Finanças
Fundo da Reag que recebeu R$ 450 milhões em operação do Master multiplicou patrimônio em 30 mil vezes em 20 dias
Investigação apura se reavaliação indevida de investimentos permitiu ‘rentabilidade extraordinária’
Com apenas 20 dias de existência, o Fundo Brain Cash, administrado pela gestora de recursos Reag, recebeu R$ 450 milhões a partir de um empréstimo do Banco Master e multiplicou em cerca de 30 mil vezes o seu patrimônio. Essa transação foi a única registrada no balanço do fundo, que tinha apenas um investidor: uma empresa dirigida por uma ex-funcionária da Reag. A operação chamou a atenção do Banco Central (BC) e passou a ser apurada pelo Ministério Público Federal (MPF) pela suspeita de reavaliação indevida de ativos, o que gerou uma rentabilidade extraordinária.
A investigação de suspeitas de irregularidades envolvendo transações entre o Master e a Reag identificou uma série de transações relâmpagos feitas por uma rede de fundos, conforme revelou O GLOBO. Uma dessas operações envolve o Brain Cash.
Outra operação considerada suspeita teve rentabilidade de 10.502.205,65% em 2024. O fluxo financeiro sob investigação tinha origem e destino no banco comandado por Daniel Vorcaro, liquidado no fim do ano passado por suspeita de fraude.
No dia 5 de abril de 2024, o fundo Brain Cash foi registrado com patrimônio total de R$ 15.000. O objetivo era realizar aplicações em crédito privado, como dívidas de empresas e títulos de renda fixa emitidos por bancos. O único investidor era a empresa Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag.
Após 20 dias de sua criação, em 24 de abril, o fundo recebeu, às 15h22, um aporte de R$ 450 milhões do seu único cotista, a Brain Consultoria — que, dois dias antes, havia tomado um empréstimo de R$ 459 milhões do banco Master. O valor representa 0,43% do capital social da empresa, que passou de R$ 100 para R$ 2,2 milhões quatro meses antes de a empresa realizar essa operação de crédito.
A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).
Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu o mesmo valor ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc. Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.
A partir daí, segundo a investigação, foi registrada uma sequência de operações suspeitas, sendo que algumas delas foram feitas de forma fracionada, com passagens em diferentes camadas de fundos. Há indícios de que o objetivo disso era reavaliar os ativos dos fundos e gerar uma rentabilidade extraordinária sem correspondência com ganhos econômicos reais.
Dinheiro de volta ao Master
A investigação também suspeita que, após transitarem em diferentes fundos administrados pela Reag, os recursos voltaram para o próprio Master por meio de aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal forma de captação do banco no mercado.
Procurada, a Reag explicou “que os recursos mencionados decorrem de operações de crédito estruturadas cujos desembolsos estavam vinculados ao avanço de projetos específicos” e que, “por determinação contratual, a liberação das parcelas só poderia ocorrer após a confirmação de marcos de execução e aprovação técnica desses projetos”.
Em nota, argumentou ainda que “enquanto tais condições não eram verificadas, os valores não podiam ser utilizados e deveriam permanecer aplicados em instrumentos financeiros vinculados ao próprio credor”. Esse modelo, diz a gestora, seria “amplamente utilizado no mercado de crédito estruturado, assegura que os recursos permaneçam alocados e preservados até que os projetos atinjam suas fases de implementação e autorização formal”. Procurado, o Master não retornou.
A Reag entrou na mira da Operação Carbono Oculto deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público no ano passado. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustível e empresas financeiras.
Ao menos três fundos administrados pela Reag que fizeram negócios com o Master também constam da lista de investigados na Operação Carbono Oculto, conforme mostrou reportagem do Uol em novembro de 2025. Dentre eles, estão o Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, que realizaram repasses relâmpagos. A dinâmica dessas aplicações em uma estrutura de camadas de fundos se repetiu em operações de lavagem de recursos atribuídas ao PCC, de acordo com a apuração da Polícia Federal.
A gestora de recursos nega qualquer irregularidade e tem enfatizado que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.
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