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Carnaval no Rio tem 50 mil trabalhadores em barracões, camarotes, hotéis, bares e mais

Para a cidade, impacto é direto na circulação de dinheiro e no aumento da arrecadação de impostos, explica economista

Agência O Globo - 19/01/2026
Carnaval no Rio tem 50 mil trabalhadores em barracões, camarotes, hotéis, bares e mais
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Segundo a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), o carnaval gera 50 mil empregos na cidade. Apenas o Carnaval Fan Fest, arena que estreia este ano na Praia de Copacabana, com programação cultural gratuita que incluirá a transmissão de ensaios e desfiles, deve empregar 800 pessoas envolvidas na produção ou com fornecedores. Eventos privados e camarotes na Sapucaí também geram oportunidades temporárias, que aquecem a economia.

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— Esses empregos funcionam como uma injeção temporária de ocupação, especialmente relevante em um país com alto nível de informalidade. Para muitas pessoas, o carnaval representa uma oportunidade concreta de renda complementar ou até a principal fonte de sustento no período — explica Roberto Kanter, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Os setores de Turismo e hospitalidade, Economia Criativa, Eventos e Infraestrutura são os que mais contratam extras. Além deles, negócios de Comércio e Serviços, principalmente em áreas com fluxo de turistas e foliões, veem a demanda crescer. É o caso do Florir Café, em Copacabana, na Zona Sul.

— Eu tenho nove funcionários e costumam ficar dois no atendimento. Nesse período de maior fluxo de turistas, no entanto, costumo contratar duas pessoas a mais por dia. Se aumenta o fluxo, tem que aumentar os colaboradores — conta Livia Van Der Maden, dona do negócio.

Kanter explica o saldo na economia:

— Para a cidade, o impacto é direto na circulação de dinheiro e no aumento da arrecadação de impostos, especialmente em serviços, comércio e turismo.

‘Minha família vive o carnaval’

Depoimento de Klayton Vigneron, aderecista da União de Maricá, de 37 anos:

Desde os meus 17 anos, eu ‘faço’ carnaval. Comecei em 2009, na Mangueira, como ajudante de um aderecista. Ao longo desses anos, tive empregos de carteira assinada, trabalhei por conta própria como barbeiro a domicílio, mas sempre voltava pro carnaval. Fui aprendendo mais com os antigos, conhecendo gente, e passei a viver disso. Na União de Maricá, sou funcionário CLT da escola há dois anos, trabalhando na produção de eventos. E, nessa época do ano, faço um extra como temporário no barracão. Atualmente, sou aderecista, à frente de uma equipe de seis pessoas. O contrato é de três meses e aumenta minha renda em cerca de 60%. É um dinheiro que eu uso pra investir ao longo do ano todo na minha vida pessoal. Sou casado, tenho três filhos, e minha esposa, que é professora, como tira férias nesse período, também vem pra cá trabalhar. Até meus filhos maiores vêm. Minha família vive o carnaval.

'Vai me ajudar a morar sozinha'

O camarote King, na Marquês de Sapucaí, é preparado por 12 funcionários ao longo do ano. Mas, no mês do carnaval, o quadro aumenta. São 80 empregos diretos gerados e 400 indiretos.

Depoimento de Ana Luíza Pedro, auxiliar de produção do camarote King, de 23 anos:

Comecei a trabalhar na produção do camarote King em 2024. O contrato é temporário, mas tem assinatura na carteira de dezembro até fevereiro. Atualmente, eu faço aqui o atendimento dos clientes no Instagram e ajudo em tarefas administrativas. Como estudante de Administração, acredito que são boas experiências para conseguir um estágio na minha área no futuro, pois uso Excel, faço controles financeiros, entendo como funciona a legalização de funcionários, falo com o público... Financeiramente, também é muito bom. Consigo usar o que ganho nesses três meses por um bom período do ano. Em 2026, estou me organizando para morar sozinha, e isso vai me ajudar bastante. Além disso, trabalhar no maior espetáculo da Terra é muito maneiro. É corrido, pois tem muita coisa para fazer, mas o ambiente é leve, pois a nossa equipe é muito unida.

Temporários, mas preparados

As contratações formais podem ser de pessoa física ou microempreendedor individual para prestação de serviços ou pela CLT por prazo determinado.

Apenas para a área de Alimentos e Bebidas do camarote Folia Tropical são convocados 80 funcionários. São garçons, atendentes, cozinheiros, entre outros profissionais que precisam dar conta de fornecer uma boa experiência a 1.500 pessoas por noite. A responsável Kelly Cavalcanti explica que o caráter temporário das contratações não abre margem para despreparo.

— Carnaval é um dos projetos mais difíceis de formação de equipe. A noite em um camarote é extremamente cara e a gente tem que atender a exigência na ponta. Meu critério é trabalhar com quem vive do mercado de eventos. Eu digo que o contrato que a gente faz é temporário, mas a mão de obra não é. Contrato atendente que faz 50 eventos por ano. Para ele, isso não é temporário.

A oito anos a frente do Folia Tropical, ela conta que repete cerca de 80% da sua equipe todos os anos. O preenchimento de novas vagas também é feito com cuidado:

— Tenho uma equipe de departamento pessoal, entrevisto um a um, e a gente faz treinamentos. Exijo formação. Quer estar na cozinha? Precisa ter curso da Anvisa de manipulação de alimentos. E dos antigos, exijo reciclagem todo ano.