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Crítica: Reunião de contos de Luís Pimentel traz cotidiano das ruas do Rio costurado pela brutalidade

Veja ainda lista de lançamentos literários da semana, reunindo obras de Antonio Carlos Secchin, Kiyoko Murata e o músico Mu Carvalho

Agência O Globo - 17/10/2026
Crítica: Reunião de contos de Luís Pimentel traz cotidiano das ruas do Rio costurado pela brutalidade
Os contos de “Queima o velho!”, livro de Luís Pimentel - Foto: Reprodução Redes Sociais

Costurados pela brutalidade, os contos de “Queima o velho!”, livro de Luís Pimentel, reúnem personagens diversos que veem suas vidas naufragarem por razões desumanas. O ônibus que segue viagem depois de um assassinato, o idoso que decide ir para a casa de repouso a fim de não dar trabalho aos filhos, as relações familiares travadas por situações-limite, o encontro com o assassino do pai: tudo isso revela episódios movidos por tensões do cotidiano, que podem acontecer na próxima esquina ou em um cômodo da própria casa.

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A antítese presente no título do poema utilizado como epígrafe da obra, “O cortejo do velho novo”, de Bertolt Brecht, desperta nosso olhar para o entrelaçamento das palavras opostas. Saudar o novo, muitas vezes, é uma estratégia deturpada para manter estruturas ultrapassadas. A narrativa homônima ao título do livro trabalha essa ideia a partir da reflexão crítica provocada pelo enredo, afinal o fato de um grupo de rapazes queimar um idoso depois de vê-lo deitado na rua enrolado em um cobertor traduz o perigo de discursos e práticas autoritários.

A crueldade é o elemento que estabelece a coesão temática do livro. Os contos “Na janela”, “Neblina”, “O batente” e “Mãe é mãe” merecem destaque por abordarem, respectivamente, em uma linguagem que combina concisão e profundidade, o impacto da solidão na velhice, a dúvida sobre o ato de vingança, a permanência da rotina após uma briga fatal e a decisão de um homem de não comparecer ao enterro da mãe. Essa concisão, certeira em determinadas narrativas por sua expressividade literária, em outras não alcança o mesmo efeito. Contos como “Bina” e “Café fraco” geram a sensação de que alguns instantes, ou mesmo personagens, poderiam ser mais bem explorados no texto.

Em “Mãe é mãe”, vale registrar a imagem a respeito do momento em que o filho, funcionário de um açougue, revisita a própria história assim que recebe, no trabalho, a notícia da morte de sua mãe: “O silêncio ficou ali, vermelho, sangrando entre as carnes penduradas.” A cor quente, presente também na capa do livro, faz referência às chamas que queimam um corpo, ao sangue que reveste dores silenciadas, à arma de fogo apontada para a barriga de uma mulher grávida.

O som da rua

Como na vida urbana, na obra a violência surge em geral de modo inesperado, enquanto observamos o cenário carioca através de lentes que focalizam detalhes alheios aos cartões-postais da cidade. Passando pelo banco de madeira na porta da farmácia, pelo balcão da padaria, pela pizzaria da esquina e pelo sacolão, Magrelinha, protagonista do primeiro conto do livro, orienta nossa andança pelas ruas, fato que aguça também nossos ouvidos, atentos aos bate-papos e burburinhos nas calçadas.

Nesse passeio, somos mais do que espectadores de uma cidade em movimento, na medida em que, captado pela trama, o leitor passa a ser personagem, passageiro do ônibus onde Magrelinha entra depois de ganhar um sanduíche da moça da loja de sucos. O barulho do motor do veículo, o anúncio do assalto e a discussão dos personagens são outros sons de uma cidade partida — para citar Zuenir Ventura —, barulhos que por vezes desencadeiam também a ausência de voz.

Os contos de “Queima o velho!” abordam esse jogo entre som e silêncio de modo tão profícuo que a música se soma às narrativas, seja nas diferentes letras mencionadas em “Na janela”, seja nas epígrafes de João Bosco e Aldir Blanc, em “A crooner do Norte” e “Nego doido”, e de Wilson Batista, em “Neblina”. Ao citar compositores que fazem de suas músicas crônicas da cidade, Luís Pimentel situa as narrativas em bairros como Lapa e Estácio de Sá e evoca fatores como a malandragem e o samba, além de homenagear a vida de quem percorre o Rio e compõe o rancho da goiabada blanquiano.

Entranhadas no cotidiano, as 24 ficções curtas revelam o espanto que ronda a contemporaneidade, com relações de poder capazes de tratar uma tragédia como um acontecimento banal ou de enxergar na dor do outro o próprio riso. Nesse contexto, a literatura inverte a lógica excludente e joga luz ao que na rotina urbana costuma ser invisibilizado. Quando o livro se fecha, seus ruídos seguem provocando incômodos em quem andou por aquelas páginas.

Thaís Velloso é autora de “Teias no céu” (Patuá, 2026), professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ.

Novos livros

'Memórias sintetizadas'
Autor: Mu Carvalho. Editora: Memorabilia. Páginas: 256. Preço: R$ 95.

Compositor, pianista, tecladista, arranjador e produtor musical, Mu Carvalho tem em seu currículo muitos LPs gravados, além da produção e criação de trilhas sonoras para novelas, séries e filmes. Fundador do grupo A Cor do Som, com quem gravou 14 discos, o artista lança sua autobiografia no próximo dia 26, a partir de 18h30, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, no Leblon).

'Em sintonia com o sucesso'
Autor: Jorge Davidson. Editora: Gryphus. Páginas: 380. Preço: R$ 105.

Ao longo de três décadas, o autor lançou grandes estrelas da música brasileira, como Blitz, Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Fernanda Abreu, Skank, Chico Science & Nação Zumbi e Planet Hemp/D2, entre muitos outros. Agora, conta histórias dessa trajetória vitoriosa neste livro, que será lançado na terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, no Leblon).

'Vanguarda em construção'
Autor: Sérgio Martins. Tradução: Célia Euvaldo. Editora: Cosac. Páginas: 312. Preço: R$ 139.

Publicado originalmente em inglês pela MIT Press, o livro do crítico e historiador da arte Sérgio Martins, que ganha edição em português pela Cosac, propõe uma revisão da forma como a produção artística nacional é compreendida no cenário global, a partir de conceitos como o “não-objeto” e “construtividade”. O lançamento será na próxima sexta-feira, às 19h, na Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá 572).

'Mulher de prazer'
Autora: Kiyoko Murata. Editora: Estação Liberdade. Páginas: 320. Preço: R$ 88.

Vencedora do Prêmio Akutagawa, a autora desfia múltiplas camadas da condição feminina em uma sociedade que naturalizava a exploração sexual de adolescentes. A trama acompanha uma jovem japonesa vendida pelos pais a um bordel de prestígio. Sem cair na armadilha do melodrama, Kyoko Murata consegue celebrar a capacidade humana de preservar a dignidade, criar vínculos e transformar a dor em força.

'Abichedário'
Autora: Antonio Carlos Secchin. Tradução: Andrea Ebert. Editora: Rocquinho. Páginas: 48. Preço: R$ 69,90.

Poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin transforma, em “Abichedário”, as 26 letras do alfabeto em um divertido zoológico. Em versos cheios de rimas, trocadilhos e humor, o autor lida com uma pergunta interessante: é possível apresentar o alfabeto para uma criança sem tirar a graça das palavras? Para Secchin, a resposta passa pela poesia, pelo humor e pela brincadeira.