Finanças

Caos no mercado de petróleo deve se agravar com queda da produção por outros gigantes do Golfo

Os Emirados Árabes Unidos, Iraque e o Kuwait já começaram a reduzir extração e estoques se esgotam

Agência O Globo - 08/03/2026
Caos no mercado de petróleo deve se agravar com queda da produção por outros gigantes do Golfo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O caos que tomou conta do mercado de petróleo parece que vai se agravar nos próximos dias, com mais interrupções na produção devido à guerra no Irã, que mantém o Estreito de Ormuz fechado para petroleiros, e aos EUA que consideram ampliar seu leque de alvos no país. Os e o já começaram a reduzir a produção de petróleo à medida que os estoques se esgotam, juntando-se ao .

Gasto extra:

Brasil:

Outros países podem ser forçados a seguir o mesmo caminho, já que os petroleiros continuam evitando a estreita passagem, reduzindo rapidamente o número de navios vazios disponíveis para carregamento. Assim que todos os petroleiros estiverem carregados, os estoques restantes em terra na região crescerão ainda mais rapidamente.

A crise, que já dura nove dias, não dá sinais de resolução iminente, o que significa que uma faixa de água que normalmente transporta um quinto do petróleo mundial está intransitável para navios comerciais. Cerca de um terço da produção da região pode, teoricamente, contornar o Estreito de Ormuz, com a Arábia Saudita já desviando enormes quantidades de petróleo bruto para sua costa no Mar Vermelho para exportação.

O Irã prometeu não recuar diante dos ataques dos EUA e de Israel, que começaram em 28 de fevereiro. O presidente respondeu no sábado, dizendo que os EUA agora considerariam atacar áreas e grupos de pessoas no Irã que não haviam sido alvos anteriormente. Os ataques continuarão “até que eles se rendam ou, mais provavelmente, entrem em colapso total!”, disse ele em uma publicação nas redes sociais.

A caminho de US$ 100

Para analistas, executivos e operadores do setor petrolífero, isso significa alertas cada vez mais enfáticos de que a guerra está levando o petróleo bruto a um ponto de inflexão, aproximando-o do patamar psicológico de US$ 100 por barril. O Brent já subiu 30% na semana passada — seu maior salto em seis anos, ficando a apenas alguns dólares dessa marca.

Outros índices intimamente ligados à região já ultrapassaram esse patamar. Os contratos futuros do petróleo bruto Murban, carro-chefe de Abu Dhabi, fecharam a US$ 103 por barril na sexta-feira, enquanto os contratos futuros do petróleo bruto de Omã estavam a US$ 107. Os contratos futuros de petróleo bruto chinês na Bolsa Internacional de Energia de Xangai fecharam, em dólares americanos, a US$ 109.

— Cada dia adicional de interrupção aumenta a pressão e, nesse cenário, não há teto para os preços no curto prazo — afirmou o ex-operador Stefano Grasso, gestor sênior de portfólio do fundo 8VantEdge Pte., com sede em Singapura.

Freio no desenvolvimento:

Também há crescentes ameaças à infraestrutura petrolífera, aumentando o risco de interrupções que podem persistir mesmo após o fim dos ataques na região. A Arábia Saudita interceptou drones que se dirigiam para o campo petrolífero de Shaybah, com capacidade de produção de 1 milhão de barris por dia, durante o fim de semana. Os ataques no Bahrein e no Catar também continuaram.

Há ainda o bloqueio contínuo do Estreito de Ormuz. Nos últimos dias, apenas petroleiros ligados ao Irã e dois navios graneleiros, que alegavam ser de propriedade chinesa, foram vistos transitando pela região.

Os EUA prometeram reforçar a proteção financeira e potencialmente fornecer escoltas militares, e anunciaram na sexta-feira que implementariam um sistema de resseguro marítimo para a região do Golfo Pérsico. O mecanismo cobrirá perdas de até cerca de US$ 20 bilhões "de forma contínua", segundo um comunicado.

Para os armadores e afretadores que operam na região, no entanto, o custo do seguro não é a principal preocupação que impede o tráfego marítimo. Em vez disso, preocupam-se com a segurança dos navios e das tripulações e afirmam que precisariam de escolta naval completa — nos moldes da Operação Prosperity Guardian, uma coalizão para proteger a navegação no Mar Vermelho — ou, de preferência, do fim das hostilidades.

Outras medidas dos EUA para conter o aumento dos preços do petróleo incluem permitir que a Índia acesse o petróleo russo atualmente armazenado em plataformas flutuantes na região. Washington também cogitou utilizar sua reserva estratégica de petróleo ou até mesmo intervir nos mercados futuros — autoridades desde então minimizaram essas ideias, enquanto Trump ignorou as preocupações com a inflação, mesmo com a disparada dos preços da gasolina nos EUA.

— Sabíamos que os preços do petróleo subiriam, mas também cairão e muito rapidamente — disse Trump no sábado.

A Ásia, dependente de importações e fortemente focada no Oriente Médio, é a região que está sentindo os efeitos mais imediatos.

No Japão — que importa mais de 90% do seu petróleo bruto da região — as refinarias estão solicitando a opção de utilizar as reservas nacionais de petróleo. Outros países, incluindo a China, restringiram as exportações de combustíveis para preservar o abastecimento e manter os preços internos sob controle. A Coreia do Sul está considerando restabelecer um teto para o preço do petróleo pela primeira vez em 30 anos, informou a agência de notícias estatal Yonhap, citando autoridades governamentais.

Enquanto isso, no noroeste da Europa, o preço do querosene de aviação disparou para um recorde histórico de US$ 1.528 por tonelada — o equivalente a mais de US$ 190 por barril — na quinta-feira, segundo dados da General Index que remontam a 2008. O impacto no querosene de aviação é particularmente acentuado porque metade das importações da União Europeia normalmente passa pelo Estreito de Ormuz.

Para os analistas do ING Groep NV, o cenário base agora prevê quatro semanas de interrupção — duas de paralisação total e duas semanas de 50%, disse Warren Patterson, chefe de estratégia de commodities do banco em Singapura.

— Esse cenário não significa necessariamente que veremos o fim completo do conflito nesse período. Mas se os ataques dos EUA e de Israel reduzirem a capacidade do Irã de atacar embarcações e impuserem o fechamento do Estreito de Ormuz, poderemos ver os fluxos começarem a se normalizar — disse ele.

O cenário mais dramático previsto pelo banco é uma interrupção total e permanente do fluxo de petróleo e gás natural liquefeito durante três meses. Isso provavelmente levaria a uma disparada dos preços do petróleo para níveis recordes ao longo do segundo trimestre, escreveram os analistas do banco em um relatório.