Finanças

Reservas brasileiras de terras-raras equivalem a quase duas vezes o PIB nacional, calcula banco internacional

Dado do BID reforça posição de destaque do Brasil na busca global por minerais críticos e estratégicos

Agência O Globo - 06/03/2026
Reservas brasileiras de terras-raras equivalem a quase duas vezes o PIB nacional, calcula banco internacional
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As reservas conhecidas de terras-raras no Brasil têm valor estimado equivalente a 186% do Produto Interno Bruto () do país — quase duas vezes o tamanho da economia brasileira. O cálculo é do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), feito com base em preços internacionais e valores de 2024.

O que são terras-raras?

Disputadas no mundo:

O dado coloca o Brasil em posição de destaque na nova disputa global por minerais críticos, insumos estratégicos para baterias, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética e inteligência artificial.

No mesmo levantamento, o país também aparece com reservas de níquel avaliadas em 12% do . Isso reforça a posição do Brasil entre os principais detentores regionais de ativos minerais de alto valor econômico.

Detalhes:

Terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos usados ​​na fabricação de ímãs permanentes, baterias, turbinas eólicas, semicondutores, elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias militares. Apesar do nome, não são necessariamente escassas na natureza, mas sua degradação e processamento são complexos, caros e ambientalmente sensíveis.

Na comparação regional, enquanto o Brasil se destaca em terras-raras, o Chile aparece com reservas de cobre equivalentes a 526% do , o Peru com 310% e o México com 26%. Isso evidencia como a América Latina concentra parte relevante da oferta global de minerais considerados estratégicos para a reorganização industrial em curso.

O relatório observa que o subsolo dos Andes e do Escudo Brasileiro contém reservas abundantes de cobre, lítio, níquel, grafite e terras raras, justamente os insumos mais demandados pelas novas cadeias tecnológicas globais.

Financiamento:

No caso brasileiro, porém, o BID chama atenção para um ponto central: a riqueza geológica, por si só, não garante desenvolvimento econômico. O próprio relatório resume que a vantagem comparativa da América Latina e do Caribe é grande, mas a transformará em riqueza, pois depende de fatores institucionais e estruturais, como infraestrutura, acesso a energia e água, regulatória e eficiência claras no licenciamento.

A avaliação também destaca que os minerais são críticos das commodities tradicionais porque sua importância decorre simultaneamente do valor econômico e do risco de abastecimento global. São insumos cuja oferta permanece especializada em poucos países, sobretudo no refino.

A China domina parte importante desse mercado, especialmente em terras raras, o que amplia o peso geopolítico desses materiais e estimula países como Estados Unidos e membros da União Europeia a buscar novos fornecedores e novas cadeias de fornecimento.

O estudo observa que essa pressão internacional tende a crescer. A demanda global por lítio pode avançar entre 470% e 800% até 2050, dependendo do ritmo de implementação das políticas globais. Os veículos elétricos consumiram muito mais minerais da unidade produzida do que os automóveis a combustão, enquanto os parques eólicos e solares exigem benefícios adicionais de metais em comparação com as fontes fósseis tradicionais.

Além da transição energética, a digitalização acelerada e o avanço da inteligência artificial também ampliaram a procura por metais industriais. O relatório mostra que, entre 2024 e 2025, metais e minerais mantiveram trajetória de valorização, ao contrário de parte das commodities energéticas, criando uma janela de oportunidade para economias exportadoras com grande base mineral.

Jazidas:

Ao mesmo tempo, o BID aponta para a volatilidade típica desse mercado. Os preços do lítio dispararam em 2017 e novamente em 2021 e 2022 antes de recuarem com a entrada de nova produção. No caso das terras-raras, episódios recentes de restrições às exportações por parte da China também provocaram saltos nos preços internacionais, evidenciando a sensibilidade geopolítica desse mercado.

A leitura do banco é que o Brasil chega a esse novo ciclo com vantagem comparativa importante, mas ainda sem uma estratégia plenamente consolidada para transformar reservas minerais em política industrial. A recomendação central é que os países da região fortaleçam governança ambiental, marcos fiscais e integração regional produtiva para evitar repetir o padrão histórico de exportação de matéria-prima com baixo valor agregado.

Em meio ao avanço global da disputa por minerais críticos e estratégicos, o Brasil vem ampliando negociações bilaterais para estruturar parcerias nessa área. O país já firmou e a Coreia do Sul beneficiou da cooperação em cadeias de abastecimento, processamento e desenvolvimento desses insumos tecnológicos, incluídas para a transição energética e a indústria digital.

O tema também deve entrar na pauta do encontro entre os presidentes Luiz Inácio da Silva e , prevista para ocorrer em breve. Os EUA pretendem ampliar o acesso a estratégias minerais fora da órbita de fornecedores concentrados, especialmente diante da dependência global em relação à China.