Finanças

Master é um caso que vai muito além de uma fraude bancária, dizem gestores da Faria Lima

Nova fase da operação Compliance Zero atinge centro financeiro e fundador do banco Master

Agência O Globo - 14/01/2026
Master é um caso que vai muito além de uma fraude bancária, dizem gestores da Faria Lima
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A complexa rede de ilícitos financeiros envolvendo o Banco Master vai muito além de uma simples fraude bancária, segundo gestores da Faria Lima. As investigações da Polícia Federal e do Banco Central revelam que gestoras, administradoras e fundos de investimento em participações (FIPs) participaram ativamente do esquema, indicando envolvimento de profissionais com profundo conhecimento do mercado de capitais.

De acordo com fontes do mercado, o caso não se resume a uma fraude cometida pelo banqueiro Daniel Vorcaro, mas sim a um sofisticado crime contra o sistema financeiro nacional.

A investigação revelou que o Master e o Banco de Brasília (BRB) – que chegou a tentar comprar o Master, mas foi impedido pelo BC – teriam "fabricado" títulos de crédito inexistentes para justificar a transferência de R$ 12,2 bilhões do banco estatal para o Master. Também foram identificadas movimentações atípicas entre fundos de investimento e simulações de empréstimos milionários entre o Master e empresas de capital social irrisório.

— Isso evidencia uma estrutura extremamente abrangente, envolvendo FIPs, administradores, gestores e até uma DTVM responsável pela distribuição dos fundos. Não é plausível que tudo tenha sido arquitetado apenas por Daniel Vorcaro — afirma um gestor do mercado financeiro.

Segundo ele, Vorcaro não detinha conhecimento técnico suficiente para montar um esquema dessa magnitude, contando com apoio de especialistas em operações do mercado de capitais, que agora também são alvo da Polícia Federal.

Na nova etapa da operação Compliance Zero, Vorcaro volta a ser investigado, juntamente com seu cunhado Fabiano Zettel (pastor e empresário), o empresário Nelson Tanure (conhecido por adquirir empresas em dificuldades) e João Carlos Mansur, fundador da Reag, que perdeu o controle acionário após ser alvo da operação Carbono Oculto.

Um dos exemplos mais emblemáticos do suposto esquema é o Fundo Brain Cash, administrado pela Reag. Com apenas 20 dias de existência, o fundo recebeu R$ 450 milhões por meio de um empréstimo do Banco Master, multiplicando seu patrimônio em cerca de 30 mil vezes. A única transação registrada em seu balanço envolveu uma empresa comandada por uma ex-funcionária da Reag.

Outra operação que chamou atenção foi uma sequência de transações relâmpago realizadas por uma rede de fundos administrados pela Reag DTVM, a partir de um empréstimo de R$ 459 milhões concedido pelo Banco Master. Uma dessas operações apresentou rentabilidade de impressionantes 10.502.205,65% em 2024.

Diante dessas violações ao Sistema Financeiro Nacional e da incapacidade do banco de honrar compromissos, o Banco Central decretou a liquidação do Master em novembro passado.

Para os gestores da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, a nova ofensiva da Polícia Federal contra o Banco Master não foi surpresa. "Até demorou", comentou um gestor, que preferiu o anonimato e destacou que a demora pode prejudicar a coleta de provas.

Em agosto do ano passado, a região da Faria Lima já havia sido alvo da operação Carbono Oculto, que investigou a ligação entre gestoras, fintechs e fundos de investimento com lavagem de dinheiro do crime organizado. Na primeira fase da Compliance Zero, em novembro, sete pessoas foram presas, incluindo Vorcaro, detido no Aeroporto de Guarulhos quando tentava deixar o país rumo a Dubai. Posteriormente, o Tribunal Regional Federal revogou sua prisão preventiva, permitindo que ele respondesse em liberdade com tornozeleira eletrônica.