Finanças
Instabilidade econômica supera falta de talentos e se torna maior preocupação de CEOs brasileiros
Pesquisa da PwC revela queda na confiança e dificuldades para lucrar com IA; 60% dos executivos preveem reduzir contratação para funções iniciais nos próximos três anos
A instabilidade macroeconômica se tornou a maior preocupação dos presidentes de grandes empresas brasileiras, superando temas que dominaram o debate nos últimos anos, como a escassez de mão de obra qualificada. O movimento reflete um ambiente de maior incerteza, no qual os executivos também demonstram cautela em relação às perspectivas de crescimento no curto prazo. De acordo com a CEO Survey, pesquisa anual da PwC que ouviu mais de 4.400 líderes em 95 países, apenas 38% dos CEOs no Brasil dizem estar muito ou extremamente confiantes no crescimento da receita nos próximos 12 meses, patamar inferior aos 50% do ano passado e acima da média global de 30%.
A instabilidade macroeconômica lidera a lista de ameaças no país, citada por 38% dos executivos, seguida pela disrupção tecnológica (31%) e pela inflação (29%), todas com níveis de preocupação mais elevados do que no restante do mundo. Já a falta de talentos qualificados, que havia ocupado o primeiro lugar no levantamento anterior, perdeu espaço, mas segue relevante: 29% dos CEOs brasileiros ainda apontam o tema como um risco.
Segundo Marco Castro, CEO da PwC, a queda no nível de confiança reflete um acúmulo de questões que seguem sem solução e ampliam o risco para as empresas. Para ele, o último ano foi marcado por uma ruptura de padrões antes considerados estáveis no ambiente macroeconômico e geopolítico, com o avanço de medidas como tarifas, barreiras comerciais, bloqueios e embargos. A tecnologia, sobretudo por conta da IA, traz ainda mais incertezas quanto ao futuro:
— A instabilidade macroeconômica tomou a liderança porque isso está tocando diretamente na capacidade de investimento das empresas. É justamente por essa instabilidade que a empresa não consegue fazer captações, abrir capital, acessar mercados… A falta de talentos continua sendo um gargalo, mas muitas empresas, pelo redesenho dos seus negócios, estão conseguindo reduzir a sua necessidade de mão de obra através da substituição por tecnologias e simplificação de processos.
IA não trouxe retorno mensurável
Os temores em relação a um futuro cada vez mais dominado por tecnologias de IA acompanham outro indicador preocupante: mais da metade (56%) das empresas ao redor do mundo diz não ter conseguido qualquer benefício mensurável em receita ou custos por meio de IA. Globalmente, 29% das empresas relataram aumento de receita nos últimos 12 meses por meio dessa tecnologia, contra 37% no Brasil. Houve redução de custo em 28% das companhias nacionais e 26% no geral.
Castro diz que isso acontece por se tratar de uma novidade e ainda não está determinado quais companhias fornecedoras da tecnologia devem vencer essa disputa:
— Há uma indefinição de qual empresa vai se estabelecer nesse segmento, o que traz uma relutância em botar muito investimento em uma dessas tecnologias, em uma dessas IAs.
Ele conta que algumas empresas começaram a amadurecer internamente o uso de IA e se saíram melhor. São justamente aquelas que foram além da fase inicial, em que a tecnologia era usada de forma pontual, para traduzir materiais ou redigir textos, e passaram a utilizá-la de forma mais estratégica, na reestruturação de processos e modelos operacionais.
Os dados mostram que mais de um quarto dos líderes brasileiros utilizam amplamente a tecnologia em funções como geração de demanda (28%), serviços de suporte (28%), produtos e serviços (29%), definição de direcionamento estratégico (28%) e atendimento à demanda (20%).
— Uma série de empresas começaram a fazer isso graças à existência dos agentes, que ganharam muito mais vida nesse ano que passou. Há empresas adotando e se comunicando com agentes para redesenhar processos e ganhar eficiência, produtividade, trazendo novas fronteiras de investimento e oportunidade de negócio.
O levantamento mostra que muitas empresas têm adotado uma postura mais ousada em busca de crescimento. Mais da metade dos CEOs brasileiros (51%, ante 42% no mundo) afirma que suas companhias passaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos.
A pesquisa indica que essa diversificação tende a se traduzir em margens de lucro mais elevadas, e o setor de tecnologia desponta como o principal destino dessa expansão, tanto no Brasil (18%) quanto globalmente (12%).
Desemprego em carreiras iniciais
A sondagem aponta que 60% dos CEOs no Brasil preveem que precisarão de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos em função do avanço da IA, percentual acima da média global, de 49%. Castro ressalta, porém, que as empresas ainda não estão se preparando para esse cenário e tendem a minimizar um possível efeito colateral: o agravamento do já elevado desemprego entre os jovens.
— As empresas decidiram que terão menos vagas, mas não estão se preparando para as consequências disso. Vai ter um desafio muito grande na formação de mão de obra, desenvolvimento, treinamento, carreira, modelo de carreira, como é que isso vai funcionar. As consequências começarão a ser sentidas no curto prazo e são poucas as empresas que estão preparadas.
Maior interesse pelo Brasil
A PwC mapeou ainda que a relevância do Brasil na agenda dos investidores globais dobrou nos últimos dois anos, com a fatia das intenções de investimento para os próximos 12 meses passando de 3% para 6%. O país manteve a 13ª posição no ranking. Segundo a consultoria, o avanço reflete o potencial do Brasil, sustentado pela capacidade de geração de energia elétrica limpa e por setores já consolidados, como o agronegócio, o financeiro e o de tecnologia.
Para Castro, o movimento também está ligado a uma reconfiguração dos fluxos globais de capital, em que vários territórios se tornaram mais fechados ou mais arriscados para investir.
EUA no radar
Aproximadamente metade dos CEOs brasileiros (49%) dizem planejar investimentos internacionais, e os Estados Unidos se consolidaram como o maior parceiro, mencionado por 55% dos executivos, ante 36% da edição anterior. Além disso, dobrou o interesse pela China (de 10% para 18%) e pela Índia (de 3% para 6%).
Segundo Castro, o avanço dos Estados Unidos está associado ao esforço do governo americano de reindustrializar o país, além da resiliência da economia e do tamanho do mercado consumidor. China e Índia, por sua vez, ganharam espaço impulsionadas pelo aumento da renda média e pela expansão de seus mercados internos.
No caso chinês, o crescimento está diretamente associado ao fortalecimento do consumo e ao enriquecimento da população. Já a Índia tem absorvido uma parte da produção que antes ia para a China, ao mesmo tempo em que avança na estruturação de parques industriais e se consolida como um centro de serviços.
Risco climático
A CEO Survey também revela que o risco climático já é percebido no mercado. Quatro em cada dez CEOs brasileiros afirmam que suas empresas estão expostas à possibilidade de perdas financeiras significativas decorrentes das mudanças climáticas em 2026, percentual próximo ao observado no mundo (42%). No Brasil, essa preocupação é maior no agronegócio (63%), energia e serviços de utilidade pública (57%), varejo e consumo (33%) e serviços financeiros (32%).
Apesar desse reconhecimento, a incorporação dos riscos ainda é limitada. Apenas cerca de um em cada quatro CEOs diz concordar, muito ou extremamente, que sua empresa conta com processos estruturados para considerar o risco climático em decisões relacionadas à cadeia de suprimentos e compras (23%) ou ao design e desenvolvimento de produtos (28%).
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