Finanças

Relator da CPI diz que prisão de Vorcaro revela 'atuação típica de crime organizado' e justifica investigação no Senado

Dono do banco Master e seu cunhado, Fabiano Zettel, tinham depoimento marcado no colegiado

Agência O Globo - 04/03/2026
Relator da CPI diz que prisão de Vorcaro revela 'atuação típica de crime organizado' e justifica investigação no Senado
Relator da CPI diz que prisão de Vorcaro revela 'atuação típica de crime organizado' e justifica investigação no Senado - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado Fonte: Agência Senado

O relator da CPI do Crime Organizado no Senado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou nesta quarta-feira que a nova fase da Operação Compliance Zero, que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reforça a atuação do crime organizado e justifica o avanço das investigações no Congresso.

— As notícias recentes, com prisão de Vorcaro e parceiros flagrados combinando ações violentas e corrupção de agentes públicos, deixam claro o óbvio: é atuação típica de crime organizado de altíssima periculosidade e pode e deve ser objeto de atuação da CPI no Senado — afirmou.

A nova prisão de Vorcaro, determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), surpreendeu membros da CPI do Crime Organizado no Senado. Nos bastidores do Congresso, os parlamentares afirmam acreditar que uma nova prisão pode levar o empresário a negociar um acordo de colaboração premiada.

Vorcaro foi aguardado para prestar depoimento na comissão nesta quarta-feira, mas parlamentares afirmaram que já consideravam provável que ele não comparecesse ao colegiado, sobretudo após decisões do STF que tornaram facultativa a presença dele e de outros convocados. O que reuniu membros da CPI de surpresa foi a decisão judicial que resultou na nova prisão preventiva do banqueiro.

Cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também foi esperado na CPI nesta quarta-feira. Ele foi alvo de mandato de prisão preventiva no âmbito da operação e foi entregue à polícia.

A possibilidade de ausência foi aberta na véspera pelo próprio Mendonça. Ao analisar o pedido da defesa, o ministro apresentou a obrigação de comparação do empresário à CPI e transformou a convocação em facultativa, com base no direito constitucional de não autoincriminação. Na decisão, o magistrado citado anteriormente do STF segundo os quais investigados não são obrigados a comparecer aos interrogatórios, inclusive em comissões parlamentares de inquérito, e ressaltou que o direito ao silêncio inclui a faculdade de decidir se compareceu ou não ao ato, sem que haja sanção pelo não comparação.

As informações sobre as prisões passaram rapidamente por uma circular entre membros da CPI em grupos de WhatsApp e mensagens trocadas entre senadores. Nos bastidores da comissão, os senadores relatam que a operação da Polícia Federal mudou o clima em torno da investigação.

Parlamentares ouvidos pela reportagem avaliam que a decisão de Mendonça pode dar um novo impulso político às investigações no Congresso, que vieram enfrentar entraves judiciais nas últimas semanas. Entre eles, a suspensão da quebra de sigilos bancários, fiscais e telemáticos da empresa Maridt Participações SA, medida aprovada pela CPI. Como noticiou O GLOBO, o colegiado recorreu à decisão do ministro Gilmar Mendes.

— A CPI vê com satisfação a justiça sendo realizada. A permanência de Vorcaro em liberdade ameaçava a investigação, considerando o poder econômico e sua rede de influência. O ministro André Mendonça tem marcado zelo pela justiça, então era uma medida voluntária — afirmou o senador Sergio Moro (União-PR), titular da comissão.

O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), também integrante da CPI, disse que já esperava que Vorcaro optasse por não comparecer ao depoimento marcado para esta semana, mas afirmou que não imaginava que a situação evoluiria para uma nova prisão nesta quarta-feira.

— Eu não tinha dúvida de que ele não iria comparecer, pois o silêncio é a melhor arma dele — disse.

A sessão da CPI do Crime Organizado prevista para esta quarta-feira acabou cancelada após decisões do STF que tornaram facultativa a presença de Vorcaro e Zettel. Em nota, o colegiado afirmou que a ausência dos depoentes não interrompeu os trabalhos e que as investigações seguem em curso com análise de documentos e outras medidas.

A repercussão da prisão também chegou à Câmara dos Deputados. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), membro da CPI do INSS — que também aprovou a convocação de Vorcaro para prestar esclarecimentos na semana passada — afirmou que o episódio reforça a necessidade de aprofundar as investigações.

— Queremos que esta investigação sobre o Mestre seja levada às últimas consequências, porque o Brasil precisa conhecer a coluna desse banqueiro que se tornou bilionário a partir de decisões tomadas dentro do governo Bolsonaro — afirmou.

Também membro da CPI do INSS, o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO) comentou o impacto de uma eventual colaboração premiada.

— Existe muita apreensão no meio político, e uma eventual delação, que já é esperada, pode abalar todas as instituições da República.

A terceira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira. Além da prisão de Vorcaro, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais.

A decisão de André Mendonça também determinou o afastamento de investigações de cargas públicas e o bloqueio e sequestro de bens que possam chegar a R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado.

As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou nesta quarta-feira a terceira fase da Operação Compliance Zero e levou novamente à prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, além de outros investigados. A investigação da Polícia Federal apura um suposto esquema bilionário de fraudes no sistema financeiro, com suspeitas de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Segundo o pesquisador, o esquema teria utilizado estruturas do mercado financeiro para captar recursos e movimentar ativos de alto risco ou de baixa liquidez, além de operações que seriam adequadas para ocultar prejuízos e desviar recursos. A decisão também cita suspeitas de interlocução com servidores públicos e tentativa de interferência nas investigações.

A operação, chamada de Compliance Zero, já teve três fases. A primeira, deflagrada em novembro de 2025, investigou a suspeita de venda de carteiras de crédito sem lastro a outras instituições financeiras. A segunda, em janeiro deste ano, ampliou o foco para o uso de fundos de investimento vinculados à gestora Reag para a circulação de recursos e aquisição de ativos considerados problemáticos. Já a terceira fase, autorizada agora pelo STF, inclui novas prisões e medidas cautelares contra investigados ligados ao caso.