, capazes de sintetizar informações diretamente na interface de busca. Thomson ressaltou que essa transformação tecnológica altera de forma significativa a dinâmica de acesso, visibilidade e monetização do conteúdo jornalístico no ambiente digital. Para o conselheiro, há evidências suficientes para a instauração do processo.

O conselheiro Gustavo Augusto, que antes defendia o arquivamento do inquérito, modificou seu voto e apoiou a investigação sobre o uso de dados por IA, sugerindo o arquivamento apenas da apuração sobre “raspagem”.

Nesta quinta-feira, a conselheira Camila Cabral também votou a favor da abertura do processo, destacando que o uso das notícias pelo Google ocorre de forma “unilateral”, sem autorização prévia das empresas jornalísticas. Ela também ressaltou prejuízos relacionados ao controle das receitas publicitárias.

— No caso em exame, a dimensão exploratória pode ser percebida quando a plataforma amplia unilateralmente os usos econômicos do conteúdo jornalístico, internaliza parte do seu valor informacional e publicitário no ambiente da própria interface, controla a forma de devolução da contrapartida aos publishers e converte a dependência em relação ao acesso ao público numa relação comercial assimétrica — afirmou Cabral.