Finanças
Em troca de mensagens, Vorcaro relata clima de tensão em negociação de venda do Banco Master
Instituição foi liquidada em novembro do ano passado por uma grave crise de liquidez
Em trocas de mensagens extraídas de celulares pela Polícia Federal (PF), o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, demonstrou desconforto na relação com outras instituições. Ele citou o que enxergava ser uma influência sobre o Banco Central (BC), ou que estaria atrapalhando a tentativa de venda para o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal.
“Esse negócio de banco sempre disse que é igual máfia. Não dá pra sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal”, disse Vorcaro em mensagem trocada com sua namorada, Martha Graeff, no dia 7 de abril do ano passado. Pouco antes, o banqueiro mencionou que teve sorte de uma diminuição de ataques contra ele e que estava no caminho “de resolver”.
"Foi para um caminho muito louco. Criaram um problema que não existia. Mas agora não adianta eu reclamar. Tenho que resolver", disse.
Liquidação
O Banco Master foi liquidado pelo BC em novembro do ano passado por uma grave crise de liquidez. O órgão apurou que o banco não tinha recursos para cumprir seus compromissos de curto prazo. A instituição também é investigada por vender carteiras de crédito ao BRB apontadas como falsas — operação que resultou em prejuízo ao banco público do DF.
Além disso, a investigação também apura a relação com a gestora Reag — também liquidada —, que teria inflado ativos de forma artificial.
Com a crise de liquidez, o Master buscou compradores para seus ativos e chegou a anunciar a venda de controle para o BRB, que foi barrado pelo BC.
BTG
No dia 4 de abril, Vorcaro ele afirmou que se reuniu com o banqueiro André Esteves, do BTG. Nas mensagens, Vorcaro diz que pegou dele uma proposta (que não é explicada na mensagem) e que era para ele "esquecer o BRB".
No relato, o dono do Master acrescenta que o sócio do BTG “entra na mente” dos integrantes do Banco Central.
"Você não acredita nas frases de hoje. Eu levei o Augusto para eu ter uma testemunha. Pelo menos eu consegui dar risada depois, porque o Augusto é engraçado imitando. André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida. Que agradecemos a Deus a proposta dele. E esquecer o BRB", diz Vorcaro nas mensagens no dia 4 de abril do ano passado.
De acordo com a PF, Augusto é uma menção a Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro na instituição financeira. Em seguida, o dono do Mestre deu mais detalhes sobre o encontro com Esteves:
"Fui lá porque o Banco Central pediu, porque ele é ardiloso. Entre na mente dos caras do Bacen", acrescentou.
À época, o BTG negociava nos bastidores a possibilidade de comprar parte dos ativos do Master.
"Reiteramos o posicionamento já manifestado em comunicados ao mercado emitidos pelo BTG Pactual. Esclarecemos que nunca houve interesse na aquisição do Banco Master; nossa atuação limita-se à aquisição estratégica de ativos específicos e sólidos, giramos em prover liquidez à instituição em janelas pontuais de mercado", disse o BTG em nota.
O BRB tentou comprar o Master, mas a operação foi negada pelo Banco Central.
Vorcaro e o BC não se manifestaram. Um interlocutor ouvido pelo GLOBO afirmou que faz parte do processo, quando um banco está com problemas de liquidez, que o BC orienta, mesmo informalmente, que se conversa com outras instituições que têm capacidade de comprar ativos para melhorar a situação.
Outra menção
Em outras menções, Vorcaro cita reuniões com o BC e diversos bancos e diz que fez encontros presenciais em Brasília e também por telefone. E, em 30 de março de 2025, menciona supostas tentativas de influência de bancos contrárias à operação que foram aprovadas pelo BC e outras autoridades.
"Amor, tá bem tenso. Turma dos bancos tá furiosa e ontem plantaram diversas notícias. Vai ser uma semana de retaliação contra mim. Estão muito indignados que deu certo (...) Começam a plantar coisas para atrapalhar o Banco central e autoridades que precisam aprovar operação", relatou Vorcaro.
As negociações para compra do Master pelo BRB ganharam atração em março de 2024 e se tornaram públicas. Só em setembro que a operação foi vetada pelo BC.
Em abril de 2024, o banqueiro que agora está preso menciona, sem citar nome, teve conhecimento de que o presidente do BC (na data, o titular ainda era Roberto Campos Neto) teria mencionado em conversas internacionais na instituição a casa dele em Miami.
"Acredita que o presidente do Bacen já falou da nossa casa? (...) Nada demais. Só te dizendo. Todo mundo fica sabendo tudo hoje", afirmou.
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