Finanças

Nobel de Economia critica 'utopismo' na América Latina, alerta para clientelismo e destaca capacidade de convivência

Autor de ‘Por que as nações fracassam’ aponta desequilíbrio entre realidade e ideal nas políticas públicas da região durante evento no Panamá.

Agência O Globo - 29/01/2026
Nobel de Economia critica 'utopismo' na América Latina, alerta para clientelismo e destaca capacidade de convivência
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O economista britânico James Robinson, vencedor do Nobel de Economia em 2024 e autor do best-seller “Por que as nações fracassam”, afirmou nesta semana, durante palestra no Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá, que enxerga perspectivas positivas para a região, mas faz um alerta para o clientelismo.

— Se você olhar para o panorama geral, há 35 anos, a renda per capita na América Latina era, em média, cerca de 20% do nível dos EUA. Agora, ainda é cerca de 20%.

Robinson destacou o que chamou de “utopismo” presente em diversos aspectos da sociedade, inclusive nas políticas públicas, caracterizado pelo desequilíbrio entre o que é real e o que é ideal. Segundo ele, essa diferença fomenta o clientelismo, em que a solução dos problemas ocorre por meio de mediação política personalizada.

— O Estado promete fornecer serviços e direitos às pessoas, mas não consegue cumprir. Ele quer, ele espera, mas, na realidade, é utópico.

CULTURA DA INFORMALIDADE

Durante sua apresentação, Robinson abordou também a questão da informalidade econômica:

— Há muita criatividade no setor informal. Antes, costumávamos ver o setor informal como uma perversão: trapaceiam, não pagam impostos, sonegam. Mas quero que pensemos diferente. É uma manifestação geográfica. É a realidade junto com o ideal. A realidade é o setor informal, e o ideal é o setor formal. E aqui na América Latina eles podem estar lado a lado.

O economista comparou o tratamento dado aos imigrantes na Europa e na América Latina, ressaltando que, apesar de ser um continente mais pobre, a região consegue criar segurança social para absorver um grande número de pessoas.

Robinson citou o caso dos refugiados venezuelanos que migraram para países como Colômbia e Brasil, destacando que isso “mostra a capacidade dos latinos de coexistir, de se respeitar, de se tolerar e de resolver os problemas uns dos outros”.

Segundo ele, atualmente há 3 milhões de refugiados venezuelanos na Colômbia, que recebem assistência social e oportunidades sem gerar conflitos. Enquanto isso, na Europa, um milhão de refugiados sírios provocaram reações intensas e o surgimento de partidos de direita anti-imigração.

— Isso não existe na Colômbia. A América Latina, mesmo sendo um continente mais pobre, tem grande capacidade de criar oportunidades e segurança social para essas pessoas, absorvendo esse contingente. Isso contrasta com os Estados Unidos, que têm 500 mil venezuelanos e, neste momento, promovem um movimento intenso de expulsão de imigrantes — afirmou o economista.

Ao final, Robinson fez referência ao Brasil:

— É o país do futuro mesmo. Vocês conquistarão muitas coisas, mas, para isso, às vezes, a gente erra.

O Fórum Econômico América Latina e Caribe é realizado pelo CAF e conta com parceria de mídia do GLOBO e do Valor Econômico.