Curiosidades
'Tigre de Papel': drama policial com Adam Driver é sobre 'como é difícil amar', diz diretor James Gray
Norte-americano esteve na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e diz porque toda arte é política, de Godard a Hitchcock
O diretor norte-americano James Gray, de 57 anos, afirma ao GLOBO que pensava “o tempo todo” no papel vivido pela atriz Scarlett Johansson em seu novo filme, “Tigre de Papel”, que abriu a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na semana passada, e contará com mais uma concorrida sessão no dia 27, no Teatro Cultura Artística, no centro paulistano. O filme é baseado numa confusão armada por homens. No enredo, o ex-policial especialista em segurança Gary (vivido por Adam Driver) convida o irmão engenheiro Irwin (Miles Teller) para prestar consultoria ambiental aos negócios de um grupo mafioso russo, sob o pretexto de que dali sairá um contrato financeiro absolutamente vantajoso. O plano deles é, com a negociação, alcançar o tal “sonho americano”. O acordo, evidentemente, sai de controle e a família se vê sob ameaça e vigilância, além de passar por alguns episódios de violência.
O motivo para a fixação do diretor com a personagem Linda Pearl é o contrassenso que ela vive. Na trama, embora a matriarca entenda todas as circunstâncias e riscos nos quais a família está envolvida, ela não faz parte de tomadas de decisão. Por vezes, é a única a não saber de um segredo familiar e está sempre afastada das crises por ser mulher.
— Ela é como Jocasta em “Édipo Rei”. É a pessoa que tem mais conhecimento do que qualquer um, mas é empurrada para fora dos negócios do patriarcado. E, ainda assim, é quem tem a visão mais completa de tudo — disse o diretor ao GLOBO em entrevista em São Paulo, onde ficou hospedado. — Ela foi mantida fora dos sonhos dos homens e tem a tarefa de manter os filhos do casal em um meio moral e ético. Dá para imaginar, inclusive, que ela ajuda a manter a família, porque se veste no filme como se tivesse um emprego, parece ter um. Ela está fora do enquadramento da história, mas, ao mesmo tempo, no centro dela.
O vínculo dos irmãos (e dos cunhados) fica sob risco, enquanto a tensão ao redor da família, que tem dois filhos adolescentes sob ameaça, cresce a todo instante.
A história se passa em 1980 na região do Queens, mesma localidade de outros longas anteriores do diretor, como “Armageddon Time” (2022) e “Caminho sem volta” (2000), além de ser a área onde James Gray cresceu. A reflexão pessoal que ele faz em “Tigre de Papel”, vale dizer, vai além da localização geográfica, refletindo também as relações vividas naquele trecho da América.
Se em “Armageddon Time” ele olhou para si mesmo, agora a personagem de Scarlett, com suas limitações, serve de modelo para que o diretor mire a vida de sua própria mãe.
— É a maneira como eu vejo a realidade das mulheres nos anos 1980. Acho que estamos melhores, mas ainda não chegamos lá. Se eu pensar sobre como minha mãe viveu seu papel em nossa família, consigo ver que foi muito sujeita ao patriarcado, e esse não é um lugar fácil de estar — diz. — Há uma cena em que ela (a personagem de Scarlett) basicamente demonstra que precisa que ao menos uma pessoa a escute. É muito triste.
O filme é centrado nas relações entre os personagens de Scarlett, Adam e Miles, que tentam manter a família unida em meio ao caos. Quando perguntado sobre qual seria o trunfo do longa — que chegará aos cinemas brasileiros em 7 de janeiro do ano que vem, após a passagem pela mostra —, Gray afirma que a força está justamente na química do elenco:
— Para mim (o que mais me entusiasma), é trabalhar com os atores. Toda ideia de trabalhar com um filme assim é aproveitar o quanto posso me conectar com os personagens. Esse set foi muito feliz. Nos unimos bem. Não quero dizer que foi uma festa, mas vi que eles podiam me surpreender. Estavam todos muito vulneráveis, como Scarlett usando aqueles óculos sem maquiagem, Miles com mullets que o deixam um pouco ridículo e Adam se sacrificando de uma maneira bonita. Essa foi a mágica.
Rodrigo Teixeira, brasileiro produtor do longa — também parte do sucesso “Ainda Estou Aqui”, filme brasileiro premiado com Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 — conta que, apesar de “Tigre de Papel” refletir a vida doméstica de Gray, o diretor se mostra disposto a discutir detalhes sem enrijecer-se em sua memória familiar. A dupla já trabalhou junta em “Ad Astra” (2019) e “Armageddon Time” (2022) e mantém uma relação de amizade.
— James é um cara superaberto, conversa muito, sabe o que quer. Sabe quem são as pessoas, quem são esses personagens. Ele dá embasamento para o ator construir seu trabalho, tanto é que Miles Teller, segundo o próprio James, acabou desenvolvendo uma semelhança real com o jeito de falar e de ser do pai dele (retratado no filme). James é um ator nato, ele sabe imitar todo mundo — diz Rodrigo. — É muito difícil ter um ator que não aceita trabalhar com ele.
James Gray não nega que “Tigre de Papel” teve a carga de suspense inspirada no britânico Alfred Hitchcock (1899-1980). Dá para enxergar até certa semelhança na forma como a polícia é retratada no longa. Se nos filmes do mestre do suspense as forças de segurança eram, em geral, um pouco incompetentes — o diretor de “Psicose” contou, inclusive, que tinha fobia de policiais por conta de um trauma de infância, ao ter ficado numa cela durante cinco minutos após um pedido de seu pai na delegacia —, em “Tigre de Papel”, a corporação é também limitada e está sempre um passo atrás da máfia. O motivo não é estupidez ou arrogância, mas a corrupção.
— Hitchcock foi uma grande influência desde o início — diz Gray. — Há uma coisa subestimada nos filmes do Hitchcock, que é a diferença dos trabalhos após a Segunda Guerra. Até porque ele chegou a registrar os campos de concentração e ficou traumatizado. Quando você assiste a filmes como “Interlúdio” (1946), percebe que o tom é muito diferente do que se via antes. Não é apenas suspense, Hitchcock se mostra um diretor com grande compaixão.
Gray afirma que essa “extensão da simpatia” trabalhada por Hitchcock, a paixão pelos personagens, significa “tudo” em trabalhos artísticos.
— No fim das contas (o que importa) é a extensão da simpatia. Se não houver amor, essa arte não valerá de nada — defende. — Claro que toda arte é política, mas é preciso ter outros aspectos nisso. Mas temos que lembrar que o amor é a única coisa que importa e o que vai salvar a raça humana.
Toda arte é política
Ao ser questionado se sua arte, que já refletiu desigualdades sociais e raciais em “Armageddon Time” e agora se dedica aos tentáculos da corrupção e da influência de grupos criminosos na sociedade, não seria, portanto, bem carregada de um viés político, ele não discorda. E garante que mantém suas posições em cena.
— Toda arte é política, mesmo quando não é politicamente intencionada. “Duro de Matar” (1988), com Bruce Willis, é político. Mas para alguns círculos do cinema, da crítica, o tempo parou lá em 1968 (ano de mobilização social e contestações políticas). E o trabalho tem que ser propaganda e agitação (agitprop) — opina. — Se você olhar para o trabalho de Godard (1930-2022), por que é tão bom? Porque ele era um marxista? Claro, ele era, mas é porque seu trabalho é sobre amor. “O Desprezo” (1968) é sobre amor.
A liga fundamental para produções cinematográficas, na visão de Gray, é a necessidade de que o espectador acredite na história, que embarque na fantasia (“Nossos sonhos também são narrativas”). A política, ele diz, deve surgir num tipo de subtexto presente na história vista nas telas.
— A desconstrução não começa com o artista, mas com o crítico, o espectador. Hoje, os artistas pensam que devem fazer um tipo de desconstrução. Eles querem estar acima da ideia de história. Pensam que, quando um filme é político, ele tem que ser apenas político. Ele tem que (obrigatoriamente) se engajar com os perigos do sistema que nós criamos. Mas não pode ser só isso. Penso também que a identidade não pode ser apenas reduzida a uma ideia de oprimido ou opressor — defende. — E digo isso como uma pessoa de esquerda.
Como é difícil amar
Ao ser perguntado, então, qual seria o subtexto que faria o espectador embarcar em “Tigre de Papel”, ele disfarça, mas entrega:
— A história pode levar a muitos lugares. Mas para mim a coisa mais importante é a ideia de como é difícil amar. E o sistema que fizemos para nós mesmos faz isso ainda mais difícil. O mercado é brutal, hostil às nossas emoções — opina. — Se eu, por exemplo, estivesse em meio a uma negociação de mercado com você, seria menos importante o resultado. (Na lógica atual), o que interessa mesmo é a influência. O fato de eu ter potência sobre você. O filme é sobre como é difícil para a raça humana navegar neste momento. É a raiz de todos nossos problemas.
Rodrigo Teixeira, o produtor brasileiro, afirma que James entrega com “Tigre de Papel” a “história americana clássica”. Ele enxerga neste longa — que no circuito norte-americano estreia oficialmente em meados de novembro — uma repercussão positiva, com grande interesse da crítica. Apesar do modelo americano estabelecido, ele não deixa de ressaltar a contribuição do Brasil no trabalho.
— Por um lado, esse filme é muito brasileiro, porque garantimos que ele fosse feito. É o filme (com trabalho brasileiro) de maior chance no Oscar nesta temporada. Porque se ele for indicado a melhor filme, eu serei também — lembra. (Mariana Rosário)
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