Finanças

Petróleo, dólar, inflação: quais serão os impactos dos ataques entre EUA, Israel e Irã?

Analistas esperam eleveção no preço do petróleo e impactos no mercado financeiro com escala militar no Oriente Médio

Agência O Globo - 01/03/2026
Petróleo, dólar, inflação: quais serão os impactos dos ataques entre EUA, Israel e Irã?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Pesquisadores e analistas do mercado financeiro começam a calcular os impactos na economia global da após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã e a resposta do regime de Teerã. De imediato, especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam numa , além de valorização do dólar e do ouro e possíveis impactos inflacionários mundo afora.

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Impactos:

O barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, encerrou a sexta-feira negociado a US$ 73 e já estava a R$ 80 no mercado de balcão, segundo analistas. Para Luiz Carlos Prado, professor de Economia Internacional da UFRJ, o mais provável é que o barril alcance US$ 100, dadas as instabilidades no Oriente Médio.

Segundo dados do Boletim Estatístico Anual de 2025 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o Irã é o oitavo maior produtor de petróleo bruto do mundo, com 3,2 milhões de barris produzidos diariamente em 2024. Se considerados apenas os membros da organização, o país sobe para a quarta posição.

Mas esse não é o único fator que pode impactar o preço do petróleo por causa dos conflitos. Horas após os primeiros ataques dos EUA e de Israel no Irã, no sábado, a Guarda Revolucionária do Irã informou que “nenhum navio está autorizado a passar pelo Estreito de Ormuz”. O fechamento não foi confirmado oficialmente, mas o anúncio iraniano e a tensão militar levaram as petroleiras e as empresas de transporte marítimo a ordenarem que seus navios fiquem longe da região.

Veja o ranking atual:

Estados Unidos – 13,20 milhões barris/dia

Rússia – 10,17 milhões barris/dia

Arábia Saudita – 8,95 milhões barris/dia

Canadá – 5,57 milhões barris/dia

Iraque – 4,26 milhões mil barris/dia

China – 4,21 milhões barris/dia

Emirados Árabes Unidos – 3,32 milhões barris/dia

Irã – 3,25 milhões mil barris/dia

Brasil – 3,25 milhões barris/dia

Kuwait – 2,56 milhões barris/dia

A via marítima, na fronteira sul do Irã, conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, e é considerada a mais estratégica rota de exportação de petróleo do mundo, conectando ao mercado internacional grandes produtores de petróleo, como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos, e grandes volumes de gás natural liquefeito (GNL) do Catar.

Diariamente, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e grandes volumes de GNL atravessam a passagem, cerca de 25% do consumo mundial da commodity. Por isso, qualquer interrupção no tráfego pode provocar alta nos preços e instabilidade nos mercados internacionais. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia alertou ontem que o e gás.

De acordo com especialistas da indústria e dados marítimos analisados pelo New York Times, o até a noite de sábado. Já segundo a agência Reuters, 150 navios petroleiros e de GLN estão parados nas proximidades.

— Vai haver um aumento de preço, a discussão é de quanto e como isso afeta a economia mundial, inclusive a do Brasil. Os efeitos no petróleo podem ter consequências monetérias, com pressões inflacionárias, e também financeiras, porque isso afeta os mercados. Se for o caso de um fechamento efetivo do estreito por mais tempo, as consequências podem ser bastante graves, no mínimo de recessão mundial. — analisa Prado.

Maior empresa de navegação do mundo:

O cenário de instabilidade mexe com os investidores, que buscam refúgio em ativos historicamente mais seguros. Especialista em câmbio e analista da Genial Investimentos, Luan Aral acredita numa valorização do dólar, do ouro e de títulos do tesouro americano.

"Fluxos defensivos direcionam capital para títulos soberanos de economias centrais, enquanto moedas emergentes sofrem depreciação tática, especialmente aquelas com maior sensibilidade a fluxo externo e balança energética. O ajuste não depende de deterioração estrutural imediata, mas da reavaliação temporária do apetite a risco global", complementou em nota Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.

Impacto sobre voos

Há ainda outros impactos. O conflito também afetou milhares de voos em grandes hubs da aviação global, como os aeroportos de Dubai, nos Emirados Árabes, e Doha, no Catar. O site de rastreamento FlightAware informou que mais de 6,7 mil voos foram atrasados e 1,9 mil cancelados em todo o mundo até as 7h de domingo, pelo horário de Brasília, além dos milhares registrados no sábado.

A interrupção no transporte aéreo global já é considerada a maior desde a pandemia da Covid-19. Por isso, na análise de Aral, ações de companhias aéreas podem sofrer perdas no mercado global, ainda que numa escala menor dado que no restante do mundo as operações seguem normais.

Impactos aéreos:

— Nesse primeiro momento, a queda vai ser generalizada, em praticamente todos os ativos, incluindo papéis das aéreas. Mas, se houver uma escalada das tensões, podemos ter um reflexo mais direto em companhias aéreas de passageiros e também de cargas — observa.

O analista da Genial Investimentos também pondera que, pelo menos num primeiro momento, petroleiras brasileiras podem registrar ganhos:

— Empresas que produzem petróleo aqui no Brasil, como Petrobras, Prio e Petro Recôncavo podem se beneficiar, mas vai depender de como vai se desenrolar essa situação.

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No médio e longo prazo, os efeitos econômicos da crise que tem como epicentro o Irã podem se alastrar, já que se somam a outras instabilidades globais, como o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump, analisa Prado, da UFRJ.

Para o professor, os mais afetados são países de renda média, como Brasil, Canadá e Turquia, que têm parcerias comerciais com nações de várias partes do mundo e precisam de uma ordem internacional estável para o bom funcionamento das relações diplomáticas e de investimentos privados.

Fábio Graner:

— A decisão de iniciar o conflito militar deveria ter sido aprovada pelo Congresso dos EUA, o que foi ignorado. O presidente Trump atua com um grau de autonomia completamente estranho a qualquer chefe de Estado democrático, e a ordem econômica mundial é afetada por esse comportamento instável. Depois de uma eventual saída do Trump, "recolocar o gênio na garrafa" da ordem global é muito difícil. Vamos viver num mundo muito instável pelos próximos anos, pelo futuro previsível, independente do que ocorra com os governos — afirma.

Ele questiona:

— A instabilidade atual é uma incógnita e se junta a já instalada desordem nas relações econômicas internacionais, em especial a questão tarifária. Como é que uma empresa faz os cálculos para investimentos internacionais numa situação de tal fragilidade?