Esportes

A vitória do PSG sobre o Bayern, com muitos gols, pode ser o jogo que mudará a visão dos americanos sobre o futebol.

Por JAMES ROBSON, repórter de futebol da AP. 29/04/2026
A vitória do PSG sobre o Bayern, com muitos gols, pode ser o jogo que mudará a visão dos americanos sobre o futebol.
Michael Olise, do Bayern, comemora após marcar o segundo gol de sua equipe durante a partida de ida da semifinal da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, em Paris, na terça-feira, 28 de abril de 2026. - Foto: Foto AP/Christophe Ena.

MANCHESTER, Inglaterra (AP) — Possivelmente foi a partida mais inusitada da história da Liga dos Campeões e pode mudar algumas percepções antigas sobre o futebol.

A vitória do Paris Saint-Germain por 5 a 4 sobre o Bayern de Munique na terça-feira pareceu mais um jogo da NBA do que uma partida de futebol tradicional e estabeleceu novos recordes de gols para o maior torneio de clubes do esporte.

E pode não ser apenas um caso isolado. O emocionante jogo de ida das semifinais em Paris aponta para uma tendência crescente, à medida que alguns treinadores adotam uma estratégia de alto risco e alta recompensa que está deixando os torcedores sem fôlego.

O técnico do PSG, Luis Enrique, resumiu tudo perfeitamente, dizendo à emissora francesa Canal+: "Merecíamos vencer, mas também merecíamos um empate, e até mesmo teríamos merecido perder, porque este jogo foi incrível."

A nova era dos artistas no futebol

Apesar de ser o esporte mais popular do mundo, o futebol tem sido criticado, principalmente nos Estados Unidos, pela baixa quantidade de gols marcados, o que pode resultar em vitórias por um único gol ou até mesmo empates sem gols após 90 minutos de jogo.

Compare isso com a intensidade e os placares altos da NBA ou da NFL, e fica compreensível por que o futebol levou tempo para conquistar totalmente a atenção dos fãs americanos.

Torcedores do PSG acendem sinalizadores nas arquibancadas durante o jogo de ida da semifinal da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, em Paris, na terça-feira, 28 de abril de 2026. (Foto AP/Aurelien Morissard)

Mas o PSG, detentor da Liga dos Campeões, está na vanguarda dos novos espetáculos do futebol, com Luis Enrique como um treinador intransigente, determinado a atingir novos patamares de emoção em sua busca pela dominância.

O PSG sagrou-se campeão europeu pela primeira vez no ano passado, ao derrotar a Inter de Milão por 5 a 0 na final, em uma das atuações mais espetaculares da história do torneio. Com isso, o clube francês completou a tríplice coroa, conquistando também o campeonato e a copa nacionais na temporada passada.

Luis Enrique também conquistou a Liga dos Campeões com o Barcelona em 2015 e, na terça-feira, tornou-se o treinador mais rápido a atingir a marca de 50 vitórias na competição — provando que sua abordagem de muita ação está funcionando.

A tendência de ataque está se espalhando.

Não é surpresa, portanto, que seus métodos estejam sendo replicados em outros lugares. Principalmente pelo Bayern, que trilhou um caminho de sucesso na Liga dos Campeões nesta temporada sob o comando de Vincent Kompany e já conquistou o título alemão.

O PSG, com 43 gols, é o time com o maior número de gols na Liga dos Campeões nesta temporada. O Bayern vem em segundo lugar, com 42.

O emocionante jogo de nove gols de terça-feira foi a semifinal com o maior número de gols na história da competição, e nenhum dos clubes está falando em mudar sua abordagem para o jogo de volta em Munique na próxima semana.

“Perguntei à minha equipe quantos gols achamos que precisaríamos marcar, e concordamos que seriam três”, disse Luis Enrique. “Vamos mostrar a mesma mentalidade. Vamos vencer a partida.”

O vencedor da Bola de Ouro do PSG, Ousmane Dembélé, também está pronto para mais uma partida com muitos gols.

“Não vamos mudar nossa filosofia. Queremos atacar e eles também, então acho que teremos um grande jogo”, disse Dembélé ao Canal+.

Kompany, que foi um zagueiro campeão em série pelo Manchester City em seus tempos de jogador, está mostrando seu talento ofensivo como treinador.

“Uma coisa é analisar os gols sofridos – normalmente, cinco gols fora de casa em uma semifinal da Liga dos Campeões significam eliminação”, disse ele à Amazon Prime. “Mas se você olhar para as chances que criamos, poderíamos ter marcado mais. E isso precisa nos dar confiança.”

Harry Kane, do Bayern, comemora após marcar um pênalti, o primeiro gol de sua equipe durante a partida de ida da semifinal da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, em Paris, na terça-feira, 28 de abril de 2026. (Foto AP/Christophe Ena)

Um choque de estilos

O futebol sempre envolveu estilos contrastantes de ataque e defesa. O Brasil tradicionalmente é uma equipe que valoriza o talento individual de seus jogadores. A Itália, por sua vez, é mais defensiva e neutraliza os pontos fortes do ataque adversário.

O técnico José Mourinho, bicampeão da Liga dos Campeões, adotou uma abordagem mais pragmática para conquistar a competição — neutralizando os adversários com equipes bem organizadas e poderosas. Pep Guardiola, por outro lado, busca dominar as partidas com a bola e venceu o principal prêmio europeu em três ocasiões. Essa abordagem às vezes é usada para criticá-lo, já que, apesar de contar com alguns dos melhores jogadores do mundo no Manchester City, ele frequentemente fica aquém das expectativas na Liga dos Campeões.

É revigorante ouvir tanto Luis Enrique quanto Kompany reconhecerem os perigos associados ao seu estilo de futebol totalmente ofensivo.

"Meu trabalho é aceitar nada menos que a perfeição", disse Kompany. "Havia uma parte da partida que era inevitável, e essa parte eram os riscos que ambos estávamos dispostos a correr."

Mais gols, mais emoção.

Jogos com muitos gols são a tendência na Liga dos Campeões. Nesta temporada, a média é bem superior a três gols por jogo (3,51).

Esse valor é superior aos 3,27 da temporada passada, que era a média mais alta anterior.

Cada uma das últimas cinco temporadas figura entre as sete campanhas com maior número de gols na Liga dos Campeões, apontando para uma clara tendência de um futebol mais ofensivo desde o início da década. Em apenas um desses anos a média caiu abaixo de três gols por jogo — em 2022-23, quando chegou a 2,98.

A Taça dos Campeões Europeus foi renomeada como Liga dos Campeões em 1992. Durante a década de 1990, a média de gols por jogo foi de 2,69, número que caiu para 2,59 entre 2000 e 2010.

A média subiu para pouco menos de três gols por jogo (2,95) entre 2010 e 2020 e, até agora nesta década, a média é de três gols por jogo, com as equipes reforçando seus elencos com jogadores de ataque talentosos.

O PSG é liderado por Dembélé, que tem como flancos brilhantes jogadores como Khvicha Kvaratskhelia e Desire Doue.

O Bayern conta com o capitão da Inglaterra, Harry Kane, que chegou a 59 gols em 51 jogos por clube e seleção nesta temporada ao abrir o placar na terça-feira. O gigante alemão também investiu pesado no astro francês Michael Olise e no atacante uruguaio Luis Diaz. Ambos também marcaram no Parc des Princes.

Ousmane Dembélé, do PSG, comemora após marcar o terceiro gol de sua equipe durante a partida de ida da semifinal da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, em Paris, na terça-feira, 28 de abril de 2026. (Foto AP/Aurelien Morissard)

O Barcelona é outro dos principais expoentes do futebol ofensivo e emocionante, e conta com o espetacular adolescente espanhol Lamine Yamal, o ponta brasileiro Raphinha e o ícone artilheiro Robert Lewandowski. Mas seu técnico alemão, Hansi Flick, tem sido criticado por ser muito ofensivo na Europa – principalmente na derrota por 7 a 6 no placar agregado para a Inter de Milão na semifinal do ano passado.

A boa notícia para os torcedores na próxima semana é que PSG e Bayern parecem determinados a manter seus princípios ofensivos, o que deve proporcionar mais um confronto emocionante.

“O jogo lá será o mesmo jogo – um jogo maluco entre duas equipes que querem vencer e marcar gols. Precisamos ir lá com a mesma mentalidade, a mesma personalidade, para que possamos fazer um trabalho incrível lá, como fizemos aqui”, disse o capitão do PSG, Marquinhos.