Curiosidades

O tempo de Foucault: autor ocupa centro de discussões atuais, de estudos de gênero a necropolítica e como somos moldados pelo nosso entorno

Nos 100 anos do autor de obras clássicas das Ciências Humanas, que escreveu que um dia o século seria deleuziano, é mais provável que possamos considerar que estamos numa época foucaultiana

Agência O Globo - 13/10/2026
O tempo de Foucault: autor ocupa centro de discussões atuais, de estudos de gênero a necropolítica e como somos moldados pelo nosso entorno
Gilles Deleuze - Foto: Reprodução

Em um texto sobre o seu amigo e também pensador francês Gilles Deleuze, Michel Foucault escreveu que um dia o século seria deleuziano. Se esse momento ainda não chegou, nos 100 anos do autor de obras clássicas das Ciências Humanas e Sociais como A palavra e as coisas e Vigiar e punir, é mais provável que possamos considerar que estamos em um tempo foucaultiano. Não por praticar suas ideias libertárias, já que vivemos um momento tristemente conservador, mas por usar suas ferramentas teóricas para enfrentar questões políticas e sociais da atualidade. Inclusive esse conservadorismo.

Parte relevante da pesquisa nas humanidades passa por esse personagem que trafega com desenvoltura por Filosofia, História, Comunicação, Direito e diversas outras disciplinas. Os estudos de gênero e a teoria queer, de Paul Preciado, por exemplo, dialogam com a sua História da sexualidade, que mapeou como o sexo é um dispositivo de sociabilidade desde a Antiguidade. A necropolítica de Achille Mbembe é um desdobramento, a partir de países que foram colônias de grandes potências, do conceito de biopoder foucaultiano. Isso para ficar em apenas dois casos.

Nascido Paul-Michel Foucault em 15 de outubro de 1926 (divide o aniversário com o alemão Friedrich Nietzsche, uma das suas influências), o francês é um dos principais nomes do pós-estruturalismo. Esse grupo, que inclui além de Foucault e Deleuze, Félix Guattari, Roland Barthes e Jacques Derrida, para citar poucos mas representativos nomes, eclodiu para o mundo ao redor do Maio de 1968, quando os protestos nas ruas de Paris ditaram o comportamento político-social no Ocidente. Se o mundo anglófilo propunha o Flower Power do movimento hippie, os franceses preferiram arrancar as pedras das calçadas para arremessá-las nos poderes instituídos. Esses intelectuais traduziram a energia das ruas em livros, aulas, posicionamentos públicos. Entre eles, Foucault era figura de proa.

Símbolo muitas vezes do estereótipo do acadêmico francês, com óculos, gola rolê e postura libertária, acrescentando apenas o detalhe da careca, Foucault trafegou em três grandes momentos de pensamento, que são entremeados entre si. Ainda na década de 1960, começou com o chamado período arqueológico, em que buscou entender como os saberes e o conhecimento são constituídos ao longo do tempo. Num segundo momento, já na década de 1970, foi a vez do genealógico, de inspiração nietzschiana, em que tentou compreender a formação dos poderes que moldam nossos modos de viver. Por fim, na década de 1980, numa fase um pouco menos conhecida e menor, pois Foucault morreu em 1984, ele abordou o que ficou conhecido como estética da existência ou cuidado de si. Foi sua forma de tentar imaginar como as nossas subjetividades são constituídas a partir dos diferentes vetores de força que nos atingem cotidianamente.

Essa ligação mais próxima com o dia a dia é uma das principais revoluções foucaultianas. Em vez de pensar exclusivamente em grandes estruturas, no sistema como um todo, ele foi no menor, nas relações mais comezinhas para demonstrar que somos moldados pelo nosso entorno, igualmente. Ele não ignorou a economia política nem as classes sociais, mas sugeriu que é, também, na família, na escola, na igreja, no sexo, na forma como prendemos as pessoas, como tratamos os neurodivergentes que moldamos nossas personalidades. A política não aparece apenas nas eleições, mas acontece no cotidiano, estando nós atentos ou não.

A preocupação com essa micropolítica foi — e continua sendo — um dos alvos de parte da esquerda marxista mais tradicional. Veio daí o que muita gente apelida, para soar fútil, de pensamento identitário. Mas Foucault não queria abandonar o conhecimento de Marx e cia. Ele almejava inserir novas maneiras de tratar a exclusão de boa parte da sociedade. Era o nascimento da interseccionalidade, tão falada hoje. Em vez de pensar exclusivamente o pobre, deveríamos também teorizar sobre as mulheres, os indígenas, os povos pretos, o meio ambiente, o mundo LGBTQIA+, de que, aliás, ele também fazia parte, e por aí vai. Sua proposta era a diversidade.

Essa postura destoante sobressai na virada para os anos 1980, com a ascensão de governos neoliberais nos EUA e na Inglaterra. Por estudar o movimento de forma não abertamente crítica, Foucault é acusado pela esquerda mais tradicional de ter endossado o neoliberalismo. O movimento começava a varrer o mundo e produziu, desde então, fenômenos como a transformação da percepção das classes populares: elas não se sentiriam mais como pobres, mas como empresários de si — termo, aliás, foucaultiano.

Outro grupo, a qual me filio, pensa essa aproximação de Foucault como uma forma de “hackear” o pensamento neoliberal. O francês teria percebido que o neoliberalismo “empoderava” o indivíduo ao pregar a meritocracia, dizendo que ele era o único responsável pelo seu sucesso. Contra uma esquerda mais autoritária, esse novo movimento soaria como um convite à rebeldia, tal qual um filho agiria diante do pai — o Estado — controlador. A partir daí, ele reforça a importância da liberdade de escolha do indivíduo, mas reforçando — e essa é a enorme diferença — seu impacto na sociedade.

Por isso sua última fase sugere uma Estética da Existência. Tal qual artistas, poderíamos tratar nossas vidas como uma obra a ser criada. Contudo, é necessário lembrar, sempre, que a matéria-prima provém das condições já encontradas em nosso entorno. Seria uma forma de responder ao neoliberalismo a partir da esquerda. Melhor: seria a invenção de uma nova esquerda. Uma esquerda que continua a se importar com o trabalho, a produção econômica, o Estado, mas agora também pensa nos desejos, nos interesses, na diferença. Uma esquerda que afirma que podemos ser o que quisermos, não precisamos obedecer a patrão, pai ou Estado, mas que não estamos sozinhos no mundo. Há redes de segurança para o caso de darmos um passo em falso. Uma esquerda cuja subjetividade inclui ao mesmo tempo a autonomia e a solidariedade.

* Ronaldo Pelli é doutor em Filosofia