Finanças
Além da cerveja: mercado 'zero álcool' cresce com opções de vinho, uísque e drinques em bares
Queda no interesse de brasileiros por alcoólicos inspira indústria e varejo a apresentar novas bebidas para socialização
O consumo de bebidas alcoólicas está em queda no Brasil. Quatro em cada dez brasileiros não as consomem, segundo o estudo “Dossiê das Bebidas”, realizado pela martech MindMiners, e o índice se repete quando o assunto é o desejo de reduzir a ingestão.
— Os dados mostram que não estamos falando apenas de restrição, mas de escolha. Os principais motivos são variados: falta de interesse, desconforto com os efeitos do álcool no corpo, não gostar do sabor e, principalmente, a busca por mais saúde, equilibrio e qualidade de vida — explica Rosana Camilotti, diretora da MindMiners.
Os dados podem parecer, à primeira vista, desanimadores para uma indústria que ocupa a terceira posição no mundo em produção cervejeira. Mas abre outros mercados.
A Ambev, líder no país, lançou este ano a sua quarta marca de cerveja zero álcool, a Skol Zero Zero, também sem glúten, após o sucesso das versões sem álcool de Brahma, Budweiser e Corona. Em 2025, esse portfólio cresceu cerca de 30% em vendas em relação ao ano anterior. Além da cerveja, já é possível encontrar novas versões de vinhos e até destilados nos mercados.
— A redução no consumo de álcool já impacta de forma concreta o mercado de bebidas e o varejo, já que grandes redes ampliaram o espaço nas prateleiras para cervejas, vinhos e até destilados zero álcool — explica Leandro Rosadas, especialista em gestão de supermercados, que completa: — Esse movimento acompanha um consumidor que busca moderação, saúde e equilíbrio. As vendas indicam que não se trata simplesmente de trocar cerveja por suco ou refrigerante, mas de uma mudança mais sofisticada de comportamento. Parte do público reduz a frequência e o volume de álcool e mantém a experiência social.
Indústria nacional tem vinho e até uísque
Pioneira no mercado, a vinícula brasileira La Dorni, que desde 2000 vende vinhos desalcoolizados, sentiu o crescimento desse movimento.
— Meu pai desenvolveu o primeiro vinho da América do Sul para quem não podia consumir álcool. O público era de pessoas mais velhas, que tomavam medicamentos, ou vinha do crescimento de igrejas evangélicas no país. Hoje em dia, a gente nota que as novas gerações são muito preocupadas com saúde e querem estar dispostas e sem ressaca no dia seguinte. É um estilo de vida — diz o sócio-proprietário Jonathan Martins.
A saúde ganhou foco em todo o mundo principalmente após a pandemia do coronavírus. O impacto é perceptível nos números da La Dorni: antes, vendia cerca de 150 mil litros por ano; atualmente, chega a 420 mil litros.
Novas marcas também passaram a olhar para esse público recentemente. A Bacco, que nasceu em 2017 e produzia apenas destilados até 2024, lançou, em julho daquele ano, a marca Miden, voltada a desalcoolizados. Menos de dois anos depois, ela já conta com um aperitivo e um gin — que representam 10% do faturamento da empresa. E tem um uísque a ser lançado esta semana.
— Entendemos que incorporamos 10% a mais no nosso faturamento. A Miden não concorre com a Bacco. Ela ocupou um espaço que antes era dos refrigerantes, sucos, chá e atende quem não faria o consumo da bebida alcoólica. Este é o primeiro momento em que a indústria de bebida recreativa olha pra quem não bebe — pontua o sócio-fundador José Henrique Tomasson.
Bares adaptam cartas de drinques
De olho neste cenário, restaurantes e bares também se adaptam para oferecer aos clientes drinques sem álcool, os chamados “mocktails”. As opções sem teor alcoólico chegam a 35% do cardápio, como no caso das oito sugestões da pizzaria carioca Ferro e Farinha, que tem cinco unidades na Zona Sul e na Barra da Tijuca. Nos Bares do Zeca Pagodinho, com quatro unidades nas zonas Sul, Norte e Oeste do Rio, as dez opções representam 15% da carta.
— Passamos a desenvolver receitas para funcionar na versão alcoólica e na não alcoólica, mantendo estrutura, identidade e experiência sensorial. Não é 'tirar o álcool'; é criar duas experiências igualmente bem resolvidas — conta o mixologista Dom Colombia, responsável pelos drinques autorais da rede: — E o resultado aparece em números. A releitura do clássico Gin Pink, sem álcool, no último ciclo de carta (2024–2025), se manteve entre o quarto e o sexto lugares no ranking geral dos coquetéis mais vendidos.
No Ristorantino, na Barra da Tijuca, a venda de drinques sem álcool fica entre 15% a 25% do bar, dependendo do dia. Na Babbo Osteria e na Francese Brasserie, ambos em Ipanema, o desalcoolizado campeão alcança 50% e 70% do resultado do mais popular drinque com álcool. As duas casas contam sete drinques sem álcool, cada.
Demanda vira assunto de cursos
A demanda dos consumidores também abriu mercado para cursos. Embora o tema já estivesse presente pontualmente nos treinamentos de coquetelaria organizados pelo Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), uma nova formação, focada no desenvolvimento de drinques sem álcool, foi lançada em agosto.
— A iniciativa surgiu da combinação de três fatores: o crescimento da demanda de mercado, as solicitações de alunos de coquetelaria por um maior aprofundamento e o interesse dos professores — explica Leo Sousa, coordenador da área de Treinamentos: — Diante da boa receptividade, lançamos uma nova turma em janeiro. E já contamos com uma lista de interessados para uma próxima edição.
‘Mocktail é uma simulação de um coquetel’
Michell Agues, fundador da Bar Skull Escola de Coquetelaria, no Centro do Rio:
A Bar Skull é uma escola que, desde 2018, já formou cerca de três mil pessoas nos cursos para bartender e mixologia. O bartender é um posto operacional, no qual o profissional reproduz os drinques. E o mixologista atua na área estratégica, sendo responsável pela criação das bebidas. O cursos sempre abordaram os mocktails, mas esse estudo ganhou espaço nos últimos anos. O mocktail, para mim, é uma simulação de um coquetel. Diferentemente de um suco ou de uma soda, tem que ter uma complexidade nos ingredientes, misturar texturas e sabores. Mas aqui na escola, nosso diferencial é ter também todas as bases destiladas sem álcool, como uísque, gin, rum e tequila zero álcool, e usá-las sempre. Então, nessa linha, a gente sente as mesmas sensações de bem-estar que um coquetel pode passar, mas sem o psicoativo, que é o álcool.
Onde tem opções desalcoolizadas
La Dorni - A vinícula tem opções zero álcool de vinho tinto suave, vinho branco suave, vinho fino, vinho tinto meio seco e vinho tinto seco. Jonathan Martins explica que os vinhos são fermentados e depois é feita a retirada do álcool da composição. Isso permite que a estrutura do vinho seja preservada, uma vez que é na fermentação que são incorporados os polifenois, compostos bioativos naturais derivados das uvas que funcionam como potentes antioxidantes.
Miden - O primeiro produto, inspirado nos aperitivos italianos, como aperol, é o Alternative Italian Zero. O segundo, que é uma versão do London Dry, é o Alternative London Zero. Esta semana deve ser lançado o uísque zero da marca, o Alternative American Zero. As bebidas foram desenvolvidas como bases de mistura para coquetelaria.
Destilaria Maravilha (Centro) - A carta tem três drinques autorais sem álcool, que não são apenas versões adaptadas de drinques tradicionais. São receitas pensadas desde a origem para serem não alcoólicas, com bases próprias e infusionadas sem álcool.
Gurumê (Zona Sul, Tijuca, Barra e Niterói) - Atualmente, o drinque sem álcool mais vendido é o Ronin Uri, preparado com água gaseificada, xarope de morango, suco de limão e néctar de caju, finalizado com espuma de melão.
Ristorantino (Barra da Tijuca) - Tem cinco opções autorais sem álcool na carta fixa, além de sugestões sazonais. A ideia é oferecer nos coquetéis camadas de sabor, acidez equilibrada, textura e complexidade aromática.
Ferro e Farinha (Zona Sul e Barra) -Tem oito coquetéis sem álcool no cardápio.
Pato com Laranja (Leblon e Barra) - A carta de drinks conta com quatro opções de drinques sem álcool.
Arp Bar (Arpoador) - Trabalha com bases artesanais, xaropes feitos na casa, infusões e shrubs produzidos a partir de ingredientes frescos e, sempre que possível, orgânicos. Entre oito opções sem álcool, se destacam as "Arp Sodas", oferecidas nos sabores: limão, goiaba com hibisco e hortelã, gengibre com limão e tamarindo com tangerina.
Pobre Juan (Ipanema e Barra) - Tem quatro opções de drinks sem álcool: Rue Frío, Picardía, Tarde de Verano e Vitória-Regia.
Babbo Osteria (Ipanema) - Conta com sete drinques sem álcool. Um dos destaques é o Olivia (morango, limão siciliano, grenadine e albumina).
Francese Brasserie (Ipanema) - Conta com sete drinques sem álcool.
Bares do Zeca Pagodinho (Cachambi, Flamengo, Barra e Jacarepaguá) - A carta contempla desde mono coquetéis, opções de baixo teor alcoólico, até coquetéis totalmente não alcoólicos. Além do Gin Pink, outro destaque é o Mônica Pagodinho.
Blue Blazer (Botafogo) - Tem quatro opções na carta, além de apostar na coquetelaria participativa, onde o cliente pode ajudar escolhendo ingredientes para personalizar o seu drinque no balcão.
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